“A classificação paralímpica atual não garante igualdade entre os atletas”

“A classificação paralímpica atual não garante igualdade entre os atletas”

William Aleixo de Oliveira é nadador paralímpico. Tem hemofilia grave, que limita os movimentos de suas articulações. Afirma que o esporte aumentou sua mobilidade e reduziu suas dores, mas defende mudanças nas categorias dos atletas com deficiência. "É preciso entender todos os tipos de deficiências para igualar competidores com as mesmas restrições de mobilidade e força".

Luiz Alexandre Souza Ventura

13 de maio de 2019 | 15h46

Descrição da imagem #pracegover: William está no canto direito da imagem, olhando para a câmera e sorrindo. Ele tem aparelhos nos dentes, cavanhaque escuro no rosto e usa um boné. No lado esquerdo da imagem, estão sobre uma mesa medalhas e troféus. Crédito: Arquivo Pessoal / William Aleixo de Oliveira.


William Aleixo de Oliveira tem 33 anos, é casado, pai de três filhos e mora em Caraguatatuba, no litoral norte de SP. Tem hemofilia do tipo A Grave, diagnosticada quando ele estava com 3 anos.

“Minha mãe viu alguns hematomas nas minhas coxas. Ela me levou ao hospital e chegaram a suspeitar de agressões, mas o médico disse que era hemofilia. Um exame na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) confirmou”, conta.

Ainda criança, era impedido de brincar porque seus pais temiam possíveis ferimentos. “A pior fase foi a adolescência. No colégio onde eu estudava, não podia fazer as aulas de educação física. A professora mandava jogar xadrez, dominó, resta um, porque não haveria risco de sangramento. E o hospital que oferecia tratamento para hemofílicos era muito longe, em outra cidade”, diz.

Em entrevista ao #blogVencerLimites, William fala sobre as dificuldades diárias causadas pela doença, a vida antes do esporte, a rotina atual de treinos e os cuidados para garantir sua segurança, além de fazer uma avaliação sobre os incentivos ao esporte paralímpico, acessibilidade e inclusão no Brasil.




#blogVencerLimites – Quais dificuldades físicas você enfrenta por causa da hemofilia?

William Aleixo de Oliveira – Não tenho movimentos nas articulações dos joelhos e dos tornozelos. E meus cotovelos são prejudicados por muitos sangramentos (hemartrose) que tive na infância.

Enfrento barreiras no dia a dia. Calçadas com desníveis, degraus de escadas, ônibus sem acessibilidade ou até para fechar a gola de uma camisa social. Não consigo flexionar os braços até o pescoço.

#blogVencerLimites – Como era a sua vida antes de praticar esportes, especialmente a natação, e como essa prática modificou seu dia a dia?

William Aleixo de Oliveira – Antes da prática da natação eu tinha dores muito fortes, que me acompanhavam todos os dias. Estavam sempre comigo. Eu tropeçava muito e tive várias quedas. O que era uma dor virava sangramento articular, me obrigava a interromper o estava fazendo e correr para o hospital.

Um médico recomendou que eu fizesse natação porque poderia me ajudar no ganho de força e no equilíbrio. Com pouco mais de seis meses de treino, comecei a sentir o resultado. Não caia mais como antes e as dores estavam sumindo. Me senti mais confiável e iniciei um trabalho na academia para melhorar a minha musculatura. Senti que poderia ir além.

Ganhei mobilidade nas articulações e mais de 90% das dores que eu sentia sumiram.

#blogVencerLimites – Como é sua rotina atual de treino? Quantas horas por dia você está na piscina? Você faz complementos fora da água? Onde você fez tudo isso?

William Aleixo de Oliveira – Treino três vezes por semana, segunda, quarta e sexta. Logo cedo, às 7h, faço a profilaxia com o fator 8 de coagulação (FVIII) e vou para a academia. Treino musculação por uma hora e, na parte da tarde, faço natação, por duas horas. Tudo no centro esportivo de Caraguatatuba (CEMUG – Centro Esportivo Ubaldo Gonçalves).

Às terças e quintas, pratico uma nova modalidade trazida pela Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) chamada Rollerski, e nos finais de semana, gosto de remar em Stand Up Paddle ou Canoa OC6.




#blogVencerLimites – Quais são os cuidados necessários nessa rotina de treinos para garantir sua segurança?

William Aleixo de Oliveira – Em todos os meus treinos sigo uma rotina de autoavaliação, analisando a amplitude de movimento, se está correto para aplicar força sem exceder o peso. Tenho que acompanhar todos os momentos para não ter nenhum tipo de sangramento articular. Isso pode acabar com o meu ganho de força e até lesionar a minha articulação.

#blogVencerLimites – Qual é a sua opinião sobre os incentivos ao esporte para pessoas com deficiência no Brasil? O que é bom e o que falta?

William Aleixo de Oliveira – Não temos muitos incentivos ao esporte paralímpico. Já temos uma porta aberta, que não tínhamos antes. A sociedade nos via como inválidos. Falta muito ainda para que todos possam entender os tipos de deficiências e qualificá-las, para que possamos competir contra outro atleta no mesmo nível de restrição de movimento e força.

Quando fui fazer a minha classificação funcional no Centro de Trinamento Paraolímpico Brasileiro, fui classificado como S9, o que me coloca em competições com atletas amputados, mas sem nenhuma restrição de movimento articular. O próprio Centro de Treinamento precisa, e não tem, de um fisioterapeuta com especialização em hemofílicos para classificar os atleta.

Não tenho todos os movimentos articulares e, por isso, fico em condições desiguais na disputa com outros atletas que têm todas as suas articulações preservadas.

Mesmo assim, não perdi a vontade de competir. O Centro Paraolímpico é um local ótimo para treinos e competições, com alimentação, dormitórios e banheiros adaptados para as pessoas com deficiência.

#blogVencerLimites – Qual é a sua avaliação sobre acessibilidade e inclusão no Brasil?

William Aleixo de Oliveira – De 0 a dez, eu daria nota quatro. O Brasil ainda tem muito para evoluir e colocar as leis para funcionar como realmente deveriam. Enfrentamos muitas dificuldades nas ruas, nos comércios, nas calçadas, nos ônibus. Se nossos governantes nos olhassem com mais atenção e conhecimento, teríamos uma vida muito melhor e feliz.

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