“Como vencer o medo de encostar nos cegos após a pandemia?”

“Como vencer o medo de encostar nos cegos após a pandemia?”

Jaqueline Ourives, professora de Belo Horizonte, enviou email ao #blogVencerLimites para compartilhar sua preocupação. Cega desde criança, ela diz estar "extremamente amedrontada" com o aumento do preconceito contra pessoas com deficiência visual, que precisam tocar nos outros, e pergunta "como resolver esse impasse?". Respondem à professora representantes da Fundação Dorina Nowill para Cegos, das secretarias municipal e estadual da Pessoa com Deficiência de São Paulo, da associação Laramara, além do deputado federal Felipe Rigoni e do filósofo Mário Sérgio Cortella.

Luiz Alexandre Souza Ventura

15 de maio de 2020 | 12h47

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Jaqueline Ourives com um pequeno cachorro branco no colo. A professora é cega, tem cabelos castanhos, longos e lisos, pele clara, veste camisa preta de mangas compridas, com estampa cinza. Ela está sentada em um sofá marrom. Ao fundo, uma parede branca. Crédito: Arquivo Pessoal.


“Me sinto extremamente amedrontada. Sou cega e me locomovo quase o tempo todo sozinha, mas preciso de ajuda, tocar nos outros, para atravessar as ruas. Tenho muito medo do preconceito pelo temor justificado das pessoas de contrair o coronavírus. Como conscientizar que essa ajuda precisa continuar existindo? Como resolver esse impasse?”.

Jaqueline Ourives, professora da rede municipal de Belo Horizonte há 15 anos, cega desde criança, compartilhou sua preocupação com o #blogVencerLimites em um email enviado nesta semana.

Ela mora em Contagem, na Grande BH. No período da manhã, trabalha na Secretaria Municipal de Educação e, à tarde, dá aulas de alfabetização para crianças na rede pública da cidade. Usa ônibus e metrô diariamente. São oito conduções, contando ida e volta. Desde 18 de março, está em casa, por determinação da Prefeitura, e aguarda as novas resoluções para saber quando a vida habitual será retomada.

“No meu bairro, eu atravesso as ruas sozinha, porque são pequenas e tranquilas, mas no trajeto ao trabalho há muitas avenidas e, mesmo com os alertas sonoros, prefiro a segurança de uma pessoa me acompanhando”, diz Jaqueline.

Como as medidas de prevenção à contaminação pelo coronavírus estão centralizadas no toque, no uso e na higiene das mãos, o relato da professora reflete uma inquietação das pessoas com deficiência visual por todo o mundo. E a solução para esse problema depende de informação e empatia. Durante a pandemia da covid-19, não encostar nos outros se tornou essencial, o que já está causando uma grande mudança no comportamento habitual da população com e sem deficiência, mas médicos, profissionais da saúde e especialistas afirmam que essa situação tem prazo para acabar.

É justamente sobre o momento pós-pandemia que as expectativas de Jaqueline são ruins. “Como vamos vencer o medo de encostar nas pessoas cegas?”, pergunta a professora.

O #blogVencerLimites pediu essa resposta a pessoas e instituições de diversos setores.


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“O toque representa segurança para muitas pessoas com deficiência visual, principalmente para quem se tornou cego há pouco tempo. Eu consigo acompanhar alguém sem encostar, mas isso não é possível para todos. Neste momento, o uso dos equipamentos de proteção, como máscara e luva, podem ajudar a quebrar esse medo. Ainda não senti esse preconceito na região onde moro, no centro de São Paulo, mas eu pergunto antes se posso tocar no ombro da pessoa”, diz Sidney Tobias de Souza, de 54 anos, cego desde a adolescência, consultor de acessibilidade digital e comunicação inclusiva da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SMPED), analista de sistemas da Prodam – Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo.

“A questão levantada pela professora Jaqueline é muito importante. A pessoa cega precisa encostar nos outros, até dentro de casa. Fora de casa, mesmo os cegos mais independentes precisam de ajuda em vários momentos do dia a dia, como atravessar a rua, no interior de uma loja, e você tem que tocar nas pessoas e nas coisas. O mais importante é conscientizar as pessoas de que isso não pode deixar de acontecer, mas é fundamental manter os cuidados de higiene, como está acontecendo. Vamos precisar, inclusive, de campanhas publicitárias com essa mensagem de não deixas as pessoas cegas desamparadas”, afirma o deputado federal, cego, Felipe Rigoni (PBS/ES).

