Covid é dez vezes mais mortal em pessoas com síndrome de Down

Covid é dez vezes mais mortal em pessoas com síndrome de Down

Estudo da Universidade de Oxford destaca que vulnerabilidade está relacionada a diferenças imunológicas e genes a mais. Comitê de Vacinação do Reino Unido recomenda prioridade na imunização. Brasil não tem plano específico de vacinação para pessoas com deficiência.

Luiz Alexandre Souza Ventura

17 de dezembro de 2020 | 16h22

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Foto de uma pessoa intubada e deitada em leito hospitalar. À frente, um profissional de saúde manuseia equipamentos. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de uma pessoa intubada e deitada em leito hospitalar. À frente, um profissional de saúde manuseia equipamentos. Crédito: Reprodução.


A covid-19, doença causada pelo coronavírus, é dez vezes mais mortal em pessoas com síndrome de Down, segundo um estudo publicado em outubro pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, divulgado nesta terça-feira, 15, em reportagem da revista Science.

De acordo com os pesquisadores, a vulnerabilidade pode estar ligada a anormalidades imunológicas, combinadas com cópias extras de genes-chave. Pessoas com síndrome de Down têm três cópias do cromossomo 21, ao invés das duas habituais.

“Essa população precisa de políticas de proteção”, afirmou à revista Julia Hippisley-Cox, epidemiologista da faculdade de medicina de Oxford e autora do estudo.

No começo de dezembro, o Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização do Reino Unido – United Kingdom’s Joint Committee on Vaccination and Immunisation (JCVI) – recomendou prioridade às pessoas com síndrome de Down na vacinação.

No Brasil, os planos de imunização do governo federal e do governo de SP não têm estratégia ou ação específica para pessoas com deficiência.

Leia abaixo a tradução da reportagem completa, assinada por Meredith Wadman, jornalista que escreve para a Science sobre a pandemia de covid-19, com apoio do Pulitzer Center e da Heising-Simons Foundation.


Foto de Amanda Ross, mulher de 36 anos que tem síndrome de Down, no dia em que recebeu alta do hospital. Ela está sorrindo e olhando para a câmera. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Amanda Ross, mulher de 36 anos que tem síndrome de Down, no dia em que recebeu alta do hospital. Ela está sorrindo e olhando para a câmera. Crédito: Reprodução.


Quando a pandemia de covid-19 chegou, no último inverno, Catherine Ross estava apavorada. Sua irmã de 36 anos, Amanda Ross, tem síndrome de Down, o que a torna especialmente vulnerável a viroses respiratórias. Amanda Ross já foi hospitalizada muitas vezes, com pneumonia. Em 2017, ela precisou de ventilação mecânica e quase morreu.

Em abril, voltou ao respirador. Ela mora em uma casa coletiva na cidade de Somers (NY) e foi diagnosticada com covid no dia 31 de marco. O médico disse à família que, considerando seu histórico, deveria se preparar para o pior. “Aquilo no abalou”, conta Catherine Ross. Sua irmã e outras pessoas com síndrome de Down, também chamada de trissomia 21, “estão lidando com um jogo injusto no que diz respeito a lidar com o vírus”, disse Catherine.

Entre os grupos com alto risco de morte por covid-19, assim como pessoas diabéticas, quem tem síndrome de Down se destaca. Se forem infectadas, têm cinco vezes mais propensão a serem hospitalizadas e dez vezes mais de morrer do que a população em geral, segundo um estudo no Reino Unido publicado em outubro. Outros estudos recentes comprovam o alto risco.

Pesquisadores acreditam que o histórico de anormalidades imunológicas, combinado com cópias extra de genes-chave nas pessoas com síndrome de Down, que têm três cópias do cromossomo 21 ao invés das habituais duas, as torna mais vulneráveis a quadros severos de covid-19.

“É uma população vulnerável e pode necessitar que políticas protetivas sejam acionadas”, diz Julia Hippisley-Cox, epidemiologista clínica na faculdade de medicina da Universidade de Oxford que liderou o estudo no Reino Unido.

No último dia 2 de dezembro, o Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização do Reino Unido recomendou prioridade na vacinação de pessoas com síndrome de Down. No entanto, mais de 200 mil americanos com síndrome de Down não estão, até agora, relacionados para a imunização precoce. E os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) incluíram a síndrome de Down na lista de condições que aumentam o risco de contraír covid-19 grave.

Julia Hippisley-Cox e seus colegas analisaram uma base de dados com 8.26 milhões de pessoas no Reino Unido para o estudo, que publicado no Annals of Internal Medicine. O enorme risco que eles constataram se confirmar mesmo após a correção de outros fatores, incluindo obesidade, doença do coração, diabetes e morar em uma casa coletiva. Em recente atualização que inclui resultados de uma grande pesquisa internacional, o grupo descobriu que pessoas com síndrome de Down hospitalizadas com covid-19, de 40 anos ou mais, têm o risco aumentado, com uma taxa de mortalidade de 51% contra 7% para está abaixo dos 40 anos.

“Por volta dos 40 anos, a coisas começam a ficar realmente ruins, com mortalidade comparável à população geral aos 80 anos”, afirmou Anke Huels, bioestatístico da Rollins School of Public Health, da Emory University.

Especialistas dizem que a anatomia típica de pessoas com trissomia 21 – inclusive línguas grandes, mandíbulas pequenas e amígdalas e adenóides relativamente grandes, juntamente com tônus ​​muscular frouxo na garganta – ajuda a explicar sua alta incidência de infecções respiratórias.

A genética também pode fazer pessoas com síndrome de Down particularmente suscetíveis ao SARS-CoV-2, o coronavírus, porque elas têm três cópias do gene ou cromossomo 21, TMPRSS2, o qual codifica uma enzima que o vírus sequestra para ajudá-lo a entrar nas células humanas.

