“Ainda enfretamos o menosprezo à pessoa com deficiência intelectual”

“Ainda enfretamos o menosprezo à pessoa com deficiência intelectual”

Em entrevista exclusiva ao #blogVencerLimites, a superintendente geral do Instituto Jô Clemente, Daniela Mendes, fala sobre os 60 anos da entidade, celebra a ampliação do teste do pezinho para todos os bebês nascidos na rede pública de São Paulo e explica de que maneira o IJC conseguiu garantir o emprego de 345 pessoas com deficiência intelectual durante a crise.

Luiz Alexandre Souza Ventura

14 de abril de 2021 | 05h15

Foto da sede do Instituto Jô Clemente, em São Paulo. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto da sede do Instituto Jô Clemente, em São Paulo. Crédito: Divulgação.


Garantir a continuidade de todos os serviços durante a pandemia de covid-19 tem sido o grande desafio do Instituto Jô Clemente (IJC), entidade que completou 60 anos no dia 4 de abril, após mudar de nome (é a antiga Apae de São Paulo), e ampliar sua atuação no País. “Trabalhamos fortemente para não interromper nenhuma atividade”, diz Daniela Mendes, superintendente geral da organização.

Entre os serviços oferecidos pelo IJC está a inclusão de pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho e o acompanhamento individual, com uso de metodologias de emprego apoiado. “Desde o começo da crise, no ano passado, mantemos uma avaliação de cada caso e direcionamos para teletrabalho as pessoas que estão no grupo de risco, com um esforço de adaptação para o modelo virtual e o uso de aplicativos nesse processo. Nem todos têm comorbidades ou problemas de saúde que podem ser agravados pela doença e, por isso, alguns continuaram em funções presenciais”, explica Daniela.

“Temos um relacionamento próximo com as empresas atendidas e com os profissionais que enviamos para essas corporações. Muitas companhias são de grande porte, em setores essenciais, mas há outras menores que precisaram de adaptações. Nesse momento crítico, empresários reduziram o número de funcionários e pessoas com deficiência perderam seus empregos. Ainda assim, nenhum dos nossos indicados foi demitido, conseguimos manter 345 pessoas com deficiência intelectual trabalhando”, celebra a superintendente do IJC.

“Ainda convivemos com o menosprezo à capacidade da pessoa por causa da deficiência intelectual. Com apoio da metodologia do emprego apoiado, mostramos que incluir e qualificar devem ser ações conjuntas”, diz Daniela. “É necessário estar sempre disposto a desenhar novos modelos de trabalho”, afirma.


Foto da superintendente geral do Instituto Jô Clemente, Daniela Mendes, mulher branca, de cabelos lisos e escuros, cortados na altura dos ombros. Veste tailleur rosa e camisa branca. Está sorrindo e olhando para a câmera. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto da superintendente geral do Instituto Jô Clemente, Daniela Mendes, mulher branca, de cabelos lisos e escuros, cortados na altura dos ombros. Veste tailleur rosa e camisa branca. Está sorrindo e olhando para a câmera. Crédito: Divulgação.


Em dezembro do ano passado, o teste do pezinho nos hospitais e maternidades da rede pública da cidade de São Paulo foi ampliado pela Secretaria Municipal de Saúde. São 8,7 mil nascimentos mensais, o que exige 52,2 mil exames. O Serviço de Triagem Neonatal (SRTN) do Instituto Jô Clemente, credenciado pelo Ministério da Saúde, testa 80% dos bebês nascidos na capital paulista e 67% dos recém-nascidos em SP. Em média, são 293 mil pelo SUS e 103 mil em maternidades e hospitais privados, sendo 28% de testes ampliados. Em 2020, o IJC fez 2,5 milhões de exames, com triagem de 387 mil bebês. No ano anterior, foram 2,6 milhões de exames e 395 mil bebês.

O teste ampliado detecta doenças genéticas, congênitas, infecciosas e erros inatos do metabolismo e da imunidade. Identifica fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, fibrose cística, anemia falciforme e demais hemoglobinopatias, hiperplasia adrenal congênita e deficiência biotinidase, toxoplasmose, galactosemias e outras. A ampliação do exame permite diagnóstico precoce, o que pode evitar danos ao desenvolvimento neuropsicomotor, sequelas, internações e até mortes.

