Autista há 70 anos

Autista há 70 anos

"Guardo a lembrança da dor imensa que era o bloqueio entre o pensar e o falar". O jornalista Luciano Martins Costa, ex-editor executivo do Estadão, tem a síndrome de Asperger. Leia o depoimento exclusivo ao #blogVencerLimites.

Luiz Alexandre Souza Ventura

11 de abril de 2021 | 12h37

Foto de Luciano Martins Costa, homem branco, de 70 anos, com cabelos curtos e brancos, cavanhaque grisalho. Tem um semblante sério e olha para a câmera. Veste camisa social bordô. Ao fundo, uma vegetação verde. Crédito: Arquivo pessoal.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Luciano Martins Costa, homem branco, de 70 anos, com cabelos curtos e brancos, cavanhaque grisalho. Tem um semblante sério e olha para a câmera. Veste camisa social bordô. Ao fundo, uma vegetação verde. Crédito: Arquivo pessoal.


O jornalista Luciano Martins Costa*, de 70 anos, tem a síndrome de Asperger e escreveu um depoimento exclusivo para o blogVencerLimites.

Nasci no Vale do Ribeira, berço dos primeiros degredados, a maioria cristãos-novos que foram tirados de Lisboa e outros lugares de Portugal depois do massacre de judeus e árabes em 1506. As famílias antigas da região, mais especificamente as que tiveram como primeira moradia a cidade de Cananéia, têm por tradição contar essas histórias. Somos remanescentes da povoação liderada pelo célebre Bacharel, que Martim Afonso de Souza encontrou na Ilha do Bom Abrigo em 1532 numa comunidade de 200 europeus. Quando eu era menino, meu pai me levou uma vez a esse lugar, que naquela época ainda tinha ruínas de uma antiga fábrica de óleo de baleia.

Por que esse intróito? Porque tudo isso alimentou meu imaginário desde a mais tenra infância, e foi fundamental para o meu desenvolvimento.

Pelo lado da minha mãe, sou descendente de Ana Cordeiro, que chegou ao Brasil por volta de 1868, aos cinco anos de idade, junto com o pai e uma mucama. Embarcaram na Palestina e adotaram nomes cristãos no vapor português que os transportou. Quando meu pai pediu a mão de minha mãe, minha avó materna a obrigou a contar que era judia, porque no fim da década de 1930 os judeus eram considerados cidadãos de segunda classe.

Antes dos 2 anos de idade, minha mãe perdeu o pai numa enchente, e a família dela foi adotada pelos japoneses, cuja colônia fazia divisa com a pequena fazenda da família. Por isso, minha mãe era uma judia convertida ao catolicismo, mas falava fluentemente o japonês. A vida inteira, quando falava português, ela tinha sotaque igual às japonesas da região. Tenho um vídeo dela em que conta essa história e se percebe o sotaque. Tudo isso é parte da riqueza da qual, ao me apropriar, me servi para evoluir da condição especial em que nasci.

Minha vida começou com um acidente: aos meus três meses, minha irmã mais velha sofreu um tombo quando me carregava no colo e caí com a cabeça no chão, sofrendo traumatismo craniano. Aos quatro anos, chamaram o médico da família para me examinar, porque eu não emitia sons inteligíveis. Depois de muitos exames, segundo meu pai com lentes, cartões coloridos, etc., o Dr. Schwenk disse que eu era autista, que nunca iria falar e que eu deveria ser mandado para uma escola especial quando chegasse a hora de estudar, aos sete anos. Recomendou uma instituição que ele conhecia. Em Buenos Aires.

Meu pai decidiu que eu simplesmente ficaria ali mesmo, no meio das outras crianças (eu era o quinto filho, mais três viriam depois de mim) e que eu falaria se e quando quisesse. No ano seguinte, minha irmã mais velha, que queria ser (e veio a ser) professora, começou a me ensinar a ler e escrever. Aos cinco anos eu era alfabetizado. Ouvia o rádio todos os dias, ia da Rádio Mairink Veiga à Voz da América e Rádio Moscou; aos domingos escutava o “Grande Rodeio Coringa”, na Farroupilha.

Rapidamente, fiz a conexão do que se dizia com as palavras escritas. No meu aniversário de seis anos, meu pai me deu um dicionário da Editora Melhoramentos e disse: “Leia todas as palavras começadas com “a”, depois todas que começam com “b”, e assim por diante. Quando você conhecer todas as palavras, vai entender tudo que existe”. Li o dicionário inteiro em seis meses. Em seguida, li inteirinho o dicionário Francês-Português.

