AVC não é o fim

AVC não é o fim

Neste 29 de outubro, quando celebramos o 'Dia Mundial de Combate ao AVC', conheça o trabalho - e leia o depoimento exclusivo para o blog Vencer Limites - de Erik Nardini, fotógrafo que acompanha a rotina diária da professora Lúcia Kopschitz Bastos, e de sua filha, Ana. O material foi reconhecido pela World Stroke Organization e pela Rede Brasil AVC como um dos mais importantes projetos de conscientização sobre o Acidente Vascular Cerebral.

Luiz Alexandre Souza Ventura

29 Outubro 2014 | 08h00

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Foto: Erik Nardini

O ‘Dia Mundial de Combate ao AVC’ é celebrado nesta quarta-feira, 29 de outubro. Segundo dados do Ministério da Saúde, no Brasil, são registradas aproximadamente 68 mil mortes por ano, causadas pelo Acidente Vascular Cerebral. O tratamento preventivo engloba o controle de vários fatores de risco vasculares como a pressão arterial, diabetes, colesterol, triglicérides, doenças cardíacas, além da necessidade de não fumar, ter uma alimentação saudável e praticar exercícios físicos.

Para lembrar desta data, da importância da prevenção e também que existem muitas formas de lidar com as situações causadas pelo AVC, conheça o trabalho – e leia o depoimento – de Erik Nardini, fotógrafo que acompanha a rotina diária da professora Lúcia Kopschitz Bastos, e de sua filha, Ana. O material foi reconhecido pela World Stroke Organization e pela Rede Brasil AVC como um dos mais importantes projetos de conscientização sobre o Acidente Vascular Cerebral.

Foto: Erik Nardini

“Conheci Lúcia há cinco anos, por intermédio da filha dela, Ana Bastos Caprini. Ana é a moça que aparece nas fotos, e inclusive na ‘foto da foto’ (fiz esse registro para situar que antes a mãe cuidava da filha, e hoje os papéis se inverteram). Lúcia tem 57 anos e mora em Campinas, município que fica a cerca de 100 quilômetros de São Paulo.

Faço visitas regulares a Lúcia e a tenho como um dos maiores exemplos de vida.

Ana é sua mãe ‘conversam’ por intermédio do vocabulário adaptado aos olhos, dividido em quatro linhas, que Lúcia se comunica literalmente num piscar de olhos: a cada letra correta pronunciada pelo interlocutor, ela pisca os olhos indicando que está certo, ou move-os para cima em caso negativo. É incrível que a Ana e as enfermeiras que passam 24 horas com ela não precisam mais anotar as letras para montarem frases: fazem tudo de cabeça!

Foto: Erik Nardini

Lúcia não trabalha atualmente, mas ela faz a gestão da casa, faz as compras (pelo site do Pão de Açúcar, que entrega em casa). Ela responde e-mails também com a ajuda da filha e das enfermeiras. Eventualmente visita a Tok & Stok para comprar coisas pra casa. Como os corredores da loja são largos, a cadeira de rodas transita sem problemas. Para se deslocar até a loja há um táxi adaptado que a busca e leva.

O convívio com a Lúcia me fez crescer muito. O clichê aqui é inevitável, mas ela me fez ver que há pessoas com dificuldades (por mim) inimagináveis vivendo felizes, esbanjando coragem, força de vontade, além de quebrarem barreiras intelectuais e físicas. Permita-me mencionar a Ana novamente, pois ela também é um exemplo de superação, uma vez que ajuda a mãe com tudo e a trata com o absoluto respeito e carinho. Sabemos que isso é o mínimo, mas é fora do normal a relação que elas têm. Quando Lúcia sofreu o AVC, Ana tinha 9 anos. Hoje está com 22.

Foto: Erik Nardini

O projeto – Sou fotógrafo há oito anos, e o fio condutor de todos os meus trabalhos sempre foram pessoas. A história de Lúcia sempre me inspirou, mas eu nunca me senti à vontade para compartilhar isso com Ana e Lúcia. Foi apenas no ano passado (2013) que, com as visitas frequentes à casa de Lúcia, comecei a tomar notas de sua rotina. Perguntava que horas ela costumava se alimentar, que horas tomava banho, quando preferia tomar sol… essas coisas cotidianas. Era isso o que me interessava.

Em posse dessas informações eu comecei a me informar sobre AVC de uma forma geral. Recorri aos dados da World Stroke Organization e da Rede Brasil AVC, organizações responsáveis pela conscientização e prevenção (ambas instituições foram favoráveis e ajudaram na divulgação do projeto). Eu queria entender minimamente do que eu estava falando. Não toleraria tratar o AVC de maneira errônea, muito menos usar termos incorretos para me referir ao acidente. Então pesquisei sobre maneiras de prevenção, sinais de alerta, o que fazer quando isso acontecer, elenquei os hospitais da região para saber pra onde correr se algo acontecesse. Eu realmente fiz uma imersão no assunto. Foi uma das melhores coisas que fiz na vida!

Foto: Erik Nardini

Eis que neste ano, precisamente entre agosto e setembro, tomei coragem e me abri com Ana. Disse que eu queria fazer isso, pedi autorização dela. Ela e a mãe tiveram uma longa conversa e, por fim, toparam sem qualquer resistência. Nos divertimos muito fazendo as fotos. Até as coisas mais bobas, como a comida caindo da colher, viraram motivos de risada pra todo mundo. Isso aproximou (ainda mais) as duas, aproximou antigas amigas da Lúcia também, pois elas tomaram conhecimento do projeto pelo Facebook. As amigas foram visitá-la em casa, as coisas mudaram, a rotina ficou mais agradável.

Finalmente, o que eu sempre digo sobre esse projeto é que eu o encaro menos como ‘a história de uma vítima de AVC’, e mais como ‘uma história de amor, com alguma coisa de AVC’. Parece bobo, e eu sei disso, mas é minha maneira de ver o ensaio”.

Foto: Erik Nardini

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