Shirley, 33

Shirley, 33

Tutty Vasques

20 de junho de 2009 | 08h34

reprodução

A inveja de Nelson Rodrigues, um clássico de cronistas em divã de psicanálise, é coisa que vai e vem ao sabor das marés do noticiário. Tem dias que as manchetes ululam por um sotaque rodriguiano que dê alguma ordem filosófica ao caos. “O ‘grande homem’ pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta”, escreveu o mestre muito antes da era Lula, quase matando Arnaldo Jabor de inveja anos e anos depois.

“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” – Nelson não esperava muito do ser humano, e até admirava “o caráter eterno da burrice”. Sabia que “o homem não nasceu para ser grande: um mínimo de grandeza já o desumaniza”. Conhecia bem o vazio da raça para narrar a vida como ela é em crônicas de jornal.

Aquele jeito descarado de ver o mundo faz falta nas entrelinhas do noticiário político atual. Ontem mesmo, quando procurava assunto para esta croniqueta, me deparei com a entrada em cena no Senado de uma personagem em busca de um autor como Nelson: Shirley, 33 anos, a cunhada improvável de José Sarney. Imagina isso nas mãos do anjo pornográfico.

Que inveja!

Texto publicado no caderno Cidades/Metrópole deste sábado.

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