“Amputados devem mostrar suas próteses com orgulho”

“Amputados devem mostrar suas próteses com orgulho”

Pedro Pimenta teve braços e pernas amputados aos 18 anos após uma infecção generalizada causada pela bactéria da meningite. Chegou ao hospital com menos de 1% de chance de sobrevivência e ficou seis meses internado. Hoje, com 28 anos, viaja o mundo para contar sua história. "O ideal é ser dependente das próteses para ser independente", diz.

Luiz Alexandre Souza Ventura

06 de maio de 2019 | 11h44

IMAGEM 01: Pedro Pimenta teve braços e pernas amputados aos 18 anos após uma infecção generalizada causada pela bactéria da meningite. Chegou ao hospital com menos de 1% de chance de sobrevivência e ficou seis meses internado. Hoje, com 28 anos, viaja o mundo para contar sua história. “O ideal é ser dependente das próteses para ser independente”, diz. Descrição da imagem #pracegover: Pedro tem cabelo pretos e curtos. Está dentro de um carro e olha pela janela do motorista, fazendo uma careta ao lado de um pequeno cachorro branco de olhos grandes. Ele veste um boné branco com a frase ‘Pedro Primenta – Life.com’ e exibe a prótese fixada ao braço esquerdo. Crédito: Arquivo Pessoal / Pedro Pimenta.


O jovem brasileiro Pedro Pimenta, de 28 anos, mal teve tempo de entender o que estava acontecendo quando, aos 18 anos, foi atingido pela meningococcemia, infecção bacteriana aguda, rápida e fatal, causada pela Neisseria meningitidis, a mesma que provoca a meningite.

Esporte e alimentação saudável eram parte de sua vida diária, mas a velocidade da infecção foi avassaladora. Ainda assim, Pedro sobreviveu.

Quando acordou na cama do hospital – onde ficaria por seis meses – não era mais a mesma pessoa. “Foi um choque de identidade, a pessoa que eu conhecia praticamente morreu, tive que construir uma nova identidade”, conta o jovem em entrevista exclusiva ao #blogVencerLimites.

Hoje, com 28 anos, Pedro mora sozinho nos Estados Unidos e trabalha em uma instituição ligada à tecnologia ortopédica para amputados. É formado em economia pela University of South Florida (Tampa/EUA) e viaja o mundo para contar sua história em palestras, além de treinar pessoas que sofreram amputações.



#blogVencerLimites – Por favor, conte sobre sua vida atual, seu dia a dia com as próteses e sua rotina.

Pedro Pimenta – Hoje, minha vida está bem normalizada. Com o uso das próteses, consigo ser uma pessoa independente, ter meu apartamento, ter meu carro e com mínimas, ou quase nada, de adaptações especiais. Eu coloco as quatro próteses logo de manhã quando acordo, é a primeira coisa que eu faço, e passo o dia inteiro com elas. Faço todas as atividades que eu tenho que fazer com elas. Tiro as próteses apenas para tomar banho e dormir. As próteses das pernas precisam ser recarregadas diariamente (faço isso quando as tiro para dormir). As dos braços não precisam ser recarregadas, pois são próteses mecânicas.

#blogVencerLimites – Qual a sua avaliação sobre o acesso à tecnologia assistiva onde você vive atualmente? Quais são os destaques positivos e as barreiras?

Pedro Pimenta – Sobre tecnologia assistiva, eu uso muito pouco. Eu tenho um mantra de me adaptar ao mundo mais do que adaptar o mundo a mim. Então, qualquer tipo de tecnologia assistiva eu tento minimizar na minha vida para que eu possa ser o mais independente com o uso das minhas próteses.

Eu costumo falar para os amputados que eu treino, que o ideal é que a gente seja dependente nas próteses para sermos independentes. Como eu falei na primeira resposta, eu uso as próteses o dia inteiro com mínimas adaptações, inclusive no carro.

Um exemplo da adaptação que eu uso, é uma adaptação portátil, levo ela comigo, é o anel que eu coloco no volante do carro para dirigir em áreas mais apertadas, por questão de segurança. Fora isso, na minha casa não tem nada de diferente de uma casa normal. O banheiro, a cozinha, nada é adaptado para eu viver de forma independente.

Essa é a forma que escolhi para viver, mas cada caso é um caso, cada amputado é um amputado. Depende do nível de amputação, quantas amputações, qual o tipo de prótese. Eu, felizmente, consegui chegar nesse estilo de vida, onde consegui minimizar as adaptações e tecnologia assistiva.