Nesse período, pronunciei minha primeira palavra. Fomos visitar minha avó materna, que estava com uma dor de cabeça que não sarava e eu disse: “Cafiaspirina”. Segundo minha irmã, soou como “café-sipilina”. Certamente um aprendizado colhido na propaganda do rádio. No entanto, na rotina eu não falava. Quando queria alguma coisa, puxava o vestido da minha mãe, apontava, fazia sinais.

Aos sete anos, eu podia ir para a escola, mas, como fazia aniversário em junho, tive que esperar até o ano seguinte. Há poucos anos, em 2008, reencontrei minha primeira professora, dona Teresa Uematsu, e ela contou que me imaginou repetente, porque eu já escrevia fluentemente e escrevia com correção. Mas não falava. Não conseguia, por exemplo, pedir para ir ao banheiro. Então, eventualmente fazia nas calças, e as outras crianças me chamavam de cagão.

A diretora da escola chamou o meu pai e disse que eu não tinha condições de continuar, porque era cruel me expor àquilo. E repetiu o conselho do Dr. Schwenk: uma escola especial. Mas meu pai insistiu e combinou o seguinte: a cada meia hora, a professora daria um sinal e eu poderia sair para ir ao banheiro ou aonde eu quisesse, desde que voltasse logo. Isso não era problema, porque eu não apenas estava alfabetizado como respondia as questões com rimas.

Curiosamente, há cinco anos encontrei em São Paulo um antigo colega que me azucrinava na escola. A primeira coisa que disse, ao me apresentar à sua família: “Esse cara é muito inteligente, mas na escola não falava nem pra ir no banheiro. Vivia cagado”.

Vida que segue, no segundo ano eu comecei a fazer poemas para as datas festivas, era chamado para declamar, mas ficava simplesmente parado no tablado, uma bola de angústia tapando minha voz. A professora pegava o poema e lia para mim. Então, meu pai sugeriu que eu entrasse no grupo de canto orfeônico, porque achava que eu me desenvolveria melhor. Mas foi o contrário: eu simplesmente fingia cantar, decorava tudo com facilidade, mas a voz não saía. Minha cabeça se enchia de música, mas ela não saía da minha boca. Um dia a professora me ensinou um truque: em vez de ler, eu deveria fechar os olhos e falar para mim mesmo. No coral, eu simplesmente deveria cantar pra dentro. Em pouco tempo um fio de voz brotava e, aos dez anos, eu me comunicava verbalmente com certa desenvoltura.

Lembro com grande clareza desse período. Eu falava pouco, mas quando minha voz saía, era num português correto, como se eu tivesse feito um curso de oratória. Frases curtas, bem planejadas. Mas se eu tivesse que me expressar rapidamente, eu travava. Essa foi minha rotina até a chegada da adolescência.

Minha puberdade explodiu numa confusão de sentimentos, porque a demanda por socialização era um desafio que eu não conseguia superar. Uma coisa era lidar com brincadeiras infantis, outra muito diferente era expressar sentimentos e descerrar emoções para uma menina.

Nesse período, tive uma regressão, me tornei agressivo e meus pais foram buscar ajuda. Mas vivíamos numa cidade pequena, sem recursos, e não era possível viajar a Santos ou São Paulo para consultar um psicólogo. Então, meu pai me inscreveu numa associação de estudos esotéricos e, aos quinze anos, fui aceito como neófito na Sociedade Rosacruz. Nos primeiros exercícios, aprendi a controlar meus pensamentos, a direcionar as emoções, a não deixar que a intensidade dos pensamentos embaralhasse as palavras.

Nesse período, minha tia, que era adepta do kardecismo, me levou a uma sessão espírita, contra a vontade do meu pai. Então, aconteceu um fenômeno impressionante. Puseram-me sentado na primeira fila, diante de uma mesa com três adultos vestidos de branco. No centro, a médium, uma jovem de vinte anos. Começou a sessão, rezas, prédicas e em determinado momento meu olhar cruzou com o da médium. Ficamos assim, hipnotizados um pelo outro, trocando sensações e pensamentos, como se houvesse uma sintonia absoluta entre nós, uma conversa silenciosa, e de repente, ela teve um orgasmo ruidoso em plena sessão. Foi um escândalo, mas uns dias depois descobri o endereço dela, peguei minha bicicleta e fui até sua casa, quase na zona rural. Eu a encontrei sozinha. Ela disse que me esperava, retirou um lençol do varal, me levou para dentro da roça e completamos a relação fisicamente. Depois pediu que eu não voltasse ali, que iria se casar no mês seguinte.

