“Bolsonaro é um autista, porque autistas não têm sentimentos”

“Bolsonaro é um autista, porque autistas não têm sentimentos”

Após repercussão negativa, Luiz Antônio da Silva, o Luizinho do PT, prefeito de Alfenas (MG), publicou vídeo para se explicar sobre a declaração feita por ele em um programa de rádio no dia 23 de janeiro. Governo federal encaminhou caso às autoridades, com base na Lei Brasileira de Inclusão.

Luiz Alexandre Souza Ventura

05 de fevereiro de 2021 | 16h18

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Atualizado às 22h56 de 06/02/2021 – Uma declaração do prefeito de Alfenas, no sul de Minas Gerais, Luiz Antônio da Silva (PT), gerou reações da comunidade autista, de pessoas e de instituições que defendem os direitos da população com deficiência.

“Bolsonaro é um psicopata, um autista, porque autistas não têm sentimentos, olham para uma pessoa que está sofrendo e não sentem nada”, disse Silva, ao vivo, no dia 23 de janeiro, durante o programa de rádio ‘Conversa com o Prefeito’, transmitido pela Pinheirinho FM (88,3).

O trecho está compartilhado no YouTube.


Foto do prefeito de Alfenas (MG), Luiz Antônio da Silva, falando ao microfone em um estúdio de rádio. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Foto do prefeito de Alfenas (MG), Luiz Antônio da Silva, falando ao microfone em um estúdio de rádio. Crédito: Reprodução.


O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), do qual faz parte a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNDPD), informou em nota publicada na madrugada deste sábado, 6, que vai encaminhar o caso às autoridades competentes. “Será apurado com todo o rigor da lei que protege as pessoas com deficiência no Brasil”, diz a pasta, que cita o artigo 88 da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (n° 13.146/2015).

“Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência: Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. § 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput deste artigo é cometido por intermédio de meios de comunicação social ou de publicação de qualquer natureza: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa”, estabelece a LBI.


Em vídeo publicado neste sábado, 6, no Facebook, o prefeito pediu desculpas pela declaração.


“Infelizmente, esse tipo de comentário é muito comum. E me preocupa muito porque surge de algumas pessoas que são, em tese, progressistas, que supostamente respeitam minorias e, muitas vezes, são as primeiras a nos estigmatizar em certos contextos”, diz o jornalista Tiago Abreu, que é autista e comanda o podcast ‘Introvertendo’.

“Falta muito para a sociedade compreender o que é capacitismo e como isso afeta todas as pessoas com deficiência”, comenta Tiago.

“É uma declaração recheada de preconceito e desinformação sobre o que são pessoas autistas e suas contribuições à sociedade”, destaca a Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas.

“Só podemos lamentar uma pessoa em cargo tão importante como o de prefeito fazer tal declaração, que repudiamos. Pessoas autistas vivem em diversos contextos, têm sentimentos sim, sofrem justamente pelo preconceito, por sentir na pele a rejeição”, diz a Abraça.

“A frase do prefeito de Alfenas só contribui para a desinformação. Quando alguém chama um político de ‘autista’, está atacando a dignidade de todas as pessoas autistas, mas não a do político citado”, ressalta a associação.

Para Fábio Sousa, o Tio.Faso, de 38 anos, autista que recebeu o diagnóstico há 2 dois anos, empresário e palestrante, a declaração do prefeito de Alfenas reforça a avaliação equivocada de que pessoas autistas atrapalham.

“É mais uma coisa estereotipada sobre nós, que nos trata como vegetais ambulantes. Temos problemas para entender algumas coisas, por causa do nosso pensamento concreto e lógico, mas a partir do momento em que compreendemos o outro – aquilo abstrato, conseguimos ser empáticos a ponto de sofrer junto”, diz.

“Temos sentimentos, como todas as pessoas. Só não conseguimos disfarçar quando não compreendemos algo por não nos ser familiar”, rebate Fábio.

O ativista do autismo e youtuber Willian Chimura afirma que a frase do prefeito desumaniza as pessoas autistas.

“É tão frustrante e infeliz que, poucos dias após comemorarmos a contribuição da proposta de redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para o combate do estigma associado às pessoas com condições neuropsiquiátricas, somos forçados a um choque de realidade com a fala do prefeito”, comenta.

“Ele insiste em pseudo-explicações repletas de ignorância e preconceito, sem sequer considerar que autistas são seres humanos e cidadãos, assim como ele”, lembra Willian.

“Sugiro ao prefeito que fez tão infeliz declaração sobre autismo, ofendendo gravemente todos os autistas com os absurdos citados na entrevista, que procure uma família com filho autista para ver de perto quanto amor eles conseguem espalhar. Todos são contagiados com sua presença e por mais severo ou profundo que seja, sempre conseguem despertar amor”, afirmou Berenice Piana, co-autora da Lei n° 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

“Digo ainda, como mãe, ativista, conselheira de honra da Reunida (Rede Unificada Nacional e Internacional pelos Direitos dos Autistas), que é imperioso calar quando não se conhece o assunto. Ao adentrar um lar onde o autismo fez morada, vai entender que não se trata de ‘falta de sentimentos’, mas sim de sentimentos intensos que nem sempre conseguem ser expressados e, menos ainda, entendidos por prefeitos que os rotulam de ‘psicopatas’, sem a menor noção da absurda agressão a toda uma classe de indivíduos”, destacou Berenice Piana.

O advogado e paratleta Emerson Damasceno, presidente da Comissão de Defesa da Pessoa com Deficiência da OAB-CE e membro da Comissão Nacional do Conselho Federal da OAB, informou ao #blogVencerLimites que vai levar o caso à Comissão Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB.

“É lamentável que a sociedade persista em atos discriminatórios. Esse tipo de declaração segrega ainda mais a pessoa com deficiência, retira o protagonismo e amplia a invisibilidade”, afirma Damasceno.

Autismo não é adjetivo – “Há anos nossa comunidade pede atenção para a moda triste de ‘ofenderem’ pessoas neurotipicas de ‘autistas’. Quem menos conhece o transtorno do espectro autista, mas acha que sabe, usa a palavra para desdenhar daquele que considera egocêntrico, isolado ou inflexível. Caso seja essa a intenção, deveriam chamá-lo com tais adjetivos, mas nunca de autista”, ressaltou Fátima de Kwant, especialista em autismo, desenvolvimento e comunicação, co-idealizadora da Reunida e assessora do apresentador Marcos Mion para o tema.

“Já estamos cansados de remar contra a maré. Ainda mais quando a expressão é dita em público por pessoas que influenciam a opinião pública, como no caso de políticos, artistas, jornalistas e pessoas bastante seguidas nas redes sociais. Autismo não é adjetivo. Chamar qualquer pessoa de autista para classificá-la negativamente é discriminação”, diz Fátima.

“Um dos mitos sobre o transtorno do espectro autista que ainda permanece, apesar de tanta conscientização, é o de que os autistas não têm sentimentos, não têm empatia, não são seres sociais. Esse é um erro frequente nas pessoas leigas. Os autistas são todos únicos, e mesmo que uns sejam menos sociais que outros, a maioria tem as mesmas emoções que pessoas não-autistas. A única diferença é que nem sempre expressam essas emoções do jeito mais comum, dando a impressão de que não sentem”, explica a especialista.

“Autistas são pessoas completas, com sentimentos e com noção do que acontece ao redor. A dificuldade na comunicação e o modo de fazer contato podem diferenciar das pessoas não-autistas, mas não são insensíveis, tampouco psicopatas, uma acusação injusta, incorreta e discriminatória. Em 2 de abril celebramos o dia da Conscientização Mundial sobre o Autismo. Um lindo dia para o prefeito de Alfenas, e todos que pretendem usar o autismo como adjetivo, conhecerem o transtorno do espectro autista”, completa Fátima de Kwant.

Repúdio – Em nota, a Rede Unificada Nacional e Internacional pelos Direitos dos Autistas (Reunida) repudiou a declaração do prefeito de Alfenas.