“Há tantas faces e interfaces nestes tempos inéditos que temos de prestar atenção aos reclamos e situações que, desabituados a alguns modos de ser no mundo, acabamos por nos distrair deles. É por isso que cada território que ajuda a cuidar da vida, no campo público ou privado, precisa tornar disponíveis canais de recepção das circunstâncias particulares, e de propositura de encaminhamentos para que as particularidades não se tornem agravamento de exclusão”, ressalta o filósofo e professor Mário Sérgio Cortella.

“A travessia de rua sempre foi um momento crítico e de atenção no trabalho de autonomia da pessoa com deficiência visual. Diante desse cenário de pandemia, com uma série de recomendações, é preciso seguir essas orientações para evitar o contágio. O que pode ser feito é guiar a pessoa com deficiência visual pela voz, mantendo distância, com o controle dessa movimentação executado pela pessoa cega. Agora, no caso de a pessoa cega realmente precisar encostar nesse guia para se sentir segura, é importante fazer esse pedido a quem ofereceu ajuda, mas ambos precisam fazer a higienização após a travessia, nas mãos, na parte do braço que foi tocada e na roupa. Dessa forma, conseguimos manter a solidariedade”, recomenda Nelma Meo, professora de orientação e mobilidade da Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual.



“A primeira dica é tentar minimizar seus sentimentos de medo e pensar em estratégias psicológicas para se fortalecer e continuar enfrentando suas dificuldades. Compreendemos que esse contexto da pandemia está desencadeando muitos sintomas negativos nas pessoas, porém, precisamos enfatizar e potencializar o que está acontecendo de bom, mesmo sendo muito difícil pensarmos no que podemos tirar de bom de uma situação tão triste e assustadora”, sugere Clarissa de Freitas Pires, psicóloga da Fundação Dorina Nowill para Cegos.

“Podemos pensar em utilizar nosso tempo para fazer atividades que fazíamos antes e que, devido à falta de tempo, não conseguimos colocar em prática, como artesanatos, costuras, cultivar plantas, ouvir um bom livro falado, assistir filmes ou outra tarefa que desperte seu interesse. Potencialize suas energias no que te promove bem estar e alegria. Sobre sentimento de medo, quem não tem? O importante é não permitirmos que o medo nos paralise e sim que nos deixe atentas aos perigos, mas prontas a continuar enfrentando nossos desafios”, enfatiza Clarissa.

“Como sugestão ao ser questionada se precisa de ajuda, oriente a pessoa a dar os ombros para você, até porque é uma maneira mais distante do corpo da pessoa e coloca tanto você quanto o guia em menos risco. Infelizmente, no contexto atual, muitos indivíduos estão com medo de oferecer ajuda para as pessoas com deficiência visual. Porém, conscientize as pessoas próximas do seu convívio que compartilhem informações que, nesse momento, a pessoa com deficiência visual pode segurar no ombro do guia, sem correr o risco para ambas”, diz a especialista.

“Quando oferecerem ajuda para você, transmita calma e tranquilidade para o guia e não esqueça de pedir para que ele compartilhe essas informações com outras pessoas. Caso perceber que seus sintomas de medo e angustia se acentuaram, não deixe de buscar ajuda psicológica que, nesse momento, pode contribuir muito a minimizar seus sentimentos negativos”, completa a psicóloga da Fundação Dorina.



“A convivência entre pessoas com deficiência visual abre sempre um debate sobre apoio e ajuda para esse seguimento. Não hesite, não deixe de pedir e aceitar ajuda quando precisar, pois isso deixará claro para as pessoas que você tem essa necessidade”, respondem à professora Jaqueline Ourives, em conjunto, Fernanda Simidamore, psicóloga e assessora técnica da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo (SEDPcD), e Mizael Conrado, cego, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

“Sempre use os itens de segurança e reforce os hábitos de higiene para mostrar que as pessoas com deficiência também estão preocupadas com sua saúde e a de terceiros. Ao ser guiada, lembre-se que quem segura no braço do guia é a pessoa com deficiência visual e não o contrário. Essa prática incentiva as pessoas a ajudar, pois percebem que não precisarão tocar em você para isso”, esclarecem.

“É importante dizer que antebraço e cotovelo são pontos críticos que as pessoas costumam levar à boca e nariz quando tossem ou espirram, portanto, lembre-se que tocar ou segurar no ombro de seu guia é uma excelente opção. Sempre que possível, esclareça para as pessoas que a característica exclusiva da deficiência não torna alguém mais ou menos vulnerável a doenças”, finalizam os dois orientadores.



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