A partir desse episódio, virei um falador. Ingressei no ginásio dominando a técnica da conversação, me tornei muito popular na escola por causa dos poemas, criei para mim um personagem social e sociável. Muito mais tarde, vim a saber que meu suposto autismo era o que veio a se chamar Síndrome de Asperger.

Quando me tornei jornalista, ainda era torturante ter que fazer entrevistas. Preferia fazer reportagens factuais, observar os acontecimentos, descrever ambientes e pessoas. Desenvolvi o talento do chiste. Antes que qualquer conversação criasse algum embaraço, eu fazia uma piada, e assim podia transitar com frases curtas, provocar riso e me relacionar com as pessoas.

Passei pelo colegial como um adolescente “normal”, tido como extremamente inteligente, capaz de aprender tudo rapidamente. Mas foi com um trabalho intenso de terapia, seguido de vinte anos de psicanálise, que consegui me emancipar.

Ainda é difícil para mim manter uma conversação regular, comum. Ou me calo ou saio pontificando. Em alguns momentos, ainda sinto dificuldade para me expressar, principalmente em um clima de tensão.

A condição em que vivo é muito complexa, segundo aprendi ao longo desses muitos anos de busca de auto-conhecimento: quem tem essa síndrome do espectro autista mantém um ritmo mental muito mais intenso do que o das demais pessoas. Em toda a minha vida consciente, tive que lidar com essa monstruosa dinâmica mental que não encontra paralelo na palavra. Simplesmente, não é possível expressar todas as sensações, imagens, pensamentos e emoções que brotam da mente. Minhas lembranças desse processo são as de uma constante tentativa de domesticar os pensamentos e tirar deles uma fração que pode ser pronunciada.

Hoje, considero que realizei tudo que desejei como criança: fiz uma bela carreira no jornalismo, viajei muito pelo mundo e continuo a viajar, escrevi uma dezena de livros. Cantei pela primeira vez num palco aos 25 anos, bêbado, na boate de um navio em que viajava para a Europa. Na mesma viagem, cantei algumas vezes num bar de Lisboa.

Participo de um coral, canto num piano-bar de vez em quando e já subi ao palco para interpretar Albert Einstein numa peça de minha autoria, porque o ator ficou doente a uma semana da estreia.

Fui professor, proferi centenas de palestras, no Brasil e no exterior, trabalhei como consultor em gestão de crises, e me preparo para uma nova carreira como roteirista e diretor de cinema.

Por volta de 2010, atuei em aconselhamento de famílias com crianças autistas. Do longo trajeto do silêncio até me tornar um falastrão, guardo a lembrança da dor imensa que era o bloqueio entre o pensar e o falar. É uma dor crucial, quase física, e vem acompanhada da enorme angústia de entender exata e profundamente o que está acontecendo à sua volta, mas não ser capaz de emitir uma frase.

Sou capaz de entender questões muito complexas, fui um dos primeiros jornalistas brasileiros e entender o que era a Internet, ainda antes da criação do primeiro navegador, sou um dos criadores da internet informativa no Brasil. Mas sei que preciso me levantar todos os dias e, a cada manhã, superar o desejo de me manter calado, conversando com meus próprios pensamentos. Tenho um sonho para o futuro: retornar ao silêncio acolhedor da minha mente.

*Luciano Martins Costa é jornalista e escritor, mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero, autor de diversos livros e artigos. Ex-editor executivo do Estado de S. Paulo – onde também atuou como repórter e colunista -, criou e dirigiu o Estadão Multimídia. Foi redator e editor na Abril Cultural, repórter e editor na Folha de S. Paulo, além de repórter na Veja. Na Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), foi pesquisador e professor do Programa de Educação Continuada, criador e coordenador do curso de Gestão de Mídias Digitais. Também desenvolveu um método inédito de ensino de redação adotado na Universidade do Professor, do Paraná, e na Secretaria de Educação de São Paulo, aplicado experimentalmente por dois anos em um colégio da capital paulista.


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