Clodoaldo

Clodoaldo

Deficiência não é prisão, sentença de inutilidade ou motivo de piedade. É uma característica. As situações do cotidiano são enfrentadas, algumas vezes de forma não convencional, e vencidas conforme se apresentam. E não é exclusividade de pessoas com deficiência o esforço para ultrapassar os obstáculos do dia a dia.

Luiz Alexandre Souza Ventura

30 de julho de 2014 | 08h00

Curta Facebook.com/VencerLimites
Siga @LexVentura
Mande mensagem para blogvencerlimites@gmail.com
O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Foto: Divulgação

“A Copa do Mundo, as Olimpíadas e as Paraolimpíadas precisam deixar um legado cultural e educacional. É o que faz toda a diferença”, diz Clodoaldo Silva, nadador brasileiro que tem no currículo sete medalhas olímpicas e muitas outras conquistadas em mais de 16 anos de carreira. Ele nasceu em Natal/RN e, por falta de oxigenação durante o parto, foi diagnosticado com paralisia cerebral. Aos sete anos, foi submetido à primeira operação nas pernas, que estavam cruzadas e dobradas. Dois anos depois veio a segunda, no joelho esquerdo e, quando já havia completado 16 anos, foi a vez do joelho direito.

A sequência de intervenções cirurgicas atrapalhou um pouco o desempenho de Clodoaldo na escola, mas jamais impediu que ele tivesse uma infância igual à de qualquer outra pessoa da região onde m0rava, na capital do Rio Grande do Norte. “Desde pequeno, eu entrava nas partidas de futebol com os meninos do bairro. Ganhei minha primeira medalha em um torneio interclasses,  jogando como goleiro. Eu participava das aulas de educação física, mas tive que insistir, porque os professores não entendiam que eu tinha a capacidade. Meus colegas de escola também me ajudaram a convercer o treinador”.

Foto: Divulgação

A natação entrou na vida de Clodoaldo por recomendação médica, para ajudar na recuperação, após a última cirurgia. Na época, ele conheceu o trabalho de Gledson Soares. “Os atletas de competição usavam, à tarde, a mesma piscina na qual eu treinava no período da manhã. No meu horário não havia muitos ‘olheiros’ e eu sabia que precisava mostrar minha força para poder ser escalado. Fiquei nessa situação por dois anos. Até que surgiu a possibilidade de fazer um curso de datilografia, mas que teria de ser frequentado também de manhã. Por isso, fui pedir à coordenação para passar a nadar no período da tarde, assim eu não perderia nenhuma atividade. E eles aceitaram”. Em 1997, Clodoaldo entrou para a equipe, quando ainda trabalhava em uma oficina de órteses e próteses (ele já havia feito trabalhos como artesão na Praia do Meio, onde montava cadeiras de balanço). Em 1998, participou da primeira competição – os Jogos Paradesportivos, torneio chamado hoje de Campeonato Brasileiro.

“A situação da pessoa com deficiência, no Brasil, hoje, está melhor. Há leis sobre acessibilidade que são respeitadas. Agora, quando você faz a comparação com outros países, estamos muito longe do ideal, principalmente por causa da falta de educação, problema que surge no uso incorreto das vagas reservadas, e nas dificuldades que enfrentamos para ir ao teatro, ao shopping ou qualquer outro local público. A Copa do Mundo teve um grande investimento na questão da acessibilidade, mas isso ficou concentado na modernização do estádios. A mobilidade urbana ainda está muito ruim. Constantemente, preciso pedir ajuda para subir uma rampa construída com a inclinação errada, ou para atravessar uma rua, que tem o acesso em uma calçada, mas não tem do outro lado”. Para Clodoaldo, o ponto fundamental é o País entender que a pessoa com deficiência é um cidadão, uma pessoa produtiva, e não um “coitadinho”, que precisa permamentemente de socorro. “É isso que já ocorre no exterior”, diz.

Foto: Divulgação

Em 2012, ele machucou o ombro durante um treino de musculação, preparatório para os Jogos Paralímpicos, mas insistiu em nadar, mesmo sem chance de medalhas. Participou das provas de 50m e 100m, mas não chegou ao pódio. “Perdi a medalha para a lesão”. Em 2014, Clodoaldo foi convocado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) para a disputar, com os melhores nadadores paralímpicos do mundo, o Pan Pacific Swimming Championships, em agosto, na Califórnia (EUA). “Voltei a nadar há um mês e meio. Este ano vai ser de base. Vou tentar recuperar o tempo perdido em 2013. Em 2015, na Copa do Mundo de Natação, na Escócia, e no Pan-Americano, no Canadá, quero estar na minha melhor forma, com foco no ouro nos 50 metros livre, no pódio dos 100m e 200m”. Antes da viagem para os EUA, ele participa da primeira etapa nacional do Circuito Paralímpico, entre 1º a 3 de agosto, em São Paulo.

Desde 2001, Clodoaldo Silva vive exclusivamente para o esporte e ganha dinheiro com isso. Parte da renda é obtida com base na Lei Agnelo Piva e o restante vem do trabalho como palestrante, da participação em campanhas publicitárias e de patrocínios. Ele pretende encerrar a carreira de nadador após o Jogos Paralímpicos de 2016 e já colocou em prática o planejamento que fez para atingir essa meta. “Quero fazer faculdade de jornalismo, para falar sobre sobre o esporte paralímpico e também sobre pessoas com deficiência”. A vocação para a profissão ele já exercita no programa ‘Momento Furnas – Esportes Especiais’ que apresenta nas rádios Band News FM e Bradesco FM, e também na afiliada local da Band no Rio de Janeiro. “As pessoas te enxergam como você se apresenta. Se você se mostra com preconceito, é assim que será visto”.

Tudo o que sabemos sobre:

Esporte Paralímpico

Tendências: