Brasil quer exportar tecnologia assistiva

Brasil quer exportar tecnologia assistiva

Estudo identificou potencial nacional, mas destaca carência de ações planejadas e integradas com participação de governo, associações de classe e fabricantes. Projeto executado pela ABIMO, em parceria com a Apex-Brasil, batizado de 'Brazilian Health Devices', busca o fortalecimento das indústrias de artigos e equipamentos da área da saúde. Evento durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016 apresentou equipamentos e empresas.

Luiz Alexandre Souza Ventura

15 Setembro 2016 | 10h00

Tecnologia assistiva é o nome dado a todo serviço, produto ou estratégia que serve à melhoria da mobilidade e da funcionalidade de uma pessoa com deficiência. No Brasil, muitas empresas atuam neste setor, mas não há um mapeamento do tamanho desse mercado. Com foco nos exemplos internacionais e na capacidade nacional, e o governo brasileiro iniciou no ano passado um projeto setorial batizado de ‘Brazilian Health Devices’.

Executado pela ABIMO (Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos), em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), o BHD tem a missão de fomentar as exportações de tecnologias assistivas brasileiras.

“Existe um grande potencial na nossa indústria que ainda é pouco explorado. O Brasil tem 45 milhões de pessoas com deficiência, que precisam de tecnologia assistiva, um mercado que se desenvolveu a partir das necessidades dos cidadãos, mas que ainda tem muito a crescer”, afirma Clara Porto, gerente de marketing e exportação da ABIMO. “Temos muito produtos inovadores, mas essa força não é explorada. Nós queremos fortalecer o mercado nacional e tornar essas empresas competitivas fora do País”, diz.

A área prioritária será a saúde, foco do trabalho da ABIMO, mas vai abranger diversos tipos de tecnologia, como softwares, cadeiras de rodas motorizadas, equipamentos para fisioterapia, reabilitação, recuperação muscular, próteses e órteses, aparelhos auditivos e outros dispositivos.

Segundo Clara Porto, a associação trabalha há alguns anos, em parceira com a ABNT (Associação Brasileiras de Normas Técnicas) para a criação, no Brasil, de regras para cadeiras de rodas e outros produtos de tecnologia assistiva. “A ABIMO também atua para o financiamento de inovações. Há um mês, em São Paulo, participamos de um congresso sobre inovação e promovemos uma discussão específica sobre tecnologia assistiva. Houve também rodadas de negócios entre indústrias e centros de pesquisa com esse foco”, ressalta a gerente.

“Se a empresa não estiver forte internamente, ela não consegue ser uma grande exportadora. Para transformar esse mercado em um grande exportador, uma das nossas tarefas é reorganizar esse setor dentro do País, com a criação de normas para suporte à fabricação e que sejam aceitas no mercado internacional”, explica o presidente da ABIMO, Paulo Henrique Fraccaro.

O principal obstáculo para o crescimento desse mercado, na avaliação de Clara Porto, é o acesso de pessoas com deficiência à tecnologia assistiva, principalmente do ponto de vista financeiro. “Muitas pessoas não podem ter uma cadeira de rodas para a prática esportiva, e nós sabemos que o esporte é uma ferramenta para melhoria da saúde, para o convívio social, para melhoria da vida e do bem estar”, comenta.

Para o presidente da ABIMO, os incentivos criados para que pessoas com deficiência possam comprar carros com isenções de impostos (saiba mais aqui) precisam ser estendidos a outros setores. “Não há esse tipo de benefício para a compra de cadeira de rodas, de aparelhos auditivos, para próteses. São equipamentos que podem ter o mesmo preço de um carro popular, mas não há financiamento nem subsídio”, diz Fraccaro.

“O setor da tecnologia assistiva, no Brasil, estava adormecido. Quando o governo procurou a ABIMO, ficou clara a preocupação do poder público com essa organização. E a primeira imposição é que a indústria se estruture, crie regulamentos e produtos compatíveis com o que existe no exterior. Não há, neste momento, a necessidade de itens luxuosos, mas que esse produtos tragam conforto, mobilidade e segurança ao usuário, às pessoas com deficiência, principalmente porque nossas ruas e calçadas não estão preparadas para garantir essa acessibilidade”, ressalta o presidente da associação.

Potencial – Um estudo realizado pelo CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) a pedido da Secis/MCTI (Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) identificou que o Brasil tem grande competência para o desenvolvimento de tecnologia assistiva, mas, para que ocorra, é fundamental que ações planejadas e integradas sejam implementadas considerando a participação de governo, associações de classe e indústria.

Na avaliação do especialista do CGEE e coordenador do estudo, Milton Paz, há potencial intelectual no Brasil para o desenvolvimento dessas tecnologias em condições semelhantes ou até superiores em relação a iniciativas de instituições de países de primeiro mundo, como a Alemanha, a Inglaterra ou os Estados Unidos.

Além de fazer um estudo detalhado sobre o mercado local – com mapeamento dos fabricantes, identificação de lacunas e pontos a melhorar para fortalecer a indústria nacional –, a ABIMO trabalhará em conjunto com associações de países cujo segmento de tecnologia assistiva já está estrategicamente organizado.

“Faremos uma aproximação para troca de experiências, mantendo sempre a Apex-Brasil envolvida no processo. Além de associações alemãs, também consultaremos a Medilink UK, contraparte britânica com a qual a ABIMO já tem Memorando de Cooperação assinado, e a ADVAMED, contraparte dos Estados Unidos”, explica Clara Porto.

Demonstração – Na primeira semana dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, a Casa Brasil, no Boulevard Olímpico, recebeu a feira ‘Brazilian Health Devices’, com demonstração de diversos equipamentos. Em abril, a ABIMO levou a tecnologia assistiva brasileira para a ‘Abilities Expo’, realizada nos Estados Unidos.

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