A promessa do olho biônico

A promessa do olho biônico

Devemos celebrar o avanço da ciência na reabilitação de pessoas com deficiência visual, mas é preciso muito cuidado ao afirmar que determinado procedimento médico devolveu a uma pessoa cega a capacidade de enxergar, principalmente porque existem diversos tipos de cegueira. E, atualmente, muitos ainda são irreversíveis.

Luiz Alexandre Souza Ventura

24 Setembro 2015 | 11h42

Chip implantado na retina faz o papel dos receptores de luz. Imagem: Reprodução

Chip na retina faz o papel dos receptores de luz. Imagem: Reprodução

———-

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, mais conhecida no Brasil pela sigla CID – International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems (ICD) – estabelece ao menos 40 tipos diferentes de deficiências da visão, além de sete formas distintas de cegueira.

Devemos celebrar sempre os avanços da ciência na recuperação, ou mesmo reversão total, de uma deficiência visual, mas é fundamental haver cautela ao afirmar que determinado procedimento cirúrgico “faz cego voltar a enxergar”.

Reportagem publicada pelo jornal ‘O Globo’ nesta quarta-feira, 23, destaca a atuação do cirurgião brasileiro Flávio Rezende, chefe do Departamento de Retina da Universidade de Montreal (Canadá). O médico realizou, no Hospital Maisonneuve-Rosemont, a cirurgia de implante de um chip na retina de uma mulher de 51 anos. Foi o primeiro médico brasileiro a fazer essa cirurgia, realizada na terça-feira, 22.

O procedimento é indicado para pessoas com distrofias nas células da retina que recebem luz, condição mais comum em idosos. A pessoa usa um óculos que capta imagens por uma câmera. Essa câmera se comunica por radiofrequência (wifi sofre muita interferência) com o chip colocado na retina, que faz o papel dos receptores de luz. A partir desse ponto, o nervo óptico faz seu trabalho e envia a ‘sensação visual’ para o cérebro.

Reportagem de 'O Globo' destaca a cirurgia. Imagem: Reprodução

Reportagem de ‘O Globo’ destaca a cirurgia. Imagem: Reprodução

Note que a cirurgia, até este momento, soluciona uma deficiência anterior à função do nervo óptico. Sendo assim, um problema em qualquer ponto do nervo óptico, e suas ramificações, reduz (ou elimina) as possibilidades de sucesso do procedimento. “O nervo óptico deve estar funcionando. Depende também do tamanho do olho da pessoa. É realmente artesanal, cada prótese é customizada para cada paciente”, explica o médico ao jornal.

Por esse motivo, é perigoso afirmar que uma pessoa cega voltou a enxergar no título da reportagem, sem explicar essa situação imediatamente após e, desta forma, criar expectativas equivocadas, gerando desinformação.

Na matéria, o médico brasileiro explica que a tecnologia é muito nova. “Fazemos a comparação com uma televisão em preto e branco. Hoje, quando você mostra isso para uma pessoa, ela pensa que é ruim, mas a tecnologia começou dessa forma. Para um paciente que não enxergava, passar a enxergar, mesmo que em preto e branco, já é algo maravilhoso”, diz Flávio Rezende ao jornal. E ele tem total razão nesse aspecto.

O médico Flávio Rezende (círculo vermelho) e a equipe que fez a cirurgia. Foto: Divulgação

“Já estão trabalhando em um avanço de software, para tentar imagem em cores. Então, provavelmente, até o ano que vem, pode ser que os pacientes já consigam enxergar colorido. Não é a visão que eu e você temos, é uma visão digital, em píxels (mesma forma de construção das imagens em aparelhos de TV, monitores de computador, etc)”, explica o cirurgião.

A cirurgia custa aproximadamente US$ 170 mil. Segundo o cirurgião brasileira, há intenção de trazer o procedimento para o País e a empresa detentora da tecnologia pretende apresentar a proposta e obter autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Fotografia – A reportagem explica ainda que o mecanismo permite regular a intensidade da entrada de luz, pelo próprio paciente, com um computador de mão, do tamanho de um smartphone. Tudo pode ser desligado, por exemplo, durante o sono. “É como uma máquina fotográfica. Você controla o diafragma para entrada de luz. Estabelecemos se o objetivo é fazer as coisas dentro de casa, então a companhia ajusta de acordo com a quantidade de luz interna”, conclui a reportagem.

———-

Mais conteúdo sobre:

CegoDeficiência Visual