“A gente não se comunica só em Libras”

“A gente não se comunica só em Libras”

Diego Martins Silva, de 10 anos, nasceu surdo e usa um implante coclear desde os 3 anos. O estudante fala ao #blogVencerLimites sobre a importância da tecnologia para uma pessoa com deficiência auditiva e destaca o que falta para melhorar a vida das pessoas surdas. Em setembro, seu grupo escolar ganhou um prêmio no Festival de Robótica organizado pela Viamaker Education e que reuniu aproximadamente 1.000 alunos. A equipe de Diego foi desafiada a construir com peças de LEGO (WeDo 2.0) uma cidade para todas as pessoas.

Luiz Alexandre Souza Ventura

11 de outubro de 2019 | 16h05


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Descrição da imagem #pracegover: Foto de Diego Martins Silva, de 10 anos, com sua mãe, Juliana Moura Martins Silva. Os dois estão sorrindo e olhando para a câmera. Ele tem pele morena, cabelos curtos e enrolados, usa óculos e implante coclear, veste camiseta verde do Colégio Cristão da Penha. Ela tem pele clara, cabelos escuros e longos, que estão presos, e veste uma camiseta preta. Crédito: Divulgação.


“A robótica pode ajudar a integrar todas as pessoas, pode ajudar todas as pessoas que têm deficiência, mostra que todo mundo tem a mesma capacidade”, afirma o estudante Diego Martins Silva, de 10 anos, aluno do ensino fundamental do Colégio Cristão da Penha (CCP), na zona leste de São Paulo. O menino nasceu surdo e usa um implante coclear desde o 3 anos.

Em setembro, Diego e seu grupo do escolar, batizado de MAKERBOXCCP, ganharam o prêmio ‘Desing’ no 5º Festival de Robótica organizado pela Viamaker Education no Parque Tecnológico de Sorocaba, interior paulista, que teve participação de 106 equipes de 75 escolas paulistas, reunindo aproximadamente 12 mil pessoas, entre quais 1.000 estudantes.

O time foi desafiado a construir uma cidade para todas as pessoas e aplicou no projeto a solução WeDo 2.0 da LEGO Education. “Quando a robótica chegou na nossa escola, foi uma novidade. No começo, a gente não entendeu como ela iria ajudar, mas começamos a entender como funcionava e aprendemos que a robótica ajuda a entender as matérias”, conta Diego. “Teve campeonato interno, para aprendermos como fazer nas disputas até irmos para o festival”, diz.


Descrição da imagem #pracegover: Foto da equipe MAKERBOXCCP, do Colégio Cristão da Penha, composta por seis alunos, duas meninas e quatro meninos, além de uma professora e duas mães dos estudantes. Crédito: Divulgação.


“Quando se trata de inclusão, se deseja alcançar todos os alunos. A inclusão escolar tem uma série de desafios como, por exemplo, salas superlotadas, o que impede suporte a qualquer aluno. E isso se agrava quando esta sala faz parte da inclusão escolar, que pode trazer dificuldades além da vontade coletiva”, alerta Marcos Pollo, diretor executivo da Viamaker Education e responsável pedagógico do Festival de Robótica.

“Professores, muitas vezes, não se sentem aptos para situações como essa, porque estar preparado para atender uma alunos com deficiência visual não o habilita para atender outro com deficiência auditiva. São necessários materiais e formações para melhorar constantemente o desempenho desses professores, que têm rotina árdua”, ressalta Pollo.

“Atividades com base em projetos, onde alunos trabalham em equipe, como o festival de robótica, faz com que os integrantes conheçam as necessidades e potencialidades dos alunos com deficiência, auxiliando no processo de inclusão. Observa-se vários benefícios, com destaque para a ação consciente sustentada por valores importantes, como a promoção da igualdade, a quebra da segregação ou a defesa de alguém que é tratado injustamente. Dessa forma, o aluno com deficiência pode exercitar sua autonomia de forma plena, pertencendo ao espaço ou grupo”, comenta o coordenador.

CIDADES DO FUTURO – “O modelo das cidades do futuro, que pode ser replicado, é exatamente o que incentivamos nos alunos das nossas escolas parceiras. Cidades mais sustentáveis e acessíveis a todos”, defende Daniel Lorenti, CEO da Viamaker Education.

“A acessibilidade é fundamental para todas as comunidades, hoje e no futuro. Em diversas nações, e o Brasil não foge à regra, a tendência é o aumento da base de pessoas que estarão na terceira idade. E, ao contrário do passado, há uma percepção nítida de que muitos indivíduos com deficiência exercem hoje as mais variadas funções e atividades profissionais. Essa integração ao meio social exige inclusão”, diz Lorenti.

O executivo explica que a diversidade arquitetônica de diversas culturas presentes nos eventos incentivam os alunos a resolver desafios e apresentar soluções reais. “Acreditamos que é a partir desse aprendizado, com o apoio da Robótica, que os estudantes de hoje terão ainda mais capacidade e compreensão para ajudar a construir cidades solidárias, acessíveis e sustentáveis. É de pequeno que se aprende a ser humano”, celebra o CEO.

