“Acessibilidade atitudinal é o principal legado dos Jogos Paralímpicos do Japão”

“Acessibilidade atitudinal é o principal legado dos Jogos Paralímpicos do Japão”

João Maia, fotógrafo que tem baixa visão, cobriu os Jogos Paralímpicos de Tóquio como embaixador da Fundação Dorina Nowill. "O que chama atenção é o comportamento coletivo, mas ainda há barreiras para pessoas com deficiência".

Luiz Alexandre Souza Ventura

09 de outubro de 2021 | 13h22

Foto de João Maia, homem negro de aproximadamente 40 anos, sentado em uma arquibancada, com o rosto colado na câmera fotográfica que tem uma longa lente. A imagem foi feita a partir do lado direito.

João Maia comanda o projeto Fotografia Cega. Crédito: Divulgação / Sandra M. Chammem.


O fotógrafo João Maia, que tem baixa visão, acompanhou presencialmente os Jogos Paralímpicos do Japão, em Tóquio, como embaixador da Fundação Dorina Nowill para Cegos. Sua missão, além de registrar momentos das competições, era conhecer a cultura local, principalmente a maneira como pessoas com deficiência são tratadas pelo poder público e pela população.

“O que chama atenção é a acessibilidade atitudinal, o comportamento coletivo. Encontramos muita gente disposta a ajudar. Separamos um dia para passear em alguns pontos turísticos e, quando estávamos perdidos, alguém nos guiava. Muitos japoneses não falam inglês, mas estão sempre dispostos a auxiliar as pessoas com deficiência”, conta o fotógrafo.

João lembra que foi fácil localizar pontos com acessibilidade física, mas ainda há coisas feitas sem pensar no uso pela população com deficiência.

“Não há prioridade, por exemplo, nas filas de supermercado ou outros estabelecimentos. Ônibus, por sua vez, têm assentos reservados. Existem semáforos sonoros somente nos principais cruzamentos”, detalha João.

“Os banheiros são tecnológicos, com muitos recursos, como duchas, chuveirinho e ar quente. Em todos, de diversos locais, é possível encontrar assentos com esses comandos e botões com Braille”, descreve.

“Algumas portas dos banheiros têm recursos sonoros, se parecem com elevadores. Além disso, essas portas ‘falam’ quando estão sendo abertas e fechadas. Também encontramos pias adaptadas para cadeirantes e pessoas com nanismo”, relata o fotógrafo.


Foto de atletas da seleção feminina brasileira de vôlei sentado. Imagem mostra as jogados em movimento na quadra. Crédito: João Maia.

Crédito: João Maia.


Dificuldades – João Maia explica que, antes de viajar, recebeu muitas informações sobre a abrangência de pisos táteis no Japão. “Não estão disponíveis em todos os locais, assim como pisos de direção ou de alerta. Havia esse recurso no metrô, mas não no hotel onde fiquei hospedado”, diz.

“No hotel também não havia nenhuma informação ou descrição em Braille ou em relevo nas portas dos quartos, nem cardápios em Braille. Então, embora exista acessibilidade, esses recursos não são encontrados em todos os locais”, comenta João.


Foto de Joao Maia em uma arquibancada, com o rosto colado na câmera, que está apontada para uma quadra de hipismo. A imagem foi feita com João de costas para a câmera.

João Maia perdeu a visão aos 28 anos, por consequência de uma uveíte bilateral, e fez sua reabilitação na Fundação Dorina. Para capturar as imagens, ele usa audição, tato, olfato, percepção de vultos e cores. Crédito: Divulgação / Sandra M. Chammem.


Aprendizados – João Maia ressalta a importância se sempre refletir sobre a acessibilidade. “No Brasil, a pessoa com deficiência tem acessos garantidos por lei, como a gratuidade no transporte público. No Japão, isso não é de graça, é cobrada uma tarifa percentual em ônibus, metrô e trens”, explica.

“No Japão, a pessoa com deficiência tem incentivos e descontos para comprar equipamentos. No Brasil também. Precisamos considerar os pontos positivos de cada país”, afirma.

Educação – “Aqui no Brasil temos escolas especializadas. No Japão também mas lá existem faculdades, cursos superiores ou tecnólogos direcionadas à pessoa com deficiência. Além disso, existe uma lei japonesa que garante ao aluno com deficiência frequentar qualquer escola. Sei que aqui no Brasil também temos conquistas maravilhosas”, pontua o fotógrafo

“Não existe sociedade perfeita. Na verdade, é importante evoluir, aprender e olhar as pessoas com deficiência de outra forma”, completa João Maia, que comanda o projeto Fotografia Cega e se virou fotógrafo somente após se tornar uma pessoa com deficiência visual.


Foto de João Maia na arquibancada de um ginásio onde é realizada uma competição de Judô. Ela segura uma câmera com uma grande lente, enquanto configura o equipamento. Ao fundo, bandeiras de diversos países penduradas.

Crédito: Divulgação / Sandra M. Chammem.


Jogadoras da seleção brasileira feminina de vôlei sentado na quadra.

Crédito: João Maia.


Atletas enfileirados em várias raias de uma piscina após a competição.

Crédito: João Maia.


Atleta da seleção brasileira feminina de Goalbol durante partida.

Crédito: João Maia.


Atletas enfileirados na borda da piscina em posição para a saída de uma prova de nado de costas.

Crédito: João Maia.


Atletas da seleção brasileira masculina de Goalbol.

Crédito: João Maia.


Corredora cega e seu guia em uma pista.

Crédito: João Maia.


Corredora cega e seu guia em uma pista, ambos em posição para a largada da prova.

Crédito: João Maia.


Corredora cega e seu guia logo após a competição.


Atleta feminina sentada no chão, de costas para a câmera.

Crédito: João Maia.

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