Amputado na plataforma

Amputado na plataforma

Felipe do Carmo tinha 22 anos quando sofreu um grave acidente. Seis anos depois, foi o primeiro funcionário com prótese na perna a embarcar em uma sonda de exploração de petróleo no Brasil. Uma história sobre a importância do apoio e da perseverança na reabilitação. E um exemplo do valor essencial da inclusão no trabalho para a reconstrução da vida de quem se torna uma pessoa com deficiência.

Luiz Alexandre Souza Ventura

30 de março de 2019 | 17h45

IMAGEM 01: Felipe do Carmo tinha 22 anos quando sofreu um grave acidente. Seis anos depois, foi o primeiro funcionário com prótese na perna a embarcar em uma sonda de exploração de petróleo no Brasil. Uma história sobre a importância do apoio e da perseverança na reabilitação. E um exemplo do valor essencial da inclusão no trabalho para a reconstrução da vida de quem se torna uma pessoa com deficiência. Descrição #pracegover: Foto dupla de Felipe em uma plataforma de petróleo. No lado esquerdo, ele mostra a prótese na perna. No lado esquerdo, sorri e faz um sinal de positivo, com o mar ao fundo. Crédito: Arquivo Pessoal / Felipe do Carmo.


“Conhecer o próprio corpo é muito importante no dia a dia. Limites existem, mas é preciso ter consciência e não se frustrar”, afirma Felipe do Carmo, analista ambiental que, em 2016, marcou seu nome na história da exploração de petróleo como o primeiro funcionário reabilitado com prótese em perna a embarcar numa sonda de perfuração no Brasil.

Em 11 de abril de 2010, Felipe sofreu acidente na sala de peneira de uma plataforma durante operação no secador de cascalho. O resgate foi rápido e as equipes médicas de bordo, resgate aéreo e terra conseguiram salvar a vida do jovem, na época com 22 anos. A gravidade dos ferimentos, no entanto, exigiu a amputação de parte da sua perna direita, abaixo do joelho.

“É um divisor de águas na minha vida. O início foi conturbado, mas eu sempre acreditei que não poderia aceitar o papel de vítima e deveria concentrar energia em como dar a volta por cima. Considerando que tinha apenas 22 anos, havia muitas dúvidas e incertezas”, conta.

Apenas três meses depois, Felipe voltou a trabalhar como assistente de meio ambiente e, a partir desse recomeço, passou a investir na sua evolução profissional, concluindo cursos específicos e um MBA em QSMS (Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde). Hoje é consultor sênior de resposta a emergências na Equinor do Brasil.

Felipe usa atualmente uma prótese com joelho eletrônico que permite contato com água e possibilita a prática de atividades esportivas. “O processo de reabilitação é contínuo. Você tem que se manter em movimento, até mesmo porque os encaixes são feitos sob medida e ganhar ou perder peso influencia no uso da prótese”, comenta o jovem. “Essa continuidade também ajuda na manutenção de uma boa marcha”, explica.

“Eu não conhecia o universo de pessoas com deficiência física. Foi tudo novidade para mim. Todo o processo de reabilitação, desde o início, nos primeiros passos como uma criança que aprende a andar, até a recuperação total. Um processo doloroso que exige muito esforço e persistência”, destaca.

Depois de muito estudo e treinamento, Felipe conseguiu credenciamento para embarcar em sondas de perfuração e trabalhar na equipe de Saúde, Segurança e Meio ambiente (HSE, sigla para Health, Safety and Environment). Fez parte desse processo a conclusão do CBSN (Curso Básico de Segurança de Navio) ou STCW (Standards of Training, Cerification & Watchkeeping).

“Passei por todas as etapas como os outros alunos e fui aprovado sem qualquer restrição”, diz. Em 11 de abril 2016, exatos seis anos após o acidente, Felipe embarcou em uma sonda, onde ficou por cinco dias para acompanhar uma auditoria ambiental. Naquele dia, tornou-se o primeiro funcionário reabilitado com prótese em perna a embarcar numa plataforma de exploração de petróleo.



REABILITAÇÃO – A ortoprotesista Fernanda Simões, responsável técnica da Ottobock Clinical Services, onde Felipe foi reabilitado, fala sobre o tratamento e explica detalhes desse processo.

#blogVencerLimites – Quais foram as fases de reabilitação do Felipe?

Fernanda Simões (Ottobock) – Após a retirada dos pontos e liberação médica, o Felipe foi encaminhado à Ottobock Rio de Janeiro. Nesse momento houve a orientação quanto posicionamentos adequados no intuito de se evitar encurtamentos musculares. E iniciou-se a terapia de compressão de coto, que é muito importante no modelamento do coto amputado para colocação da prótese. Ele também passou por exercícios isométricos (contração muscular sem movimentação ativa), para manutenção muscular no lado amputado, e exercícios ativos para manutenção de força e trofia muscular no lado não amputado.

