Rabanadas conquistam República dos Panetones

Rabanadas conquistam República dos Panetones

Tutty Vasques

06 de dezembro de 2009 | 09h22

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

A não ser que estoure nos próximos dias um novo grande escândalo político envolvendo a rabanada, a tradição portuguesa da fatia de pão embebida em leite, passada no ovo, frita e servida com açúcar e canela deve roubar de vez a cena do panetone na mesa de Natal do brasileiro em 2009. Símbolo da última grande lambança do governador José Roberto Arruda, o bolo de massa fermentada com frutas cristalizadas, passas e sotaque italiano virou marca registrada da indignação popular neste final do ano. Nem a Yeda Crusius atingiu nos últimos meses marcas tão impressionantes de rejeição junto à opinião pública.

A indústria do panetone está ainda estimando o prejuízo esperado para este período de Festas. Talvez escape da quebradeira o fabricante que vencer o pregão eletrônico da próxima quinta-feira, em Brasília, quando o governo do Distrito Federal vai licitar a compra de 120 mil panetones “destinados à distribuição em famílias de baixa renda”. A ideia de fazer do pobre um álibi, traduzindo em caridade o que “as imagens não falam por si”, virou a grande obsessão de Arruda depois daquilo tudo. O panetone, na verdade, foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça devido à proximidade do Natal. Poderia ter creditado o flagrante de dinheirama ao peru amigo ou ao bacalhau beneficente, mas, na hora agá, sobrou para o panetone, coitado!

Não é a primeira vez que um artigo inofensivo de consumo cai em desgraça junto com a reputação de políticos e governantes pegos com a boca na botija. No início de 2008, a tapioca protagonizava o escândalo da vez em Brasília, assim como, num passado metido à besta, o uísque Logan, a caneta Mont Blanc e a gravata Hermés viraram grifes malditas da era Collor. Não lembro direito que outras marcas sofisticadas ocuparam na época o vácuo no mercado, mas é certo que, no caso da derrocada do panetone, só vai dar rabanada neste Natal.

Texto publicado na coluna Ambulatório da Notícia deste domingo no Estadão.

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