“A cultura perde seu real significado quando não é inclusiva”

“A cultura perde seu real significado quando não é inclusiva”

Luiza da Iola fala sobre a produção do novo clipe 'Mas eu voltei', que tem versão com legendas, Libras e audiodescrição. "Se a cultura é a expressão de um povo, como pode suprimir parte do que ele é?", diz a artista.

Luiz Alexandre Souza Ventura

16 de junho de 2021 | 13h41


“Para mim, a cultura perde o seu real significado quando não é inclusiva. Se ela é a expressão geral de um povo, como ela mesma pode suprimir parte do que ele é? Se é na diversidade que essas muitas culturas se manifestam, a cultura exclusiva perde com isso ética e valor”, diz a cantora mineira Luiza da Iola, que lança neste domingo, 20 de junho, o clipe ‘Mas eu voltei’, com versão legendada, interpretada em Libras e também com audiodescrição.

“Por experiência própria, eu, uma mulher negra, interiorana, homoafetiva, pertencente aos povos tradicionais, só pude compreender melhor a diversidade convivendo e me reconhecendo sendo parte dela a partir do encontro com outras pessoas, tão diversas quanto eu. Isso para mim sempre funciona como um espelho”, afirma Luiza.

“Agradeço ao artista Dudu Melo, que tem deficiência visual e me mostrou numa simples caminhada o mundo por sua perspectiva. Foi nesse encontro com ele que comecei a conhecer e a pensar sobre acessibilidades. Ele quem me colocou também em diálogo com Gabriel Aquino, também com deficiência visual, consultor de acessibilidade que muito tem me ensinado e contribuído para as minhas produções audiovisuais desde 2019, a partir do projeto Interioranas”, comenta a artista.

“Como tudo que compartilho vem da minha vivência, acredito que a mudança comportamental e cultural só acontecerá a partir de uma reeducação pela sensibilidade e conscientização. Antes de ser inclusivo é preciso entender que essa estrutura a que fomos moldados é capacitista, elitista e excludente. Reconhecendo isso, podemos promover uma cultura que inclua a todes, que ecoe todas as vozes e expresse todos os povos”, defende a cantora.


Foto da cantora Luiza da Iola, mulher negra, de cabelos curtos e brancos. Está em um espaço aberto e ensolarado. Olha para a câmera com um semblante sério e segura um álbum de fotografias fechado.

“Só pude compreender melhor a diversidade convivendo e me reconhecendo sendo parte dela”, diz Luiza de Iola. Crédito: Randy Vieira (descrição da imagem em texto alternativo)


Composta em 2015, a canção ‘Mas eu voltei’ retrata o conceito sankofa, que se refere à saga de sair de si, se perder para depois retomar o caminho. Luiza propõe o olhar para dentro e para sua reconexão com seu eu ancestral. A artista apresenta ao público um roteiro audiovisual que, além de confluir com as paisagens sonoras, propõe uma memória cartográfica ao destacar lugares relacionados às lembranças pessoais, históricas e ancestrais. A narrativa, que tem propósito documental e de educação patrimonial, reconhece o topônimo Cacimba, palavra de origem Kimbundu, como herança e patrimônio cultural etnolinguístico dos povos bantu neste território.

“Acredito que a inclusão seja uma obrigação e responsabilidade não só de todos os artistas, mas da sociedade como um todo. Nós artistas temos o nosso papel, que é político-social e está intimamente ligado em sermos agentes transformadores e multiplicadores no meio que vivemos e atuamos. Eu, como uma arte-educadora e comunicadora social, preciso alinhar meu discurso às minhas práticas. Para que a inclusão se torne algo natural, é necessário ainda muito trabalho na promoção de ações de inclusão e luta em favor da cultura de inclusão. E essa é uma das muitas lutas que tenho procurado fortalecer”, diz Luiza.

Uma das locações do clipe é fazenda histórica da Montueira, onde nasceu Lúcia Maria de Oliveira, mãe biológica da artista. O local foi retratado pelo prisma da herança de seu avô materno Sebastião José dos Santos, manifestos no patrimônio paisagístico. Da fazenda, o público contempla a frondosa paineira e o bambuzal plantados por ‘Bastião Joana’.

O trabalho traz ainda registros imagéticos do terreiro da casa de Eunice de Oliveira, sua Tia Birica, mestra em cultivos e sabedora das ervas. E da casa onde viveram Norberta Maria Justino, Ivonildes Martinha, a ‘Dona Dinica’, além de sua tataravó, a matriarca e parteira Maria Cirilo nascida em 1860.

Os nomes dessas mulheres compõem a toponímia urbana da cidade. O roteiro reafirma o lugar de pertencimento de alguém muito ciente do por que de sua volta: para servir sua comunidade.

Luiza da Iola morou em Belo Horizonte por quase oito anos, retorna ao seu terreiro ancestral para cumprir os acordos firmados consigo e com seu povo: honrar o legado herdado de suas ancestrais como Rainha Perpétua de Nossa Senhora do Rosário na tradição reinado, manifestação afro-religiosa de origem bantu e de forte expressão em todo o estado de Minas Gerais.

“A canção ‘Mas eu voltei’ pode ser interpretada de três formas: a volta para casa como um retorno para mim mesma, como retorno ao território onde nasci ou às minhas raízes”, comenta Luiza.