Após um mês de modelamento de coto por faixa compressiva, fizemos o molde para produção do primeiro encaixe de teste. É a interface que une o coto amputado ao joelho e ao pé protético.

Assim que foi produzido esse encaixe, fizemos a primeira prova e o alinhamento da prótese, utilizando uma plataforma que mede a força exercida sobre o paciente. Depois treinamos marcha e o retorno às atividades diárias, associadas à fisioterapia.

Houve ainda a diminuição de volume (circunferência) de coto, processo normal em primeiras protetizações, e a necessidade de um novo encaixe de teste. Após mais um mês de uso, treinamento e estabilização do volume do coto, o encaixe foi finalizado em silicone e carbono, trazendo conforto, leveza e aderência à pele.

#blogVencerLimites – Quais especialistas participaram deste processo?

Fernanda Simões (Ottobock) – Para que obtivéssemos esse ótimo resultado, participaram ortoprotesista – diretor técnico da unidade na época -,técnico ortopédico, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional.

#blogVencerLimites – O que é fundamental nesse trabalho?

Fernanda Simões (Ottobock) – Paciência, dedicação e um trabalho bem executado. Atualmente, com o alto nível funcional atingido em indivíduos amputados, sendo o Felipe um exemplo, muitos clientes chegam com a expectativa de colocar a prótese e, em poucos dias, atingir este nível. Contudo, diversos fatores influenciarão no resultado. É muito importante que todas as informações sejam passadas ao paciente no momento de primeira avaliação e que sua avaliação, com indicação adequada de componentes e de reabilitação, seja executada. Quanto à execução do trabalho, é de fundamental importância a atuação multidisciplinar, ou seja, com a aproximação dos profissionais envolvidos na amputação, protetização e reabilitação, o paciente só tem a ganhar em funcionalidade e adaptação ao uso do componente protético.

#blogVencerLimites – Quais são as dificuldades mais comuns?

Fernanda Simões (Ottobock) – A grande dificuldade é a ansiedade dos usuários. Neste momento, é de fundamental importância uma conversa honesta, explicando o processo de reabilitação, mostrando a importância para evitar alterações de marcha, frequentemente encontradas em usuários não submetidos a esse processo. Outra complicação frequentemente encontrada é o encurtamento muscular por mal posicionamento de coto em repouso, o que pode dificultar a protetização. Nesse caso, é indispensável a fisioterapia para ganho de mobilidade na articulação encurtada e o alinhamento adequado dos componentes para boa utilização da prótese.

#blogVencerLimites – Como uma pessoa que sofre amputação precisa ser abordada para compreender que pode levar uma vida normal? O que precisa ser feito na fase mais crítica desse processo?

Fernanda Simões (Ottobock) – A abordagem paciente, humanizada e atenciosa é sempre o melhor caminho, entendendo o nível de atividade a se atingir para que o paciente execute sua atividade laboral, social e, em alguns casos, física de forma eficaz e com o mínimo de limitação possível. Uma maneira eficiente de mostrar que uma vida normal é possível é a apresentação de outros pacientes. Quando essa abordagem é feita, é muito importante mostrar exemplos, como características físicas e níveis de amputação similares. Na fase mais crítica desse processo, o paciente precisa ser ouvido de forma ativa e humanizada, entendendo a perda ocorrida, mas compreendendo que é possível levar uma vida normal e com baixíssimas limitações.

“O processo de reabilitação é contínuo. Você tem que se manter em movimento”

INCLUSÃO NO TRABALHO – O médico do trabalho Luciano Oliveira foi fundamental para o retorno de Felipe à vida profissional. “Logo após o acidente, fui visitar o Felipe em sua residência. Conversamos muito sobre os caminhos que ele poderia seguir”, diz o especialista.

“A primeira prótese, apesar de ser a mais moderna na época, não podia molhar, o que inviabilizou seu retorno a bordo. Em 2015, uma peça dessa prótese quebrou e, como o concerto era muito caro, decidimos juntos pela busca de um equipamento mais atualizado”, conta o médico.

Felipe encontrou uma prótese desenvolvida para que fuzileiros (marines) americanos pudessem voltar a pular de paraquedas e até nadar em água doce ou salgada. Com essa descoberta, o médico não teve dúvidas de quem Felipe seria a primeira pessoa no mundo a retornar ao trabalho offshore em segurança após uma amputação. “O resto da história todos já conhecem”, completa o médico.

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