Daniel Lorenti cita a apresentação feita pelo ator Mark Hamill (Luke Skywalker / Star Wars) do ‘City Shaper’, tema da ‘First LEGO League 2020’, um dos mais importantes eventos de Robótica do mundo. “A proposta é colocar os conceitos inovadores de tecnologia para as cidades do futuro no centro das competições”, completa o executivo.


Descrição da imagem #pracegover: Daniel Lorenti, CEO da Viamaker Education, entrega prêmio à equipe MAKERBOXCCP, do Colégio Cristão da Penha. Crédito: Divulgação.


“Muita gente não consegue perceber a nossa dificuldade em ouvir ao telefone. Para quem usa aparelho como eu, também há dificuldade quando bate um vento no porque desconcentra o som”, conta Diego Martins Silva.

“Quando quero explicar para alguém a minha deficiência, conto a minha história, minha cirurgia, como funciona meu aparelho e falo que consigo viver normalmente. Posso fazer até natação, porque meu aparelho é adaptável à água. Tem benefício também, eu não fico tonto. E se eu tirar meu aparelho, posso ignorar algumas pessoas e dormir no meio do barulho. Até do lado de uma balada eu durmo tranquilo”, brinca o estudante.

O QUE FALTA – “Falta as mães das crianças que são surdas perderem o medo de fazerem as cirurgias nos filhos. Falta as pessoas entenderem que a gente não se comunica só por meio de Libras (Língua Brasileira de Sinais). Falta as pessoas entenderem que não precisam gritar para conversar com a gente que usa o aparelho. Falta as pessoas tratarem a gente igual a todo mundo. A gente só é surdo, mas consegue fazer tudo os que as outras pessoas fazem. Falta ter tratamento igual para a gente em todos os lugares”, diz o estudante.


Descrição da imagem #pracegover: Equipe MAKERBOXCCP, do Colégio Cristão da Penha, em atividade no 5º Festival de Robótica, organizado pela Viamaker Education no Parque Tecnológico de Sorocaba (SP). Crédito: Divulgação.


“Descobrimos que Diego é surdo no teste da orelhinha, no Hospital Santa Catarina, em São Paulo, onde ele nasceu. No segundo dia de vida dele, eu já percebia que algo estava errado, porque ele não se assustava com nada, com nenhum barulho. Comentei com a fonoaudióloga e, no terceiro dia, foi feito o teste, constatando que ele não ouvia nenhum som. Pediram para repetir o teste BERA, depois de 30 dias, para verificar se algo havia mudado e para avaliar o grau de surdez. Foi constatada surdez profunda. Quando Diego nasceu, o teste da orelhinha ainda não era obrigatório”, conta Juliana Moura Martins Silva, mãe do Diego Martins Silva.

“Enfrentamos muita discriminação. Por exemplo, muitas vezes tentei matricular o Diego em algumas escolas. Visitávamos o estabelecimento todo, praticamente acertávamos tudo e, quando dizíamos que ele era surdo, a escola dizia que não tinha vaga e que avisaria assim que uma se abrisse. Nunca fomos chamados. Com certeza isso ocorria por que o Diego usava o aparelho, é surdo”, destaca Juliana.

“Quando ele tinha 8 meses, estávamos em um elevador num shopping e, naquela época, o aparelho era bem grande. Uma senhora saiu do elevador com a criança dela, dizendo que era melhor saírem, porque não sabia que doença ele tinha”, diz.

“Apesar da discriminação para matricular o Diego, ele fez o berçário em uma escola, a Escola Reis Magos (que já fechou. Depois foi para outra, a Machado de Assis. Nessa ele foi bem aceito, mas eu percebia que havia dificuldade de inclusão em passeios. Sempre tentavam desencorajar o Diego a ir nos passeios externos por causa da surdez. Certa vez até me falaram para contratar alguém para cuidar dele durante o passeio. A escola onde ele estuda agora, a escola Cristão da Penha, é super inclusiva”, celebra.

Juliana afirma que, ao se tornar mãe de uma criança surda, precisou aprender que seu filho é capaz de fazer qualquer coisa, mas precisa de mais estímulo do que as demais crianças. E que precisava ser menos superprotetora.

“Não podemos evitar que nossas crianças façam o que toda criança faz por medo de que se machuquem. Não podemos limitar nossos filhos porque eles têm uma deficiência por receio de que sofram ou se machuquem. A aceitação da criança com deficiência precisa começar em casa”, afirma a mãe de Diego.

ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO NO BRASIL – “É preciso que as pessoas entendam o quanto a legenda é importante para que o surdo compreenda o mundo, entenda tudo o que ocorre à sua volta. A legenda é até mais importante que Libras. Embora muitos façam leitura labial, nem sempre isso é suficiente. Também entendo que, na escola, o surdo precisa estar sempre na mesma sala que as demais crianças. Existem colégios que separam as crianças com deficiência. Isso não pode acontecer porque o importante é a inclusão, e ela não é possível desta forma, com a separação. Creio que o que mais falta, de modo geral, é a integração e o reconhecimento do potencial de quem tem deficiência auditiva. Eles têm o mesmo potencial, só precisam ter as mesmas oportunidades”, conclui Juliana.

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