“A qualidade da educação torna pessoas com deficiência mais competitivas no mercado de trabalho”

“A qualidade da educação torna pessoas com deficiência mais competitivas no mercado de trabalho”

Em entrevista ao blog Vencer Limites, o gerente de projetos de inovação da Dell Brasil fala sobre a importância da qualificação para o acesso ao trabalho e defende a participação contínua das comunidades científica e empresarial, e também de entidades de apoio e do poder público em ações de inclusão. A empresa oferece capacitação gratuita para pessoas com deficiência.

Luiz Alexandre Souza Ventura

23 Maio 2016 | 10h52

Eder Soares é gerente de projetos de inovação da Dell Brasil (Divulgação)

Eder Soares é gerente de projetos de inovação da Dell Brasil (Divulgação)

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“Empresas têm dificuldade em contratar e, consequentemente, as pessoas com deficiência têm dificuldade para conseguir uma posição no mercado de trabalho. Entre outros fatores sociais estão questões de acessibilidade urbana e inclusão social. E parte dessa dificuldade se deve à baixa qualificação das pessoas com deficiência”, afirma Eder Soares, gerente de projetos de inovação da Dell Brasil.

A empresa oferece capacitação gratuita em Java para pessoas com deficiência. O curso é aberto para pessoas de qualquer idade, com escolaridade a partir do nono ano do ensino fundamental. O aluno não precisa ter conhecimento prévio de Java porque há módulos de apoio nessa área de conhecimento. As vagas são destinadas, prioritariamente, para pessoas com deficiência que residem em Fortaleza e na região metropolitana da capital cearense.

Serão abertas incrições para cadastro de reserva, que podem ser feitas no site http://projetolead.com.br/. Na primeira etapa do processo seletivo forma mais 1.200 inscritos para o preenchimento das 300 vagas.

Segundo Eder Soares, pessoas com deficiência participaram em todas as etapas de desenvolvimento do projeto. “Esse projeto faz parte de uma área da Dell que desenvolve soluções de educação a distância para pessoas com deficiência, composta por um ambiente de ensino web e conteúdos digitais e que conta com uma equipe com 50 pessoas que apresentam algum tipo de deficiência (física, auditiva, motora ou visual). Essas pessoas são responsáveis por definir os requisitos do ambiente de ensino e dos conteúdos didáticos, bem como efetuar os testes necessários para garantir a qualidade e a acessibilidade daquilo que desenvolvemos”, diz.

No modelo semipresencial, a carga horária é de 470 horas, sendo 60 horas presenciais e 410 horas a distância. Como são permitidas inscrições de pessoas a partir do ensino fundamental, foi colocado à disposição dos alunos um módulo opcional de nivelamento presencial para reforçar seus conhecimentos básicos em inglês, lógica matemática e informática, facilitando ainda mais o ingresso nas disciplinas de programação.

Os módulos de nivelamento são feitos na Universidade do Trabalho Digital (UTD), em Fortaleza. Os módulos a distância começam no dia 30 de maio e terão horários de estudo totalmente flexíveis.

Os módulos do curso são:
– Nivelamento em Inglês básico, Informática e Lógica Matemática
– Introdução à Lógica de Programação
– Programação orientada a objetivos (nível básico)
– Aplicações web com JAVA e banco de dados (nível intermediário)
– Empreendedorismo e ética profissional

O módulo de nivelamento, que é presencial, conta com 20 horas por disciplina, totalizando 60 horas; o módulo Introdução à Lógica de Programação contará com 70 horas a distância; o módulo Programação Java – Nível Básico (Programação orientada a objetivos) e o módulo Programação Java – Nível Intermediário (Aplicações web com JAVA e banco de dados) contarão com 150 horas a distância cada. O módulo de Empreendedorismo e Ética Profissional contará com 40 horas a distância.