“A Reunida – entidade de caráter social, que tem na sua concepção a diferença e o discernimento no ato de planejar e executar ações, cuja finalidade é o aprimoramento da qualidade de vida para todas as pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) do País, sem exceção. Nossa missão é prestar um serviço de excelência em defesa dos direitos, no cumprimento da Lei 12.764/12 e no fomento das políticas públicas visando proporcionar maior segurança e bem-estar aos autistas – vem a público repudiar a entrevista concedida pelo prefeito do município de Alfenas, no Sul de Minas Gerais, o senhor Luiz Antônio da Silva, que, sem qualquer conhecimento ou respeito, usou o termo autista de forma pejorativa, ferindo a dignidade humana das pessoas com deficiência. A referida entrevista foi concedida à rádio comunitária do Pinheirinho, sendo também transmitida por vídeo em redes sociais, no último dia 23 de janeiro.

A Reunida não concorda com esse tipo de fala e o uso indevido da palavra ‘autismo’, no caso, como adjetivo pejorativo e usado para atacar e ofender toda a comunidade do autismo, que luta diariamente para romper barreiras do preconceito da população em relação ao Transtorno do Espectro do Autismo.

A Reunida aproveita e se solidariza com todos os cidadãos autistas, familiares e apoiadores da causa, que se sentiram atacados e desrespeitados pelo prefeito de Alfenas”, conclui a nota.

Capacitismo – O psicólogo Flavio Gonzalez, executivo de Negócios Sociais do Instituto Jô Clemente (IJC) avalia a declaração do prefeito de Alfenas como capacitista.

“É uma pena que autoridades façam essas afirmações, talvez sem perceber que, com isso, reforçam preconceitos e estigmas sociais que perpetuam o capacitismo estrutural vigente na sociedade brasileira”, diz Gonzalez.

“Antes de tudo, ele faz confusão ao misturar o transtorno do espectro autista com a psicopatia e a sociopatia. Trata-se de um erro grosseiro, pois, do ponto de vista clínico, esses quadros não se confundem, são completamente distintos, sendo muito danosa essa associação do ponto de vista social, considerando que os ouvintes são também pessoas leigas. Pessoas com transtorno do espectro autista não são psicopatas nem sociopatas”, esclarece o psicólogo.

“Em seguida, ele afirma que as pessoas com transtorno do espectro autista não têm sentimentos. Isto é um completo absurdo e chega a ser desumano. Pessoas com transtorno do espectro autista podem sim ter dificuldade de expressar e interpretar sentimentos, mas dizer que elas não sentem é um grande equívoco, sendo essa sim uma falta de empatia, já que, certamente, muitos munícipes de Alfenas que talvez estivessem ouvindo, são pessoas autistas ou familiares. Como será que se sentiram ouvindo isso?”, questiona o especialista.

“Pretender utilizar nomenclaturas médicas que se referem a transtornos que afetam tantas pessoas, como se fossem ofensas, potencializa a exclusão e o isolamento social crônico a que esse público é submetido cotidianamente. Por fim, mas não menos grave, mencionar o nome de uma instituição séria, com décadas de serviços prestados ao País, também no intuito de atacar alguém, como se frequentar ou ter frequentado essa organização fosse demérito para uma pessoa. Por tudo isso, é lamentável perceber que, no Brasil, ainda estamos muito longe do reconhecimento e do respeito à diversidade, à neurodiversidade e, portanto, ao inalienável direito de cada um ser como é, e ter reconhecido o seu valor no âmbito social”, completa Flavio Gonzalez.

Crueldade – Para a senadora Mara Gabrilli, as afirmações do prefeito de Alfenas mostram desconhecimento e falta de respeito.

“Falar que uma pessoa com autismo não tem sentimento expõe, além de discriminação, falta de informação e conhecimento. É uma fala cruel e desrespeitosa. Uma quimera”, comentou a senadora.

“Além disso, a variação de comportamento dentro do espectro autista é ampla e variada. Falamos de um universo extremamente diverso, como é, inclusive, o de toda a diversidade humana. Falamos aqui, sobretudo, de pessoas. E as pessoas autistas criam fortes vínculos emocionais e são dotadas de empatia, algo inimaginável para alguém sem sentimentos”, diz a parlamentar.

“Precisamos parar de alimentar estereótipos sem fundamento como esse”, defendeu Mara Gabrilli.

Vieses e preconceitos – A doutora em psicologia e pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP), Táhcita Medrado Mizael, autista diagnosticada no ano passado, explica que, por décadas, conjecturou-se que pessoas autistas viviam em ‘seus próprios mundos’, sem empatia e sem sentir a dor dos outros.

“Essas concepções, atualmente comprovadas incorretas e ofensivas, têm base em um misto de vieses e preconceitos, uma vez que a referência do que seria uma pessoa ‘normal’ era as pessoas neurotípicas”, diz a especialista.

“Cientistas auxiliaram nessa concepção durante muito tempo, assim como a população geral, que reproduzia, e ainda reproduz, esses estereótipos”, afirma a pesquisadora.

Táhcita Medrado Mizael celebrar os avanços no meio científico. “Hoje, sabe-se o quão prejudiciais e inacuradas são tais ideias, mas muitas pessoas ainda reproduzem essas imagens, em parte porque existem poucas ações concretas que deem visibilidade para a comunidade de autistas como protagonistas de si, como pessoas capazes de estudar e falar sobre sua condição, como pesquisadoras e pesquisadores, e de serem cidadãos plenos, reconhecidos como humanos e com o mesmo valor atribuído às pessoas neurotípicas”, avalia.

“Espero que essa ocasião sirva de estopim para o protagonismo autista, que o prefeito de Alfenas reconheça o absurdo que é equiparar uma pessoa autista com um sociopata, e que ações, como treinamentos, sejam propostos e implementados para aumentar a compreensão sobre o autismo e outras condições de pessoas neurodiversas, não só na prefeitura de Alfenas, como em diversos espaços”, finaliza Táhcita Medrado Mizael.

O apresentador Marcos Mion também se manifestou, em vídeo no IGTV. “Ninguém tem a obrigação de nascer sabendo, mas todos têm a obrigação de aprender. Um político deve representar o povo, incluindo os autistas. Então busque saber. Autismo não é adjetivo. Parem de usar o termo autista para justificar ou explicar comportamentos de forma pejorativa”, escreveu Mion na publicação.


Venho publicamente pedir desculpas a toda sociedade, especialmente, as pessoas que tem autismo e aqueles e aquelas que lutam em defesa das pessoas com autismo. A frase que eu usei foi infeliz e errada e não expressa em nenhuma hipótese o que eu penso sobre esse tema – ela também não representa o trabalho e os investimentos feitos pela nossa administração para acolher as pessoas com esse transtorno. Infelizmente, eu fui influenciado pela situação de desespero que nós estamos vivendo com a pandemia, pela perda de amigos e também pela incerteza do futuro. Espero receber a compreensão de todos. Fica aqui o meu compromisso de fortalecer a política pública de cuidado com o autista na nossa cidade. Obrigado.

“Venho publicamente pedir desculpas a toda sociedade, especialmente, as pessoas que tem autismo e aqueles e aquelas que lutam em defesa das pessoas com autismo. A frase que eu usei foi infeliz e errada e não expressa em nenhuma hipótese o que eu penso sobre esse tema – ela também não representa o trabalho e os investimentos feitos pela nossa administração para acolher as pessoas com esse transtorno. Infelizmente, eu fui influenciado pela situação de desespero que nós estamos vivendo com a pandemia, pela perda de amigos e também pela incerteza do futuro. Espero receber a compreensão de todos. Fica aqui o meu compromisso de fortalecer a política pública de cuidado com o autista na nossa cidade. Obrigado”. Nota assinada pelo prefeito de Alfenas, Luiz Antonio da Silva (Luizinho).


Vídeos produzidos por Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais pela tradutora e intérprete Milena Silva.










Vídeos produzidos por Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais pela tradutora e intérprete Milena Silva.


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