Bumbum e rodas

Luiz Alexandre Souza Ventura

05 Fevereiro 2014 | 10h24

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Existe um questionamento (estúpido) que costuma surgir em qualquer conversa de botequim sobre pessoas com deficiência. ‘Qual é a pior deficiência?’ E nunca há um acordo sobre a resposta. “Imagina não enxergar nada”, diz quem ‘defende’ a deficiência visual. “Que nada. Não poder andar é o pior”, afirma quem pensa que pessoa com deficiência física é somente aquela que está sentada em uma cadeira de rodas. “Já pensou não poder ouvir as músicas que você gosta?”, esbraveja um terceiro ‘debatedor’. E ainda tem aquele que encerra a conversa com maestria. “Muito pior é ser retardado”. Essa última já ouvi de gente muito bem esclarecida, que liberta os pensamentos lá pela terceira rodada de cerveja.

Pensar em ‘melhor ou pior deficiência’ é como pensar em pior ou melhor pizza, bicicleta, almofada, shampoo, cigarro, cerveja e qualquer outra coisa.

Deficiência não é coisa.

Assim como também não é coisa o relacionamento de um usuário de cadeira de rodas com uma modelo, que gerou tanta discussão (igualmente inútil ao papo de botequim) sobre, entre outras banalidades, a vida sexual dos namorados.

Lendo tudo o que está publicado sobre isso desde semana passada, fica muito claro que a discussão girou em torno dos atributos físicos da moça e como esse usuário de cadeira de rodas, que não consegue ‘usar’ nada da cintura para baixo, faz, digamos, a parte que lhe é obrigatória.

O debate do botequim deveria ser: por que a vida íntima do casal, de qualquer casal, é importante para outra pessoa que não seja parte integrante deste casal?

Neste caso, porque insultou uma sociedade que exige a perfeição e abomina a diferença. “Como uma gata como ela pode namorar um ‘malacabado’ (como diz o sempre genial Jairo Marques) como aquele?”. Essa dúvida deve ter assombrado muitas cabecinhas ‘perfeitas’ e, obviamente, gerado toda essa onda de comentários e avaliações intelectualóides.

Fato é que, no Brasil, pessoa com deficiência não tem direito a nada. E precisa conseguir tudo no dente, na luta, na porrada. Imagine se um sujeito em uma cadeira de rodas teria paz namorando uma bela moça.

Dizer que tudo isso foi criado pelo preconceito é superficial, porque há muito mais envolvido. A imagem do casal estremeceu o ‘mundo macho’. Tirou do eixo quem não admite a união do ‘estragado’ com qualquer beleza. E como as redes sociais nos permitem expressar nossas mais obscuras opiniões, houve uma avalanche de reprovações.

Estamos muito atrasados no que diz respeito a tudo que envolve pessoas com deficiência. Educação, trabalho, cultura, saúde, lazer, oportunidade para exercer a cidadania plena e, principalmente, ter liberdade para comandar a própria vida.

É ainda mais estúpido que esse cerceamento atinja quem não é pessoa com deficiência, mas faz parte, por livre escolha, por amor, da vida de alguém que tem essa característica. É totalmente contrário à evolução. Agride brutalmente a civilidade.

Sentimento verdadeiro não é coisa. Não precisa de aprovação pública. Ultrapassa os limites do corpo sem esforço. E, felizmente, cria um escudo poderoso contra a estupidez.

Ruim é lembrar que essa estupidez ainda faz com que muitas pessoas com deficiência estejam encarceradas, trancafiadas e isoladas, sejam negligenciadas, sub-utilizadas, humilhadas. Perde o País, que se recusa a permitir que cidadãos produtivos sejam, vejam só, cidadãos.

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