“Acessibilidade digital é a grande tendência, e urgência, para 2021”

“Acessibilidade digital é a grande tendência, e urgência, para 2021”

O #blogVencerLimites publica a partir desta segunda-feira, 14, até o dia 31 de dezembro, artigos exclusivos de convidados sobre as expectativas para o próximo ano. A série começa com o texto do empreendedor social Jaques Haber, fundador da iigual e sócio da EqualWeb.

Luiz Alexandre Souza Ventura

14 de dezembro de 2020 | 11h00

Use 26 recursos de acessibilidade digital com a solução da EqualWeb clicando no ícone redondo e flutuante à direita, ouça o texto completo com Audima no player acima, acione a tradução em Libras com Hand Talk no botão azul à esquerda ou acompanhe o vídeo no final da matéria produzido pela Helpvox com a interpretação na Língua Brasileira de Sinais.


Foto de Jaques Haber, homem branco, de 42 anos, que tem cabelos castanhos curtos e veste uma camisa pólo azul marinho. Está sorrindo e olhando para a câmera. Ao fundo, uma parede de tijolos vermelhos. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Jaques Haber, homem branco, de 42 anos, que tem cabelos castanhos curtos e veste uma camisa pólo azul marinho. Está sorrindo e olhando para a câmera. Ao fundo, uma parede de tijolos vermelhos. Crédito: Divulgação.


Artigo de Jaques Haber*

Em dezembro de 2019, estava em Hong Kong, no epicentro da pandemia que se alastraria pouco tempo depois pelo mundo. Eu, minha mulher e meus dois filhos andávamos tranquilamente pelas ruas e passarelas de Kowloon e Tsi Sha Tsui, admirados por tudo o que víamos, os arranha-céus, os restaurantes com comidas típicas, o movimento nas ruas.

Era a nossa primeira vez em Hong Kong, um sonho antigo, adiado pelo menos duas vezes por ser muito longe, caro e desconhecido.

Mas lá descobrimos que demoramos muito para ir. Tudo era absolutamente encantador. Lembro de uma rua repleta de mega lojas de marcas de grife como Gucci, Louis Vuitton, Valentino, Prada, Cartier, todas lotadas, com fila na porta. Entramos na Chanel apenas para olhar e ficamos impressionados com a quantidade de chinesas comprando bolsas caríssimas como se fossem pãezinhos em uma padaria. Era uma multidão comprando artigos de luxo.

Máscara? Imagina, quem poderia pensar no que estava por vir.

Mas o Coronavírus já estava por lá, circulando à vontade, discretamente, invisível, sem ninguém para incomodá-lo.

Apertamos botões de elevador, nos aglomeramos com as pessoas, pegamos barco até Macau, comemos em restaurantes, fomos em shoppings, encostamos em corrimãos, usamos banheiros públicos, fizemos tudo o que tínhamos direito e, graças a nossa proteção divina, não fomos contaminados.

Pouco tempo depois de voltarmos começaram a aparecer as notícias de Wuhan, capital da província de Hubei, na China, onde surgiu o vírus chamado de sars-cov-2, que causaria uma pandemia mundial e afetaria a todos de maneira catastrófica.

Quando a OMS declarou a pandemia, todas as pessoas tiveram que ficar em casa, resguardadas, em quarentena e evitando a todo o custo o convívio social. Um mundo isolado, sem contato humano, enfrentando um inimigo invisível, desconhecido, com máscaras e álcool em gel.

No início de março de 2020, estávamos em lockdown, assustados e sem saber como seria nossa vida dali para frente. Como trabalhar, estudar, se relacionar, consumir sem o presencial?

A resposta estava na web e na tecnologia. Começou uma aceleração no processo de transformação digital. Em poucos meses, avançamos muitos anos nessa evolução. Nossos hábitos foram forçados a mudar. Descobrimos aplicativos, tecnologias novas. Sinal de internet virou artigo de primeira necessidade. Passamos a consumir mais banda de internet do que comida.

Me lembro da nossa primeira palestra online pelo Teams. Ficamos apreensivos, mas no final foi um sucesso.

As empresas também tiveram que se mexer e correr para se digitalizarem ao máximo, em tempo recorde, e tiveram que se organizar no home office ou, melhor dizendo, no home everything, porque nossa casa se transformou em office, school, restaurante, cinema e tudo mais.

Descobrimos muitas vantagens nesse processo, mas no meio dessa correria deixamos para trás milhões de pessoas. Mais precisamente, 60 milhões de brasileiros que precisam de algum tipo de recurso de acessibilidade digital para navegar na web.

Acessibilidade digital passou a ser necessidade de primeira ordem, urgência que as empresas não conseguiram prever nem enxergar. Dos 14,6 milhões de sites no Brasil, menos de 1% pode ser considerado acessível.

