Caminhos e escolhas de uma criança surda

Caminhos e escolhas de uma criança surda

A discussão de outros caminhos para o acompanhamento de crianças com deficiência auditiva motivou a executiva Teresa Leite a contar sua história em um livro que será lançado neste sábado, 7, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Luiz Alexandre Souza Ventura

05 Março 2015 | 13h12

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'Quem Decide? Os Caminhos e Escolhas na Vida de Uma Criança Surda' será lançado no Rio de Janeiro

‘Quem Decide? Os Caminhos e Escolhas na Vida de Uma Criança Surda’ será lançado neste sábado, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

‘Quem Decide? Os Caminhos e Escolhas na Vida de Uma Criança Surda’ tem Thalita como personagem principal. Hoje com 21 anos, ela foi diagnosticada, aos 4 meses de vida, com meningite meningocóica. Além da perda da audição, causada por uma lesão neurológica, a menina também enfrentaria dificuldades para falar. “Por que a oralização é tão desprezada, como se não fossem os surdos indivíduos que têm direito a minimizar seus problemas de comunicação?”, diz Teresa, doutora em Pediatria e e diretora-superintendente da Fundação Eletronuclear de Assistência Médica (FEAM).

“As dificuldades reais surgiram onde menos esperávamos, com a escola e os educadores, com os surdos e pais de crianças surdas”, lembra a educadora. “Thalita tem 21 anos, cursa design e já estudou inglês. É faixa preta de karatê e integra a equipe brasileira que foi, em 2014, ao Campeonato Mundial de Karatê (JKA), em Tóquio (Japão)”, diz Teresa. A autora mantém uma página no Facebook para debates sobre o tema e também criou o e-mail QuemDecide@gmail.com para aproximar a comunicação com pessoas interessadas no assunto.

Abaixo, a entrevista completa.

Vencer Limites – Como foi o processo que deu origem ao livro?

Teresa Leite – A ideia de transcrever minha historia surgiu de uma conversa com uma amiga da cidade de São Francisco de Paula (RS), que trabalha com pessoas com deficiência auditivas. Segundo ela, a forma como a situação da Thalita foi conduzida poderia abrir uma discussão de como existem outros caminhos para o acompanhamento de crianças com surdez que não aqueles fechados, travados e postulados hermeticamente. A isso se juntou uma vontade minha de discutir porque só existe um caminho para muitos estudiosos e trabalhadores da área de saúde e educação para os surdos. Por que eu e minha filha fomos discriminadas pelos profissionais que trabalham com surdez no município onde vivo e pelos surdos e sua comunidade?. Por que a oralização é tão desprezada, como se não fossem os surdos indivíduos que têm direito a minimizar seus problemas de comunicação, como têm os cegos quando procuram uma solução para sua cegueira ou a pessoa com deficiência física quando procura minimizar sua dificuldade de movimentação? Outro ponto relevante é a discussão da inclusão de surdos na educação regular. Como seria interessante que crianças surdas e ouvintes pudessem conviver pelo menos no mesmo espaço escolar. Que adultos diferentes seriam. Por que existe tanta dificuldade no cumprimento das leis que garantem direitos aos surdos durante sua vida escolar? Por que minha filha, que fala, embora tenha uma surdez severa-profunda, não tem direito algum? É surda fisiológica, mas não de fato para as pessoas e instituições. Todos esses questionamentos me levaram a escrever um livro que pudesse provocar uma discussão profunda sobre as correntes e as várias facetas da estimulação e educação dos surdos, sua integração e aceitação não só pela sociedade, mas também como profissionais de saúde e educadores entendem esse individuo, como por eles fazem escolhas e como eles as aceitam. Discutir a unicidade de cada ser e como cada um pode desenvolver sua potencialidades. Discutir a responsabilidade dos profissionais de saúde e educação na orientação e na apresentação de caminhos aos pais de surdos e como a construção do caminho da criança depende dessas discussões e dos caminhos escolhidos por outros. Refletir sobre quais caminhos existem e como podemos minimizar a dificuldade profunda de comunicar-se. Espero que o livro possa provocar em profissionais de saúde e educadores uma reflexão profunda sobre seu papel no futuro dessas crianças. E que os pais possam se sentir capazes de questionar, de trabalhar, de cobrar posturas publicas que garantam o melhor futuro possível, integral e harmônico para seus filhos surdos.

Vencer Limites – Como foi a infância de sua filha?

