“A sociedade só quer a perfeição”, diz Sueli Ramalho Segala

“A sociedade só quer a perfeição”, diz Sueli Ramalho Segala

Luiz Alexandre Souza Ventura

15 de agosto de 2013 | 07h44

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Sueli Ramalho Segala é professora, atriz, diretora de teatro, roteirista e escritora. São muitas atividades para uma única pessoa, para qualquer pessoa. Aos 48 anos, ela se multiplica e trabalha pela inclusão de pessoas com deficiência. Sueli é surda. Não escuta absolutamente nada. Nasceu assim, mas em determinado momento da vida decidiu que deveria aprender a falar. “Foi uma coisa bem pessoal e, por Deus, é uma missão. Desde pequena, por ter aprendido a escrever e ler rapidamente, via as dificuldades dos meus pais em entender a sociedade”, diz.

Em entrevista ao Vencer Limites feita pelo Skype (no teclado), ela afirma que o maior erro que se pode cometer é forçar uma pessoa surda a falar. “É verdadeiramente uma tortura, como se mostrasse explicitamente a deficiência e a incapacidade dessa pessoa. Odeio quando uma pessoa fala para minha mãe: ‘Tenta falar AAAAAA’. Comigo acontece sempre, com meus familiares, no restaurante e em outros lugares”.

Sueli defende a acessibilidade em todos os setores e explica como consegue se expressar com fluência em 32 línguas de sinais.

Qual é a sua avaliação sobre a situação das pessoas com deficiência no Brasil?
Sueli Ramalho Segala – As pessoas com deficiência, nas grandes cidades, estão começando a se manifestar, ir em busca de seus direitos. Nas pequenas cidades, ainda estão limitadas.

Mas essa manifestação parte das pessoas com deficiência. O que a senhora diz sobre a atuação do poder público?
Sueli Ramalho Segala – Uma obrigação. Eles ficam acuados e querem bancar o ‘bom samaritano’. É claro que alguns políticos têm entre seus familiares pessoas com deficiência. Aí sim eles fazem algo.

Como a senhora avalia a inclusão atualmente?
Sueli Ramalho Segala – É necessário chegar ao equilíbrio. De qualquer forma, está sendo um bom começo.

E especificamente sobre a inclusão das pessoas com deficiência auditiva?
Sueli Ramalho Segala – A sociedade ainda não entendeu o que é um deficiente auditivo. As pessoas têm um o conceito de que podem fazer o surdo falar. Isso atrasa muito o desenvolvimento. Somos rotulados de ‘defeituoso’ e ‘modelo médico’ só porque temos vozes para falar, mas não significa que podemos falar com a boca igual a pessoa ouvinte (termo usado para designar pessoa não surda).

Qual deve ser a abordagem correta para a inclusão de uma pessoa surda?
Sueli Ramalho Segala – Oferecer acessibilidade, conforme a legislação existente. Devemos saber que existem quatro tipos de deficiências auditivas. E, partindo daí, oferecer quatro tipos de acessibilidade. Assim contribuímos com a inclusão.

Por favor, a senhora pode listar esses quatro tipos?
Sueli Ramalho Segala – Perda leve: são os surdos que conseguem ouvir a uma certa distância. Para isso, deve-se permitir que sentem na cadeira da frente, oferecer lugar na frente nos teatros, nas escolas. No caso de turismo, deixar sentar no banco da frente. Perda moderada: são os surdos que necessitam que se fale bem alto, em um tom de voz mais claro, além das mesmas necessidades do surdos com perda leve. Perda severa: são os surdos divididos em dois grupos. Primeiro os usuários de língua de sinais, que necessitam da presença de intérpretes. E os surdos oralizados, aqueles que conseguem se comunicar por meio da escrita. São surdos Sulp (Surdos Usuários de Língua Portuguesa). E muitos deles não sabem Libras. Para esses, é necessário haver legenda ou algo escrito. Perda profunda: São surdos usuários de Libras e que também precisam de intérprete.

A senhora está em qual item dessa lista?
Sueli Ramalho Segala – Sou surda de perda bilateral profunda. Aprendi a falar com a boca, mas não é comum.

Não escuta absolutamente nada?
Sueli Ramalho – Nada.

A acessibilidade é a melhor opção para a inclusão de uma pessoa com deficiência, independente de qual seja essa deficiência?
Sueli Ramalho Segala – Sim. Infelizmente, ainda não é eficiente.

