O velório de um bairro

Tutty Vasques

19 de julho de 2014 | 00h02

reproduçãoA Gávea, para quem não conhece bem o Rio, é um dos raros recantos nobres da cidade que ainda não viraram passagem de gente que sai do trabalho para casa ou da praia para um fim de tarde nas cachoeiras do Horto. Os moradores da Gávea se reconhecem na rua: cumprimentam os vizinhos, o carteiro, o lixeiro, o dono do botequim, o jornaleiro, o apontador do jogo do bicho, os guardinhas da PUC, os caras que levam os cachorros das madames para passear, os porteiros, “salve seu Zé!”

Moças do corpo dourado do sol de Ipanema dividem o ponto de ônibus da Rua Marquês de São Vicente com a molecada de escola pública que desce a Rocinha acostumada a cruzar com o fluxo turístico no sentido inverso. A Gávea é trilha dos jipes que fazem safaris na favela! No meio do caminho tem o Instituto Moreira Sales, paraíso cultural aberto às duas bandas da cidade partida. A Gávea é tão especial que até o shopping que leva o nome do bairro é menos impessoal que os do resto do mundo.

A Urca talvez seja a única outra jurisdição da sofisticada zona sul carioca que também pode se orgulhar dessa civilidade comunitária do bem viver no balneário. Leva, entretanto, a desvantagem de que, estando lá, você terá que se afastar da vida bucólica à margem da Baía de Guanabara se resolver buscar um pouco de agito ou consumo de qualidade. Na Gávea, tudo isso está ali, nas bordas de seu território fronteiriço com o Leblon e o Jardim Botânico, bairro e parque próximos o suficiente para se visitar a pé.

Quem sabe de mim menos ainda do que conhece o Rio, deve estar pensando que falo assim do lugar onde moro pra me gabar, ainda mais depois que minha cidade foi exemplo de convivência pacífica, tolerância e alegria do início ao fim da Copa do Mundo. Antes fosse só um espasmo de bairrismo!

Escrevo isso que deveria ser uma coluna de humor – desculpem o anticlímax num sábado – voltando do velório em que meu bairro se transformou após o assalto seguido de morte de uma das protagonistas da ideia de lugar que fez da Gávea este pé de morro tão peculiar. Tintim Mascarenhas, a adorável sócia do bistrô Guimas, há mais de 30 anos juntando pessoas bacanas no pedaço, foi assassinada na quinta-feira com um tiro à queima-roupa na cabeça em plena hora do almoço, tentando defender sua bolsa na calçada mais democrática disso que os cariocas chamam de Baixo Gávea.

Nas horas que se seguiram à covardia, chegaram ao restaurante amigos mais ou menos próximos de todos os cantos da cidade. Tinha gente chorando entre um chope e outro no Braseiro ali do lado, respirava-se algo mais pesado que o ar em toda vizinhança. Morreu um pouquinho da Gávea para quem tem o prazer de lá viver.

Ainda que isso não seja lá muito importante pra todo mundo, precisava dividir essa minha tristeza com quem costuma vir aqui em busca de um pouco de diversão. Sinto muito!