O neto genérico

Tutty Vasques

16 Outubro 2011 | 06h44

ILUSTRAÇÃO POJUCANSe fosse neto de Odorico Paraguaçu, Bruno Covas teria ido de branco ao Conselho de Ética para ser mais claro sobre o que quis dizer com o que efetivamente disse a respeito da praxe de propina parlamentar na elaboração de emendas ao Orçamento do estado que já foi governado por seu verdadeiro avô.

Como São Paulo não é Sucupira, bastou mandar uma cartinha à Assembleia Legislativa na terça-feira passada explicando que fez confusão entre o real e o hipotético ao ser indagado sobre corrupção. “Acabei narrando exemplo como fato!” Entendeu?

Se fosse neto de Joseph Goebbels, Bruno Covas teria escrito, parafraseando aquele famoso axioma do falso avô sobre mentiras que viram verdades: “Um exemplo repetido mil vezes em palestras vira fato numa entrevista”.

Há 2 meses, perguntado por jornalista do Estadão se já havia passado pelo constrangimento de proposta de propina, o atual secretário de Meio Ambiente de SP respondeu: “Ah, já! Uma vez consegui uma emenda parlamentar de R$ 50 mil para obra de um município e, convênio assinado, o prefeito veio me perguntar com quem deixava os R$ 5 mil.” E ainda se gabou do encaminhamento que deu ao assunto: “Doa para Santa Casa, eu não vou ficar com isso” – eis o “exemplo” que, naturalmente, foi tomado como fato no noticiário.

Se fosse neto do José Dirceu, Bruno Covas teria acusado a grande imprensa golpista de deturpar suas palavras quando a declaração voltou à tona mais recentemente à reboque do escândalo da venda de emendas parlamentares detonado pelo deputado Roque Barbiere.

Bruno Covas, ao contrário, sustenta o que disse, mas, a despeito dos fatos, escora-se no DNA do maior de seus exemplos: “Minha manifestação teve a única finalidade de reafirmar por principio que abracei inspirado no exemplo que pude testemunhar desde a mais tenra idade.” Vovô Mário deve estar orgulhoso e preocupado com a citação! Esse menino podia ser neto de qualquer um!