“Muita gente ainda pensa que a pessoa com deficiência deve ficar trancada em casa”

“Muita gente ainda pensa que a pessoa com deficiência deve ficar trancada em casa”

Atletas com deficiência que se preparam para os Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, enfrentam uma rotina forte de treinos, mas também precisam vencer as dificuldades impostas pela falta de acessibilidade nas grandes cidades, pelo preconceito e pela ausência de um pensamento universal, quando tudo é feito para todos.

Luiz Alexandre Souza Ventura

18 Maio 2015 | 11h04

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Alice Corrêa ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres 2012. Foto: Divulgação

Alice Corrêa ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres 2012. Foto: Divulgação

Alice Corrêa tem 19 anos e faz parte de um grupo de atletas de alto rendimento. Praticante de atletismo, a velocista é especialista nas provas de 100 e 200 metros. A rotina de treinos é forte, sempre no período da tarde. Logo cedo, por volta de 5h30, ela sai de casa, rumo à faculdade de Fisioterapia – no Centro Universitário IBMR. O percurso feito de ônibus demora aproximadamente duas horas. Na hora do almoço, a refeição é feita no meio do caminho, antes de chegar ao local de treino, trajeto que consome mais 40 minutos, de ônibus e metrô. “O ideal seria que tudo estivesse no mesmo lugar, como existe em outros países”, diz.

A atleta é uma das grandes promessas brasileiras para os Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Com visão parcial desde o nascimento – Alice tem glaucoma e catarata -, começou a praticar esportes ainda criança, aos 8 anos, no Instituto Benjamin Constant (IBC). “Minha mãe teve rubéola na gravidez. Eu enxergo só de perto. Uma vez participei de uma peça de teatro, mas era tudo muito escuro e quando fui entrar no palco, acabei caindo lá de cima”, conta. “Já sofri preconceito sim, com apelidos e xingamentos, antes de entrar no IBC. Eu não queria mais ir para a escola, mas minha mãe não me permitia faltar”.

Em 2012, quando conheceu o Instituto Superar, Alice percebeu que o esporte poderia representar uma nova vida. E as mudanças chegaram rápido. Em 2012, aos 16 anos, ela participou dos Jogos Paralímpicos de Londres. No mesmo ano – ao lado de seu técnico e guia, Diogo Cardoso -, ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres, repetindo a conquista no Meeting Espanhol. Atualmente, é a 6ª colocada no ranking mundial em sua classe.

Alice Corrêa ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres 2012. Foto: Divulgação

Alice Corrêa conheceu o Instituto Superar em 2012. Foto: Divulgação

Atualmente patrocinada pela Seguros Unimed, Alice está empenhada em se tornar uma referência no esporte. “O foco atual é o Parapan de Toronto (Canadá), em Agosto. Em outubro temos o Mundial de Atletismo. Tudo faz parte da preparação para a Olimpíada. O Brasil tem muitos atletas com deficiência que são bastante fortes, em diferentes classes, mas ainda estamos em desvantagem porque os competidores estrangeiros têm mais estrutura, pistas e equipamentos melhores, com faculdade, escola, academia, refeitório e até dormitórios no mesmo lugar”, diz.

Alice afirma que muitos amigos de infância que também têm deficiência desistiram de estudar porque não havia recursos de acessibilidade para chegar à escola e também dentro da sala de aula. “Mesmo na faculdade são poucos recursos. E a falta de acessibilidade afasta os alunos com deficiência. Tenho amigos que concluíram o ensino fundamental, mas não prosseguiram nos estudos porque não há acesso correto’, explica. A atleta mora no Rio de Janeiro e diz que a cidade ainda precisa melhorar muito para ser realmente acessível. “É um problema de educação, porque muita ainda pensa que a pessoa com deficiência deve ficar trancada em casa”, desabafa.

Alice Corrêa treina para os Jogos Paralímpicos 2016. Foto: Divulgação

Alice Corrêa treina para os Jogos Paralímpicos 2016. Foto: Divulgação