#blogVencerLimites – Qual a sua opinião sobre acessibilidade e inclusão na comparação entre Brasil e Estados Unidos?

Pedro Pimenta – A diferença de acessibilidade entre Brasil e EUA é gigantesca. Lá, eles têm uma lei federal de acessibilidade. Então, qualquer lugar que você vá, seja estabelecimento público, comercial ou não, vai ter uma rampa, um espaço suficiente para locomoção, uma boa calçada. Lá eles pensam não só nas pessoas com deficiência, mas também nos idosos, nas gestantes.

Temos uma diferença muito grande entre Brasil e EUA, mas a gente vem caminhando para um cenário melhor. Eu diria que o Brasil hoje é melhor do que 10 anos atrás, quando eu sai do hospital.

#blogVencerLimites – Por favor, fale sobre o momento da ruptura, sobre o sentimento imediatamente após as amputações?

Pedro Pimenta – O sentimento após as amputações foi terrível, foi de dúvida, porque eu me encontrava ali no hospital, sob efeito de remédios fortes, não entendia muito bem o que estava acontecendo. Não sabia da gravidade da meningite, uma doença séria, que pode evoluir muito rápido e causar a morte ou sequelas graves (como aconteceu comigo).

Aos poucos, eu pude entender e é chocante porque você vive 18 anos da sua vida de uma forma, com um corpo, e de repente você acorda numa forma completamente diferente.

Eu lembro muito bem de olhar pra baixo e ver o contorno do lençol muito menor do que eu era – eu tinha 1,80 e os meus pés ficavam quase pra fora da cama. Quando eu acordei depois da amputação não foi isso que eu vi. Foi um choque muito grande, um choque de identidade primeiramente, a pessoa que eu conhecia praticamente morreu, tive que construir uma nova identidade.

O Pedro que jogava futebol, o Pedro que tocava guitarra, deixou se existir. Mas foi a oportunidade de criar uma nova identidade, de um novo Pedro após a meningite.




#blogVencerLimites – Como foi sua reabilitação? Quem foi importante nesse processo?

Pedro Pimenta – A reabilitação foi muito dura. Passei por diversas clínicas, no começo era tudo muito difícil. No meu caso, sendo um tetra amputado, que perdeu as duas pernas acima dos joelhos e os dois braços acima dos cotovelos, isso faz um caso muito difícil na reabilitação com próteses.

Para se ter uma ideia, eu gasto por volta de 300% mais de energia só para caminhar, comparando a uma pessoa normal. Então, isso foi muito sofrido, saía muito sangue, muito suor.

Quem realmente foi instrumental nesse processo foram os amputados que eu conheci, principalmente na clínica que me reabilitou, em Oklahoma, que tinha soldados do Afeganistão e do Iraque, tinha civis, mas eram jovens, mais ou menos em uma situação parecida com a minha, a gente desenvolveu quase que uma família, onde um empurrava o outro pra frente.

#blogVencerLimites – Em suas viagens pelo mundo, o que você encontra de bom e de ruim? Quais países, na sua avaliação, estão à frente nas questões de inclusão e acessibilidade? Por quê? Para você, qual deve ser o caminho para evolução desse cenário mundial?

Pedro Pimenta – Eu viajo bastante, muito pelos EUA, mas também faço viagens para o Brasil, América Latina e Europa. Com certeza, o país número um em acessibilidade e inclusão, com mercado de trabalho, boas oportunidades, e que torna a pessoa com deficiência bem inserida na sociedade é o EUA. Até porque eles têm muitos soldados voltando amputados da guerra e eles querem dar uma boa condição para esses soldados voltarem a ter uma vida normal.

A Europa também tem uma boa acessibilidade, mas acho que estamos num bom caminho para evolução desse cenário mundial. O mundo mudou muito nesse sentido e pra melhor. Na Argentina tem boa acessibilidade, na Colômbia também.

O mundo está envelhecendo e, com isso, é preciso de mais acessibilidade, não é só para pessoas com deficiência. As políticas públicas vêm sendo debatidas nos Congressos. Aqui no Brasil temos a senadora Mara Gabrilli que faz um trabalho essencial nesse sentido. E também nas redes sociais, é importante os amputados postarem fotos, serem pessoas de destaque, mostrarem as próteses com orgulho. Quanto mais pessoas conviverem e conhecerem amputados, melhor serão a acessibilidade e a inclusão.

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