Pode dar velha

Pode dar velha

Tutty Vasques

02 de novembro de 2008 | 11h00

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Precisa ver o que diz o manual de instrução das eleições presidenciais americanas a respeito dos possíveis resultados do pleito, mas, pelo que a gente lê nos jornais, capaz de dar velha na apuração dos votos depositados nas urnas de todo país até a próxima terça-feira, dia 4. Se é que não vai ter prorrogação, par ou ímpar, pênaltis, zerinho-um ou cara ou coroa. Está começando agora a fase mais inacreditável do processo democrático nos EUA, quando vêm à tona às variadas possibilidades de fraude próprias do sistema precário de votação adotado em cada estado da federação.

Há três semanas, os americanos enfrentam longas filas onde o voto antecipado – o que já é um troço estranhíssimo – é facultado ao eleitor. Na Louisiana, a eleição praticamente já acabou. Na Flórida, onde a fraude é tão famosa quanto a Disney, a cédula é uma pegadinha. Se marcar com um xis ou um círculo o local indicado ao lado do nome do candidato, o papel riscado a lápis é recusado por uma máquina de leitura ótica. O eleitor tem três chances para descobrir que o certo é preencher a lacuna com um traço – ou seu voto será anulado. Em outros estados, a tecnologia empregada é tão atrasada quanto a frota de carros nas ruas de Havana. Ainda circulam em alguns distritos eleitorais americanos aquelas máquinas perfuradoras de cartões, coisa do tempo em que computador era chamado de cérebro eletrônico.

Urna eletrônica por lá ainda é uma engenhoca menos confiável que o papel de pão usado por autoridades eleitorais da Carolina do Sul nas primárias de janeiro. O nome Mickey Mouse, acredite se quiser, consta da lista de 130 milhões de eleitores registrados para votar, segundo consulta aos arquivos da Acorn (Association of Community Organizacions for Reform Now). Do you understand? Na tradução do imortal Ancelmo Gois, “deve ser horrível viver num país onde dever cívico é sinônimo de confusão”. Votar na América é como buscar atendimento médico em hospital público no Brasil. Precisa muita paciência para não desistir da empreitada – em 2004 houve espera de mais de oito horas até o escrutínio. Vale tudo: bate-boca em boca-de-urna, desmaios, micos na cabine de votação e muita desistência. Ninguém é de ferro, ainda mais onde o voto é facultativo.

A maior democracia do mundo proporciona dias de grande apreensão para o planeta. Se as eleições do dia 4 fossem numa República das Bananas de outros tempos, os EUA mandariam o Jimmy Carter de observador internacional para atestar – ou reclamar – lisura no processo de escolha do novo presidente. No Texas, ouvi dizer, há denúncias de que os candidatos estão trocando voto por promessa de bica d’água nas comunidades. Parece piada e, não à toa, o CQC de Marcelo Tas mandou equipe para cobrir a reta final daquela coisa toda.

O brasileiro – quem diria! – acha até graça da pobreza tecnológica das eleições americanas. Pode mesmo se orgulhar, neste particular, da terra em que nasceu. Ainda que hoje à tarde Deus não dê provas de sua nacionalidade no autódromo de Interlagos, onde a pátria de capacete espera por um milagre no caminho de Felipe Massa, teremos motivo de sobra para entrar a semana com a cabeça erguida: o vexame americano carimba o Brasil como o país da urna eletrônica. Não é pouca coisa!

Clique aqui para ler a íntegra do Ambulatório da Notícia, publicado na edição deste domingo do ‘Estadão’