“Autoridades estão mais interessadas em armas do que em livros”

“Autoridades estão mais interessadas em armas do que em livros”

Coordenador da pós-graduação em psicopedagogia clínica e institucional da UniCarioca, o professor Marcos Silva fala ao #blogVencerLimites sobre educação inclusiva e a situação atual do ensino no Brasil. "Escolas mal têm luz, salas de recursos, tecnologia assistiva e espaços adaptados às diferentes deficiências, professores são mal treinados e desmotivados em salas superlotadas, sem o suporte adequado".

Luiz Alexandre Souza Ventura

01 de julho de 2019 | 11h08


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Descrição da imagem #pracegover: Foto interna da biblioteca da UniCarioca com três alunas consultando livros. Crédito: Reprodução.


A falta de diálogo entre escolas, universidades e a sociedade é um dos grandes problemas do Brasil na promoção da educação inclusiva, avalia o professor Marcos Silva, coordenador da pós-graduação em psicopedagogia clínica e institucional da UniCarioca.

Segundo o docente, o País ainda precisa de muitos avanços para desenvolvimento de práticas inclusivas nas escolas. “Falamos em inclusão, mas não criamos as condições necessárias para dar suporte ao professor para que ele desenvolva um trabalho eficiente”, diz o coordenador em entrevista ao #blogVencerLimites.


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Publicado por UniCarioca em Terça-feira, 6 de novembro de 2018


#blogVencerLimites – Qual é a sua opinião sobre as atuais práticas inclusivas nas escolas brasileiras (públicas e particulares)?

Marcos Silva – Falando da realidade brasileira, ainda temos muito a caminhar, se quisermos desenvolver práticas inclusivas em nossas escolas. Faltam estrutura, profissionais e políticas públicas que realmente incluam crianças e adolescentes em diferentes realidades educacionais.

Na verdade, um dos grandes problemas é a falta de diálogo entre universidades, escolas e a sociedade mais ampla. Um dos objetivos do curso de pós-graduação é a integração entre diferentes níveis de construção do conhecimento, como a graduação e o mestrado, como formas de multiplicar as ações de inclusão social em diferentes espaços.

#blogVencerLimites – Qual é a abordagem inclusiva do curso?

Marcos Silva – É importante deixar claro que, em um mundo complexo, é necessário que o profissional conheça diferentes abordagens. O curso de pós-graduação da UniCarioca foi desenvolvido dentro de uma concepção interdisciplinar.

Em vez de concentrar estudos em uma ou outra abordagem, o foco do curso é o desenvolvimento de um profissional que compreenda que, para lidar com o ser humano, é essencial dialogar com diferentes saberes: dos comportamentalistas aos humanistas, passando pelas diferentes teorias cognitivas, até as neurociências, só para citarmos algumas.

Cada abordagem tem algo para acrescentar à formação de nossos alunos. Nesse tema, a atualização é um ponto crucial.

#blogVencerLimites – Qual é o público-alvo?

Marcos Silva – Profissionais das áreas de educação e saúde, mas é aberto a todos os profissionais que almejam compreender mais sobre o campo das dificuldades de aprendizagem, em particular, com foco na educação especial.


Turma do Jiló e a verdadeira inclusão na escola


#blogVencerLimites – Há inclusão de fato na educação brasileira?

Marcos Silva – Não há inclusão de fato quando temos escolas que mal têm luz, sem salas de recursos, tecnologia assistiva, espaços adaptados às diferentes deficiências, com professores mal treinados e desmotivados em salas superlotadas e sem o suporte adequado.

#blogVencerLimites – A Lei Brasileira de Inclusão exige acesso integral de pessoas com deficiência ao ambiente educacional, com punições a quem rejeitar esse público, mas a LBI é criticada por não fornecer mecanismos que possibilitem essa inclusão com qualidade. Qual a sua avaliação sobre esse cenário?

Marcos Silva – Esse é um dos problemas encontrados na legislação brasileira. É comum, pelo menos na área de educação, a criação de leis e, só depois, com uma lentidão enorme, pensarmos nas ações necessárias para a implementação.

O próprio município do Rio de Janeiro não tem um sistema de inclusão eficiente. Não é diferente na iniciativa privada. Falamos em inclusão, mas não criamos as condições necessárias para dar suporte ao professor para que ele desenvolva um trabalho eficiente.

#blogVencerLimites – Muitas escolas afirmam ser inclusivas, mas os critérios que determinam esse título são confusos. O que torna uma escola realmente inclusiva?

Marcos Silva – Boa pergunta. Na verdade, não vejo confusão. É uma questão bem simples pensar sobre o que torna uma escola inclusiva. O complicado é tornar real em um momento em que parece que as autoridades estão mais interessadas em armas do que em livros.

O primeiro critério seria pensar na arquitetura da escola. Há uma série de modificações necessárias para atender a diferentes deficiências: de rampas a marcadores no chão e nos diferentes espaços.

Em seguida, podemos incluir a formação docente inicial e continuada. Um breve olhar nos currículos em diferentes IES (Instituto de Ensino Superior) pode mostrar muito sobre como o tema é pouco valorizado. Embora hoje a oferta de informação seja bem ampla, ainda temos uma massa grande de profissionais que não compreende o básico sobre o desenvolvimento humano, aprendizagem e possíveis intervenções no campo da educação para múltiplas deficiências.

Para finalizar esse tema, acredito que não basta ter boas instalações e professores bem formados, se você não tiver um suporte adequado ao professor. É impossível fazer um trabalho realmente eficiente, quando há dezenas de crianças na sala, com várias deficiências e dificuldades sem mediação ou o suporte adequado. A inclusão começa no momento em que a família traz a criança para a escola.

É possível perceber se a escola é inclusiva pela acolhida, pela proposta educacional, clara e coerente com a realidade da criança, pela fala do professor e pelo desenvolvimento do aluno. Uma escola inclusiva de verdade é aquela que acolhe a diversidade como algo natural e não como exceção.

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