Em todos os setores? Saúde, educação, transporte, lazer, turismo, etc?
Sueli Ramalho Segala – Sim, todos.

Tentar aproximar uma pessoa com deficiência de uma situação ‘normal’ pode ter um resultado inverso e isolar ainda mais essa pessoa?
Sueli Ramalho Segala – Isso depende tanto. É muito pessoal. Depende da abordagem.

Especificamente sobre uma pessoa surda, tentar fazê-la falar, ao invés de buscar a inclusão pela acessibilidade, é ruim?
Sueli Ramalho Segala – É verdadeiramente uma tortura, como se mostrasse explicitamente a deficiência e a incapacidade dessa pessoa. Odeio quando uma pessoa fala para minha mãe: ‘Tenta falar AAAAAA’. Comigo acontece sempre, com meus familiares, no restaurante e em outros lugares. As pessoas dizem: ‘Ahhh não pode falar? Tem de aprender’. É tortura.

Como e por que a senhora aprendeu a falar?
Sueli Ramalho Segala – Isso foi uma coisa bem pessoal e, por Deus, é uma missão. Desde pequena, por ter aprendido a escrever e ler rapidamente, via as dificuldades dos meus pais em entender a sociedade. Me senti na obrigação de aprender a falar, e gostava de fazer isso. Nunca fui forçada por ninguém. Aprendi a falar naturalmente. Levei muitos anos. Até meus 30 anos. A partir daí comecei a falar. Nunca desisti.

Falar mudou algo?
Sueli Ramalho Segala – Sim, para sociedade. Me tornei parte da sociedade. Só isso. A sociedade passou a me aceitar melhor. É a parte dura.

E para a senhora?
Sueli Ramalho Segala – Penso em sinais, vivo em sinais, minha língua materna é sinais, entendo mais em imagens. Aprender a falar me ajudou para entender melhor a sociedade, que só quer a perfeição.

Como a senhora conseguiu obter fluência em 32 línguas de sinais?
Sueli Ramalho Segala – Meu pai fazia intercâmbio cultural. Recebíamos muitos surdos estrangeiros na minha casa. Eles ficavam por três meses E eu adorava conversar com todos eles. Aprendi a me comunicar com todos. É claro que, com o tempo, se você não tem o contato com a língua daquele respectivo país, vai esquecendo.

Há uma diferença muito grande entre essas 32 línguas?
Sueli Ramalho Segala – Sim. O que não muda são as expressões gestuais, sistemas de elementos da expressão facial. São os mesmos em todo mundo. Somente sinais específicos que mudam.

Qual a sua avaliação sobre a Libras (Língua Brasileira de Sinais)?  É bem estruturada, completa, abrangente?
Sueli Ramalho Segala – Sim, muito bem estruturada e totalmente abrangente. Muitas pessoas me perguntam isso. Fico triste. Como toda língua é abrangente, Libras também é. As pessoas precisam conhecer bem para depois entender.

Quais atividades profissionais a senhora exerce atualmente?
Sueli Ramalho Segala – Sou professora universitária (Uninove e Fênix) de pós-graduação em Libras e em inclusão. Sou professora na Escola de Teatro SP, na Praça Roosevelt, para capacitar intérpretes de Libras na interpretação de eventos culturais e espetáculos, específico na linguagem teatral. Também apresento peças teatrais.

Qual seria a sua sugestão de política pública de acessibilidade para pessoas surdas? Qual é a maior urgência?
Sueli Ramalho Segala – Colocar mais intérpretes de Libras em locais públicos.

A senhora considera fundamental que uma pessoa surda saiba ler e escrever em português?
Sueli Ramalho Segala – Ajuda bastante, mas infelizmente ainda não se aplica o método correto de ensino de português para o surdo. Por isso, muitos surdos têm dificuldade de escrever em português.

Uma pessoa surda precisa aprender primeiro Libras ou português?
Sueli Ramalho Segala – Com certeza Libras, porque a pessoa surda tem o recurso visual como suporte. Lembrando que esta pessoa não tem nada de recurso auditivo. E o entendimento dela é por meio do recurso visual. As imagens e as sequências dessas imagens são apresentadas para ela. E os sinais são consequência disso. Depois de consolidar esta parte, aí podemos aprender a segunda língua. Na dúvida, podemos recorrer à língua materna.

O aprendizado em Libras pode começar bem cedo?
Sueli Ramalho Segala – Deve. Uma criança não surda escuta a canção de ninar da mãe, já recebe o carinho. E a criança surda?

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