O IJC é responsável pela capacitação técnica referente aos exames, técnica de coleta e logística de envio da amostra, realização do teste e liberação do laudo, busca ativa, realização de exames confirmatórios, apoio médico aos resultados de exames e da primeira conduta terapêutica e aconselhamento genético dos casos diagnosticados na triagem ampliada.


Dois adolescentes estão em uma sala de aula. Um deles, mais à frente, tem deficiência. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Dois adolescentes estão em uma sala de aula. Um deles, mais à frente, tem deficiência. Crédito: Divulgação.


O IJC têm várias fontes de recursos. A maior parte é resultado dos trabalhos que o instituto executa para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para o mercado privado, mas também existem as doações de pessoas físicas e jurídicas, além das parcerias. No ano passado, a receita de R$ 42,5 milhões praticamente empatou com as despesas.

São 429 funcionários registados e uma estrutura que inclui a sede na Rua Loefgren, nº 2.109, na Vila Clementino, região sul da capital paulista, e mais 12 pontos na cidade. Atende 20 mil pessoas com deficiência intelectual e familiares por ano. Além do teste do pezinho ampliado e do ambulatório de triagem neonatal, tem ambulatório de diagnóstico, estimulação e habilitação, atendimento educacional especializado (na perspectiva da educação inclusiva), psicopedagogia, inclusão profissional e longevidade, defesa e garantia de direitos, jurídico social, prevenção e apoio a situações de violência ou violação de direitos.

Faz também a gestão do Centro de Apoio Técnico da 1ª Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência de São Paulo (DPPD), por meio de parceria com a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SEDPcD).


Descrição da imagem #pracegover: Equipe da 1ª Delegacia da Pessoa com Deficiência de São Paulo com a advogada e ex-deputada estadual Célia Leão, que comanda atualmente a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SEDPcD). A secretária está no centro da foto, sentada na cadeira de rodas. Todos estão sorrindo. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Equipe da 1ª Delegacia da Pessoa com Deficiência de São Paulo com a advogada e ex-deputada estadual Célia Leão, que comanda atualmente a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SEDPcD). A secretária está no centro da foto, sentada na cadeira de rodas. Todos estão sorrindo. Crédito: Divulgação.


#NascemosInclusivos – O Instituto Jô Clemente lançou em março uma campanha nas redes sociais para potencializar a mensagem e o trabalho feito desde 1961, principalmente para quem ainda não conhece a causa e pode contribuir com a disseminação da mensagem. Influenciadores e celebridades foram convidados para serem embaixadores dos 60 anos do IJC por meio da publicações de fotos e vídeos com a camiseta comemorativa e as as hashtags #nascemosinclusivos, #IJC60anos e #60anosdeinclusao.

Até dezembro, haverá divulgação de histórias de pessoas apoiadas pela organização, lives sobre assuntos relacionados à deficiência intelectual, campanhas de comunicação interna e peças publicitárias, vídeos produzidos por funcionários, voluntários, pessoas com deficiência intelectual e familiares, contando suas histórias.

“Somos referência na causa da deficiência intelectual, com programas que promovem inclusão social e qualidade de vida. Temos muito orgulho da nossa trajetória e da história que temos construído. Vivemos tempos difíceis, a pandemia impõe desafios imensos, mas continuamos oferecendo apoio com excelência às pessoas com deficiência intelectual e familiares em todos os nossos serviços. Ao longo da nossa trajetória, superamos muitos desafios e evoluímos muito, sempre com foco na ampliação dos serviços e na manutenção da excelência que nos tornou referência na causa da deficiência intelectual. Nosso propósito é promover o real protagonismo dessas pessoas, por isso, investimos muito em programas de inclusão social, tanto escolar quanto profissional. Já contribuímos para que mais de 2.800 jovens e adultos com deficiência intelectual ou autistas conquistassem espaço no mercado de trabalho em 50 empresas e órgãos públicos”, completa Daniela Mendes.


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