O milagre de São Conrado

O milagre de São Conrado

Tutty Vasques

29 de agosto de 2010 | 06h41

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Pânico à parte, respeitada já uma semana de cessar fogo na região, o que mais impressiona numa análise técnica da violência do Rio é a falta de pontaria. De lado a lado! Nesse último confronto entre a polícia e 60 traficantes armados até os dentes nas imediações do Hotel Intercontinental, em São Conrado, foi tiro pra tudo que é lado e, no entanto, houve uma única baixa – e nas fileiras inimigas – em mais de uma hora de guerra conflagrada. Os 30 reféns que coadjuvaram a ação, mais outras tantas dezenas de figurantes que por ali passavam a caminho do mar, não sofreram nenhum arranhão.

Isso mais ou menos explica porque o Brasil perde, segundo o New York Times, para países como a Venezuela, o México e o Iraque em número de homicídios per capita. Em compensação, somos, seguramente, campeões mundiais de balas perdidas!

Dizem, inclusive, que a expressão “acertar na mosca” está perdendo o sentido figurado no País. Graças a Deus! Deve ter o dedo Dele nos erros de mira que marcam alguns dos momentos mais aflitivos da desordem urbana nacional. Foi puro milagre o que aconteceu naquela manhã ensolarada de bangue-bangue cerrado no trecho da orla carioca liberado à prática do vôo-livre. Entre mocinhos e bandidos, turistas apavorados e banhistas perdidos, salvaram-se até cegos no tiroteio.

Pela quantidade de fuzis e metralhadoras flagrados no fogo cruzado, francamente, dá até pra desconfiar que a munição era de festim. Mal comparando, numa situação com a metade dos reféns e um único alvo na mira dos militares, morreram oito inocentes esta semana na lambança policial que precipitou o trágico desfecho de um sequestro a ônibus em Manila, nas Filipinas.

No Rio, onde ainda não tem “polícia pacificadora”, como é o caso dos morros de São Conrado, resta ainda rezar para que Nossa Senhora da Falta de Pontaria proteja-nos do mal, amém!

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