“Aprendi a viver além da Esclerose Múltipla”, diz nadadora francesa

“Aprendi a viver além da Esclerose Múltipla”, diz nadadora francesa

Em entrevista ao #blogVencerLimites, Anita Fatis fala sobre o convívio com a doença, avalia a acessibilidade no Rio de Janeiro e diz que sua participação nos Jogos do Rio, mesmo sem a conquista de medalhas, foi uma oportunidade para dar destaque ao esporte paralímpico em seu país.

Luiz Alexandre Souza Ventura

19 de setembro de 2016 | 15h08

“A França começou a se interessar pela Esclerose Múltipla recentemente, porque a doença se tornou a primeira causa de deficiência no país. É uma questão prioritária para o Estado financiar pesquisas a respeito da cura”, diz a nadadora paralímpica Anita Fatis, que participou dos Jogos do Rio e comemorou seu 53º aniversário durante as competições.

Diagnosticada aos 26 anos, ela passou por muitos médicos e chegou a ouvir de um deles que se tratava apenas de um problema psicológico. “Foi muito complicado. No início os médicos não sabiam diagnosticar o que eu tinha e diziam era psicossomático, que estava tudo na minha cabeça. Em outras palavras, que eu estava maluca”, relembra Fatis.

“Só que eu estava com a perna parada, com a boca caindo um pouquinho, com o olho prejudicado. Eu sabia que tinha alguma coisa. Cerca de quatro meses depois, encontramos um médico que fez a primeira ressonância magnética e viu que eu tinha uma doença. Fiquei contente com isso porque o exame mostrou que eu tinha uma doença ‘de verdade’. Depois disso, comecei a lidar melhor com meu problema”, relata a atleta.

Anita iniciou um tratamento com os protocolos habituais para a EM, com uso de corticóides, e conseguiu se recuperar. “Em 2006, tive um surto e comecei a cair na rua, minha perna cedia, então eu tive de começar a usar cadeira de rodas. Foi muito penoso, difícil mesmo. Mergulhei numa depressão profunda, só pensava em me suicidar, fiquei um ano sem sair de casa. Meu marido e a natação me salvaram”, lembra.

A nadadora francesa afirma que seu país ainda tem muito para avançar sobre a Esclerose Múltipla. E sua participação nos Jogos Paralímpicos Rio 2016 (50, 100 e 200 metros livre, e 50 metros costas), mesmo sem a conquista de medalhas, foi fundamental para ampliar o interesse sobre o esporte paralímpico.

Com o fim da paralimpíada, Anita vai trabalhar em um novo centro de natação, construído para promover a inclusão de pessoas com deficiência no esporte. “O lugar tem uma piscina acessível, mas não tem banheiros nem duchas acessíveis. Vou também com a missão de chamar atenção e avisar que, se querem ter pessoas frequentando e dar visibilidade ao centro, eles devem tornar todo o local mais acessível às pessoas de fato e por completo”, diz.

A atleta fez uma boa avaliação dos recursos de acessibilidade que encontrou no Rio, no aeroporto e na Vila Olímpica. “A única queixa é que há muitas subidas e decidas, então, dói o meu braço. No aeroporto estava tudo extremamente acessível. E na Vila Olímpica também”, comentou.

Anita ressalta que a Esclerose Múltipla, para muitos, é invisível, porque há pacientes que não demonstram ter a doença, que não usam cadeiras de rodas. “É preciso haver informação e acessibilidade para todos, tratamentos, saúde mental, para que eles possam ter qualidade de vida, para que possam ir mais adiante na vida do que só ter a doença. Isso também é acessibilidade”, defende a nadadora.

Sobre a vida de atleta, ela afirma ser menos complexo quando não está em fase de tratamento, mas é importante estabelecer uma rotina de descanso, para repousar da fadiga, sem nenhum procedimento diferenciado.

“Acordo às 6h30, tomo café e, às 7h30, vou para a piscina. Treino até 11h30, volto para casa, almoço, durmo, acordo, tomo um café, e aí vou trabalhar”, diz. “Eu trabalho com associações diversas, com crianças doentes ou que estão em casas de família por causa de problemas familiares ou judiciais. Também com pessoas doentes, para quem eu dou treinamento físico três vezes por semana. São pessoas que, como eu, têm Esclerose Múltipla, mas também outras doenças, como Sharkour, câncer ou alguma deficiência. Eu dou aulas e treinamentos no centro de natação em Thionville, que é inteiramente acessível: piscina, banheiros, duchas. Tem até um elevador para entrar na piscina”, comenta.

“O grande problema é que a Esclerose Múltipla é uma doença, na maioria das vezes, invisível. Eu estou numa cadeira de rodas, então é obvio que tenho uma deficiência. Mas muitas outras pessoas que têm a mesma doença e não estão em cadeira de rodas sofrem tanto quanto eu. O lado difícil da EM é que muitas vezes a doença não é óbvia. Aquilo que é óbvio as pessoas respeitam com mais facilidade. Essa doença me deu um rótulo social, de uma certa forma. E eu aprendi a ir além da doença”.

Conquistas – A nadadora francesa Anita Fatis tem 15 títulos nacionais; ganhou bronze nos 50m livre em Funchal, em maio de 2016; bronze também nos 50m livre em Eindhoven (2014); bronze nos 50m livre e nos 100m livre nos mundiais de 2010, além de chegar à final do 200m livre nos Jogos de Londres.