“Os recursos de acessibilidade podem sim, aumentar os custos de uma produção. Em relação ao percentual, o custo dependerá do número de recursos empregados, sendo assim quanto mais recursos maior a porcentagem”, explica Luiza.

“No videoclipe ‘Mas eu voltei’ em específico, de baixo orçamento, o percentual foi de 12% para os recursos de audiodescrição e Libras. O que mais aprendi nesse processo é que ainda usamos poucos recursos de acessibilidade, por desconhecimento. Por exemplo, eu não sabia, até então, que apenas a interpretação em Libras não era suficiente para atender a comunidade de surdos e ensurdecidos, sendo necessário pensar em legendas específicas para aqueles que não usam a Língua Brasileira de Sinais e optaram pela língua portuguesa. Além de estudar sobre a temática, considero importante ouvir as pessoas para compreender melhor quais são as necessidades do público com deficiência e, com isso, tornar cada vez mais acessível meus trabalhos e produções”, afirma a cantora.

Luiza da Iola conta que, para a inclusão da tradução em Libras, manteve diálogo com a intérprete Jane Luciana para entender melhor a sintonia nesse sentido.

“Nas apresentações ao vivo, o intérprete faz a tradução simultânea sem o conhecimento prévio do repertório apresentado, isso o deixa mais suscetível a erros. A gravação vem acompanhada da letra, o que permite ao intérprete se preparar melhor, a partir do estudo prévio, podendo escutar, fazer anotações e a partir disso interpretar”, esclarece Luiza.

O projeto foi idealizado por Luiza da Iola, aprovado e realizado com recursos da Lei Aldir Blanc e pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de MG.


Foto aberta que mostra a cantora Luiza da Iola sentada em uma poltrona amarela, folheando um álbum de fotografias. Ao redor, vegetações e uma construção de tijolos aparentes.

“A canção ‘Mas eu voltei’ pode ser interpretada de três formas: a volta para casa como um retorno para mim mesma, como retorno ao território onde nasci ou às minhas raízes”, comenta Luiza da Iola. Crédito: Randy Vieira (descrição da imagem em texto alternativo).


Além do lançamento virtual do clipe em seu canal do Youtube, Luiza propõe uma ação especialmente pensada para Carmópolis de Minas. A cidade receberá a arte urbana de projeção do videoclipe em fachada na Capela do Rosário, no Largo do Rosário. O local foi escolhido por acolher anualmente a festa do reinado e por se entrelaçar à história de Luiza.

Quando criança, sua mãe Iôla fez uma promessa à Virgem do Rosário para que a curasse das dores e inflamação crônica na garganta. A promessa foi cumprida ainda na infância e Luiza da Iola não só foi curada das enfermidades, como também passou a cantar.

Após 14 anos guardada no altar aos pés da Senhora do Rosário, a coroa do Reinado Perpétuo de sua mãe Elvira de Oliveira, Dona Iôla, foi a mesma a coroar Luiza em 2018 como Rainha Perpétua de Nossa Senhora do Rosário de “Tupanuara” (Carmópolis de Minas).

Ao retornar à cidade e suas origens, a artista cumpre a promessa de honrar a coroa herdada de sua mãe Iôla assumindo integralmente a missão de guardiã da memória e tradição. Para ela, é importante pensar em seu trabalho como uma feitura que celebre seu sagrado, que visibilize seu território e honre seus antepassados.

“O que eu posso oferecer para além do online? Ofereço a reverência a todas as mulheres das quais herdei minha devoção e o compromisso de estar a serviço da tradição e da minha comunidade seguindo o exemplo das minhas ancestrais”, conclui Luiza.


Foto de Luiza de Iola com as vestimentas de Rainha Perpétua de Nossa Senhora do Rosário, uma roupa branca com detalhes em metal e uma coroa dourada. Luiza é uma mulher negra, de cabelos curtos. Está andando e tem um semblante sério.

Luiza da Iola é Rainha Perpétua de Nossa Senhora do Rosário, guardiã das culturas e tradições afro-brasileiras e populares. É cantadeira, pesquisadora, ativista cultural, contadora de histórias e arte-educadora. Iniciou seu percurso artístico nos anos 2000, se apresentando em bares, festivais e recepções. Em 2007, gravou seu primeiro CD demo com o título de Autobiografia e, em 2008, o CD Inversus, ambos produzidos com financiamento coletivo. De 2012 a 2020, morou na capital mineira Belo Horizonte, onde se consolidou como artista e ativista cultural. Nesse período, fez apresentações no Cine Theatro Brasil Vallourec e Francisco Nunes, no Descontorno Cultural e FAN-BH, além de se apresentar nas mostras Conceição Evaristo e Negras Autoras. Em 2016, idealizou o Movimento artístico e sociocultural #NóSTemosUmSonho, com primeira ação protagonizada por 22 artistas de BH e da região metropolitana, lançamento do clipe e canto manifesto #DeixaOErêViver. A ação foi idealizada com o intuito de enfrentamento ao extermínio da juventude negra. No ano de 2018, lançou o EP ‘Mas eu Voltei’ e o videoclipe ‘Nêga’. Em 2020, em parceria com a poeta novalimense Nívea Sabino, lançou o EP Interioranas, composto por cantopoemas. Crédito: Pedro Moura (descrição da imagem em texto alternativo).


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