Vencer Limites – Porque foi escolhido esse conteúdo especificamente?
Eder Soares – Nós já contamos com aproximadamente 1000 horas em cursos totalmente acessíveis para pessoas com deficiência em nosso ambiente de ensino. Além desse curso citado anteriormente, possuímos ainda os cursos de Programação Java – Nível Avançado (Aplicações para Plataforma Java EE6 com JSF e JPA), com 140 horas; Programação Java – Aplicações Móveis para Android com 160 horas, Banco de Dados – Administração de Banco de Dados Oracle, com 120 horas; e Gerenciamento de Projetos, com 130 horas.

Atualmente, Java é a linguagem de programação mais utilizada no mundo, sendo utilizada por 24% dos desenvolvedores do mundo, de acordo com o Índice de Popularidade das Linguagens de Programação (PYPL Index – http://pypl.github.io) e por 21%, de acordo com o Índice TIOBI (TIOBE Index – http://www.tiobe.com/tiobe_index?page=index). Assim identificamos que trata-se de um mercado com grande carência de profissionais especializados e que, portanto, representa uma excelente oportunidade de trabalho para quem busca ótima remuneração, horários flexíveis e trabalho remoto.

Além disso, a capacitação em Java permite que o profissional empreenda, criando seu próprio negócio, seja para prestar serviços para terceiros ou ainda criar aplicativos e sistemas.

Vencer Limites – Qual a sua avaliação sobre o acesso de pessoas com deficiência ao conhecimento e ao trabalho?
Eder Soares – A lei nº 8.213 de 24 de julho de 1991, conhecida como “Lei de Cotas”, submete as empresas que possuem a partir de 100 funcionários a preencherem um percentual de seu quadro funcional com pessoas com deficiência. Mesmo existindo mais de 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, onde aproximadamente 24 milhões estão desempregadas, segundo o censo de 2010 do IBGE, as empresas têm dificuldade em contratar e, consequentemente, as pessoas com deficiência têm dificuldade para conseguir uma posição no mercado de trabalho.

Entre outros fatores sociais estão questões de acessibilidade urbana e inclusão social e parte dessa dificuldade se deve à baixa qualificação das pessoas com deficiência. Ao longo desses quase seis anos de desenvolvimento da plataforma de educação online, percebemos que há uma lacuna na aquisição de conhecimento pelas pessoas com deficiência, que vai desde a educação básica até o ensino superior.

A Dell possui um programa global, válido também no Brasil, chamado True Ability, voltado a promover a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Em 2011 resolvemos pesquisar e desenvolver uma solução que trataria, na modalidade de educação a distância, essa demanda social, maximizando o aprendizado de pessoas com deficiência no nosso ambiente de ensino.

Entendemos que com a elevação da qualidade na educação das pessoas com deficiência, tratando adequadamente as suas necessidades, elas se tornarão mais competitivas no mercado de trabalho e conseguirão um emprego, bem como as empresas terão mais facilidade para cumprir a Lei de Cotas.

Vencer Limites – A tecnologia tem se mostrado uma grande aliada da acessibilidade e da inclusão. Você concorda? O que falta?
Eder Soares – Sim! Sem dúvida, a tecnologia representa uma importante ferramenta para acessibilidade e inclusão das pessoas com deficiência.

Não só na educação, mas em todas as esferas da vida, a tecnologia pode contribuir bastante para, por exemplo, adequação do meio, para a comunicação, nos relacionamentos, na segurança, na higiene pessoal, na atenção à saúde e no lazer das pessoas com deficiência. Acredito que é por meio da pesquisa e inovação, sempre com foco nas pessoas e com a participação delas, que será possível dar uma melhor qualidade de vida às pessoas com deficiência, bem como é preciso que o mercado entenda que essas pessoas são tão ou mais capazes que qualquer pessoa sem deficiência.

A comunidade científica e empresarial, assim como as entidades de apoio e o poder público, precisam continuar a pesquisar e desenvolver soluções (ferramentas, processos, modelos etc.) que auxiliem as pessoas com deficiência a desenvolverem-se pessoal e profissionalmente, buscando garantir uma melhor qualidade de vida para elas.

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