Autista na moda

Autista na moda

Raquel Abiahy, primeira modelo adulta autista do Brasil, foi diagnosticada aos 39 anos. Formada em História, presta consultoria em projetos, grupos de estudos e pesquisas sobre autismo. Em 2020, foi Miss Distrito Federal Inclusivo e desfilou na Osasco Fashion Week.

Luiz Alexandre Souza Ventura

21 de abril de 2021 | 17h01

Foto de Raquel Abiahy na abertura do concurso Beleza Afro. Crédito: Paulo Henrique Cruz Jr.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Raquel Abiahy na abertura do concurso Beleza Afro. Crédito: Paulo Henrique Cruz Jr.


Depoimento de Raquel Abiahy*, exclusivo para o #blogVencerLimites.

Quando fui diagnosticada autista, aos 39 anos, o que eu sabia sobre o TEA estava associado apenas aos autistas com maior grau de dependência e apoio. Como acontece em inúmeros casos de adultos, em especial mulheres e meninas no espectro, eu havia chegado até ali sem nenhum apoio. E ter conhecimento da condição me apresentou pessoas, causas, grupos, o que foi extremamente significativo, pois me tornou consciente de que existem autistas de todas as idades, gêneros, níveis de apoio e o principal: eu não estava sozinha. 

A adaptação a essa nova realidade, com tantas informações de toda natureza sobre o espectro, me colocou, claro, no caminho da inclusão. Pela primeira vez, pude pensar em inclusão sob outra perspectiva, ou seja, a de uma pessoa que busca ser incluída, já que essa passou a ser também a minha realidade.

Infelizmente, o autista pode desaparecer na invisibilidade trazida pelo estigma. Ainda é novidade para muitos se depararem com autistas que “fogem dos padrões” perpetuados pelos filmes, novelas, literatura etc., que são os chamados “autistas de alto funcionamento” ou “autistas leves”, duas nomenclaturas que estão em desuso.

Assim, meu trabalho na moda teve início, após encontrar uma agência inclusiva e abraçar a causa de levar o autismo também para as passarelas.

Desafios existem. Por exemplo, os sensoriais (sons, iluminação, correria dos bastidores, sensibilidade aos odores, tecidos e excesso de maquiagem); de expressão e socialização (conseguir relaxar nos ensaios fotográficos, ter desenvoltura nas expressões faciais e corporais, compreender rapidamente as orientações num universo de subjetividade e criatividade), dentre outros que se apresentam a cada trabalho e exigem uma adaptação nova.

Se há tantos desafios, por que insistir? Será que o autista “combina” com esse meio?

Acredito que quando há desafios, aí é que devemos insistir mesmo. O que me incentiva a continuar é, em primeiro lugar, o fato de que a representatividade de autistas na moda ainda é muito pequena. Como modelo assumidamente autista, já ouvi que queria aparecer às custas do autismo, quando, na verdade, o que eu desejo que apareça é a mensagem de que autistas existem e podem fazer o que quiserem dentro das suas possibilidades.

Outra razão é que os profissionais de diversos setores ganham em termos de aprendizado ao pensar em formas de adaptação para nos incluir, tornando a experiência de todos muito mais enriquecedora. A acessibilidade não deve é um direito somente das pessoas com deficiências visíveis. Um autista precisa ou pode precisar de uma sala mais isolada e silenciosa, de uma equipe que entenda até onde ele consegue ir, maquiadores que estejam dispostos a adaptar para algo mais leve, estilistas que possam definir para modelo autista uma roupa ou acessório mais confortável. Já sei que isso é possível porque tive o privilégio de atuar com profissionais assim.

Por fim, considerando que mais de dois milhões de pessoas (o que nem é um dado exato, é uma expectativa conforme projeção de 1% da ONU) são autistas, é urgente a criação ou adaptação de marcas, setores e produtos que representem nosso público consumidor.

Os diagnósticos de autismo têm se tornado cada vez mais frequentes e é incabível que mais de dois milhões de pessoas tenham pouquíssimas opções ou sejam muito pouco representadas.

A moda é uma das maiores expressões da individualidade e da coletividade, e a existência de modelos autistas mostra às pessoas que é possível enxergar além do estigma. Falando mais precisamente da indústria da moda, quando um grande número de autistas puder dizer: “que bom que essa blusa não tem uma etiqueta que me incomoda” ou “que máximo haver modelo autista na campanha daquela marca”, só assim eu saberei que a conscientização deixou de ser uma palavra dita por modismo e passou a ser uma palavra que, literalmente, entrou pra moda.

*Raquel Abiahy tem 42 anos, nasceu e viveu a maior parte de sua vida em Brasília (DF). Reside atualmente em João Pessoa (PB). Formada em História, criou o perfil @autistatitude no Instagram. É a primeira modelo adulta autista do Brasil em atividade, tendo sido escolhida Miss Distrito Federal Inclusivo 2020. Foi uma das poucas autistas a desfilar na Osasco Fashion Week em 2020. Diagnosticada tardiamente (aos 39 anos), presta consultoria em projetos, grupos de estudos e pesquisas sobre o autismo, além de fazer parte do Conselho de Autistas da Reunida.


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