A pandemia revelou um problema estrutural absurdo que a maioria nem havia se dado conta. Muitos não se deram conta até agora. Como uma pessoa cega faz para acessar um site, se informar, fazer uma compra, por exemplo, se não há acessibilidade digital?

Mas acessibilidade digital é importante também para todas as pessoas com deficiência – o último Censo do IBGE, de 2010, indicou 45,6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência física, visual, auditiva, intelectual ou múltipla – como também para pessoas idosas, analfabetas, daltônicas, com deficiências ou limitações temporárias, entre outras.

Nos próximos 20 anos, um terço da população brasileira terá 60 anos ou mais. À medida que envelhecemos, adquirimos mais dificuldades para enxergar, ao mesmo tempo em que estamos, cada vez mais, acessando a internet por nossos smartphones e suas telas pequenas.

Estamos diante de um problema social, mas também um problema econômico e de negócios para as empresas. Na verdade, como prefiro encarar, estamos diante de uma super oportunidade de fazermos a diferença, impactarmos positivamente a sociedade e, também, de uma chance de fazer novos negócios.

Afinal, se o site da sua empresa não é acessível você está deixando de se relacionar com milhões de pessoas. Por outro lado, se o seu site é acessível, ainda mais em um universo de total falta de acessibilidade digital, você ampliará seu público e também destacará positivamente a sua marca.

O novo normal é digital. Não tem volta. As empresas que não se atentarem a isso ficarão para trás, naquele velho normal pré-pandemia.

As pessoas querem empresas mais humanizadas, que se preocupem em gerar impacto social positivo e que deixem legados para a sociedade. O lucro por si só não sustenta mais uma empresa por muito tempo, mas o lucro admirado sim.

E, no meio de tantas mudanças que aconteceram e continuam a acontecer, eu também tive que me reinventar.

Trabalho há 20 anos com inclusão de pessoas com deficiência na iigual, ao lado da minha esposa Andrea Schwarz, desde a época em que éramos um jovem casal de namorados, quando Andrea se tornou cadeirante.

Em um primeiro momento, ficamos apavorados. Como continuar trabalhando com inclusão, fazendo tudo aquilo que estávamos acostumados a fazer no meio de uma pandemia, em isolamento social? As respostas foram surgindo aos poucos e entendemos o papel importante da tecnologia para continuarmos com o nosso propósito de construir um mundo mais inclusivo.

Entretanto, além da acessibilidade física e da inclusão no mercado de trabalho, enxergamos a necessidade de levantar a bandeira da acessibilidade digital. E descobrimos uma tecnologia israelense capaz de transformar qualquer site em um ambiente acessível e inclusivo em questão de minutos, ou como preferimos falar, em apenas um clique.

No meio da pandemia iniciamos uma nova empreitada com a EqualWeb, essa tecnologia que usa inteligência artificial para o bem. Com o propósito de levar acessibilidade digital para a web, ainda mais em um momento como esse.

O processo para tornar o site acessível com a EqualWeb é muito simples. Geramos uma única linha de código para o domínio que, ao ser instalada, acrescenta ao site até 31 recursos de acessibilidade digital sem alterar layout, desempenho ou segurança.   

Trabalhar com essa nova tecnologia facilitou muito o tempo que estamos passando em isolamento social. A esperança de construir um mundo mais inclusivo a partir dessa solução me deu o ânimo necessário para continuar firme e forte na minha missão e um entendimento de que a tecnologia será também a grande ferramenta para construirmos uma sociedade inclusiva e com oportunidades iguais para todos.

A grande tendência para 2021 e para os próximos anos na área da inclusão será, sem dúvidas, a acessibilidade digital. Com tecnologias, como essa da EqualWeb, não haverá mais desculpas para uma empresa não ter seu site acessível. Acessibilidade digital permite ampliar imensamente as oportunidades para as pessoas com deficiência.

Enxergo que um dos grandes legados desse ano difícil que passamos será um mundo de mais respeito pelas diferenças, de valorização da diversidade, de humanização das marcas e da tecnologia a serviço das pessoas, e não o contrário.

Compreendi que podemos trabalhar pela inclusão de qualquer lugar, presencialmente ou de forma remota, digital, basta apenas saber usar as possibilidades que a tecnologia nos oferece.

Acessibilidade digital, mais do que uma tendência, é uma urgência. Para que todas as pessoas possam tirar proveito desse novo mundo que estamos descobrindo. Quando tecnologia se une com inclusão, o resultado é um mundo melhor para todos.

*Jaques Haber é sócio fundador da iigual, consultoria especializada na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, sócio e head de impacto da EqualWeb, startup de tecnologia em acessibilidade digital para sites.



Vídeo produzido pela Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais.

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