Uma novela chamada Brasil

Uma novela chamada Brasil

Tutty Vasques

23 de novembro de 2008 | 10h08

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Aproveitando a deixa do Luis Fernando Verissimo, que dia desses confessou ter saído do último filme do 007 sem entender bulhufas da trama, o que falta também ao Brasil é um bom roteirista. Do jeito que os fatos são jogados nos jornais, francamente, casos especiais como o do banqueiro Daniel Dantas acabam não despertando no leitor sequer o esforço para estabelecer uma certa lógica na confusão dos infernos que virou a tal operação Satiagraha. Se fosse novela, daria traço de audiência. E não é porque Flora, Dodi, Silveirinha, Donatela e Zé Bob – a turma da pesada de A Favorita – sejam personagens melhores que Protógenes, De Sanctis, Gilmar Mendes ou James Bond. A diferença é que tem roteirista dos bons na novela das oito, na Globo.

Cá pra nós, é de se tirar o chapéu a maneira como João Emanuel Carneiro consegue prender a atenção do público em seqüências estonteantes de golpes, assassinatos e meros exercícios de sordidez na TV. Flora, uma espécie de Daniel Dantas de depois do Jornal Nacional, é movida pela inveja. Como A Favorita sempre foi a Cláudia Raia, Patrícia Pillar quer tudo que é dela, custe o que custar. Se precisar, ela mata, trapaceia, rouba, chantageia, e pronto. Tá dando pra entender? Na vida real, essas coisas são tratadas como formação de quadrilha, gestão fraudulenta, corrupção ativa, arapongagem, abuso de poder, indústria de habeas corpus, conflito com o Supremo… A batalha jurídica rouba a cena dos protagonistas. Tem horas que a narrativa fica tão técnica que não seria absurdo fechar o jornal com a mesma dúvida que sobressaltou Verissimo na saída do cinema: “Tudo tem a ver com um mar secreto na Bolívia que o bandido quer pra ele, é isso?”

Sei lá! Mas acho que as novelas estão no caminho certo ao traduzir em sentimentos banais todas as inverossimilhanças do mundo real. O ser humano como ele é fica inteiramente incompreensível. Imagina um personagem como Michael Jackson em A Favorita? Nos últimos capítulos do noticiário, o artista se converteu ao islamismo na casa de um amigo em Los Angeles antes de apresentar-se a uma corte de Londres, onde um filho do rei de Bahrein lhe cobra US$ 7 milhões, que o cantor julgava ter recebido de presente do xeique. Coisas assim, convenhamos, não emplacam mais nem em filme de 007.

Clique aqui para ler a íntegra da coluna Ambulatório da Notícia publicada no caderno Aliás deste domingo, no ‘Estadão’.