Teresa Leite – Foi uma infância quase normal. O quase se deve ao fato de que desde os 5 meses (ela teve meningite meningocoica aos 4 meses) ela ter de usar aparelhos auditivos, ter uma rotina, primeiro de estimulação motora e estimulação auditiva precoce e, mais tarde, até os 16 anos, ter sessões de fonoaudiologia duas a três vezes por semana. Em casa, com os irmãos, a vida seguia como em qualquer família. Todos estavam envolvidos em estimulá-la auditiva e visualmente, sem paranoias ou obrigações, de forma lúdica e prazerosa. Acho que algo muito importante aqui foi a forma como a família encarou a surdez. Essa forma era ‘Thalita é normal, com uma deficiência auditiva, precisa de aparelhos auditivos’. Era assim que explicávamos para nossos filhos – tenho mais dois -, para os coleguinhas deles e dela, para os familiares, vizinhos e amigos. Quando percebíamos curiosidade com os aparelhos, fazíamos questão de mostrá-los. E, assim, ela cresceu com seu aparelho como eu com meus óculos. Quais dificuldades surgiram? Onde essas eram mais frequentes? As dificuldades reais surgiram onde menos esperávamos, com a escola e os educadores, com os surdos e pais de surdos. A primeira escola de ouvintes que procurei recusou-se a recebê-la. Sorte que, na segunda tentativa, o sucesso foi completo. Ela estudou em escola regular. A parceria da direção da escola, da fono e minha constante atenção, puderam levar ao sucesso. Os professores eram orientados pela fono a cada início de ano letivo, sobre como se comportar, com atenção aos pequenos detalhes. Os surdos, os profissionais que trabalhavam com surdez e muitos pais não entendiam porque eu queria que minha filha estudasse em escola regular, falasse, se comunicasse com um mundo que é ouvinte. Fiquei só nessa travessia insegura. Chegaram ao ponto de dizer que o lugar da Thalita era na escola de surdos e que eu queria ser diferente. O que me entristecia e, me entristece, é que muitos que usam Libras e não conseguem oralizar nada, escrever e ler de forma adequada, tem grau de surdez menor do que minha filha. Ou seja, a escola não esta preparada para a inclusão, os caminhos não estão postos para todas as crianças e os surdos se fecham em comunidades, dificultando cada vez mais a troca de experiências e a possibilidade real de integração.

Vencer Limites – Qual a sua avaliação sobre a situação das pessoas com deficiência no Brasil.

Teresa Leite – Me arrisco a discutir um pouco a situação da surdez. Deficiência muito frequente, acarreta dificuldade imensa na trajetória do indivíduo, porque uma questão central das relações, que é a comunicação, fica imensamente prejudicada. A história da surdez é marcada por muitos caminhos difíceis e muito sofrimento, mas nos últimos anos vem sendo cada vez mais discutida. E essa discussão deve ser cada vez mais profunda e séria. Qual futuro preparamos para adultos com dificuldade extrema de comunicação? O que mais podemos oferecer a essas crianças? Muito já avançamos. O Teste da Orelhinha, obrigatório no recém-nascido, para diagnóstico precoce de surdez. Mas diagnosticada a surdez, estão os profissionais preparados para orientar o melhor caminho para cada um desses pequenos indivíduos? O poder público oferece a eles mecanismos auxiliares fundamentais, próteses auditivas, estimulação precoce, acompanhamento e orientação familiar? As escolas regulares, ou especializadas, estão preparadas e disponíveis para educá-los? As inúmeras leis que regulam a educação especial são obedecidas? A Libras, como primeira língua, ainda não conseguiu atingir a todos, portanto, ns ouvintes continuamos sem comunicação objetiva com esses indivíduos. Libras não veio acompanhada da real instrução da língua portuguesa escrita. E temos grandes problemas na evolução educacional desses jovens. A chegada à universidade tem sido mais frequente, mas as dificuldades em permanecer e concluir o ensino superior são grandes. Os professores do ensino superior não estão preparados para essa nova classe de alunos, os intérpretes não solucionam os problemas da comunicação entre professor e alunos. Os sinais de Libras não explicam conceitos das ciências. Portanto, desde o diagnóstico até a saída da vida escolar, sem falar nas dificuldades mais elementares – acordar pela manhã sem que ninguém precise acordá-los. Ainda a muito a caminhar e essa discussão tem de ser compartilhada, provocada e intensa, para que as barreiras possam cair, e a comunicação possa fluir de forma transparente.

SERVIÇO: ‘Quem Decide? Os Caminhos e Escolhas na Vida de Uma Criança Surda’
Autoras: Teresa Leite e Thalita Leite

Lançamento: 7 de Março de 2015
Horário: 18h
Local: Rua Luís Miguel Elias, nº272, Parque das Palmeiras, Angra dos Reis/RJ

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