A enzima TMPRSS2 corta a proteína spike que atravessa a superfície do vírus, lançando uma série de etapas que permitem ao vírus invadir a célula hospedeira. Tipicamente, células de pessoas com síndrome de Down emitem 1.6 mais vezes a TMPRSS2 do que aquelas de indivíduos que não têm a condição, explicou Mara Dierssen, bióloga do Centro de Regulação Genômica de Barcelona, na Espanha. “Quem tem síndrome de Down pode ser mais suscetível à infecção pela triplicação do TMPRSS2”, declarou a cientista.

Anormalidades do sistema imunológico também costumam adicionar riscos, dizem especialistas. Nas pessoas com síndrome de Down, as células T não se desenvolvem corretamente e os níveis de circulação de células B são baixos. Níveis de uma proteína chave previnem que celulas de imunidade de uma pessoa ataquem seu próprio corpo.

Em contraste, os níveis de proteínas sinalizadoras potentes e indutoras de inflamação são altos, contribuindo para um estado de inflamação crônica mesmo na ausência de infecção.

“As células de pessoas com síndrome de Down estão constantemente lutando contra uma infecção viral que não existe”, diz Joaquin Espinosa, genomicista do Instituto Linda Crnic para Síndrome de Down da Universidade do Colorado (EUA). Isso é reflexo de um sistema imunológico acelerado, que pode levar pessoas com trissomia do cromossomo 21 a um estado hiperinflamatório, que caracteriza a a condição severa e fatal da covid-19, sugere o especialista.

Seu grupo mostrou em 2016 que a resposta do interferon (proteína produzida pelos leucócitos e fibroblastos para interferir na replicação de fungos, vírus, bactérias e células de tumores e estimular a atividade de defesa de outras células), uma primeira linha de defesa contra vírus, é constantemente ativada em pessoas com síndrome de Down. Quatro genes para receptores de interferon cruciais estão localizados no cromossomo 21, provavelmente levando a uma “overdose” de receptores e, portanto, de atividade do interferon, diz Espinosa, observando que há uma abundância de interferon disponível para se ligar a esses receptores.

Em agosto, uma equipe liderada pelo geneticista Jean-Laurent Casanova, da Universidade Rockefeller, reforçou essa hipótese com um artigo mostrando que certos glóbulos brancos de pacientes com síndrome de Down exibem receptores extras de interferon em suas superfícies.

Uma resposta potente do interferon pode ser útil no início do curso da infecção por covid-19, mas a atividade elevada do interferon observada em pessoas com síndrome de Down não é necessariamente protetora. A estimulação crônica pode fazer com que os receptores de interferon não respondam a ainda mais estimulação, diz Louise Malle, médico que defende tese na Escola de Medicina Icahn, no Monte Sinai. Ela foi a autora principal de outro estudo recente em hospitais da cidade de Nova York que descobriu que os pacientes com síndrome de Down eram em média 10 anos mais jovens e tinham covid-19 significativamente mais grave do que os outros da mesma idade sem a condição genética.

A hiperatividade do interferon pode alimentar a tempestade imunológica que pode tornar a covid-19 fatal uma semana ou mais após o aparecimento dos sintomas, acrescenta Andre Strydom, especialista em neurobiologia da síndrome de Down no King’s College London.

O cenário é complicado e não totalmente compreendidao, diz Strydom. “O que está claro é que as diferenças imunológicas em pessoas com síndrome de Down provavelmente as colocam em desvantagem no combate à infecção por covid-19. E pelas consequências”.

Especialistas em saúde pública de alguns países concordam. Poucos dias após a publicação dos anais, os diretores médicos do Reino Unido adicionaram pessoas com síndrome de Down a uma lista de pessoas “clinicamente extremamente vulneráveis”, que deveriam ser protegidas da exposição.

A International Trisomy 21 Research Society desde então, emitiu uma declaração incisiva pedindo que as pessoas com síndrome de Down, especialmente aquelas com 40 anos ou mais, sejam priorizadas para vacinação precoce. Nos Estados Unidos, entretanto, um painel aconselhando o CDC sobre a priorização de vacinas ainda não definiu os grupos medicamente vulneráveis ​​que podem ser incluídos em uma segunda onda de vacinações.

Apesar dos novos estudos, um porta-voz do CDC disse que “no momento, não há evidências suficientes para determinar se os adultos com síndrome de Down têm risco aumentado de doença grave por covis-19”.

A agência acrescentou que a lista das pessoas em risco de covid-19 grave “pode não incluir todas as condições” e observou que o CDC pode atualizar sua lista conforme a ciência evolui.

Como o prognóstico para pacientes mais velhos de covis-19 com síndrome de Down pode ser tão ruim, eles devem ter alta prioridade para tratamentos com anticorpos monoclonais, que são escassos, diz Beau Ances, neurologista da Washington University em St. Louis que cuida de pacientes com a condição. “Um homem de 40 anos com síndrome de Down que desenvolve covid-19, esse é o tipo de indivíduo em que os médicos deveriam pensar para o tratamento precoce com anticorpos”, diz.

Médicos também devem considerar um medicamento chamado baricitinib, diz Joaquin Espinosa, porque bloqueia uma via de sinalização essencial para a resposta do interferon. Em um estudo descrito no mês passado na Cell Reports, seu grupo mostrou que previne a hipersensibilidade imunológica letal em camundongos com trissomia do cromossomo 21.

Isso sugere que o baricitinib pode ajudar a domar uma resposta imune fora de controle em pacientes com síndrome de Down que contraíram covid-19, diz Espinosa. A Food and Drug Administration (FDA) autorizou no mês passado o baricitinib, em combinação com o remdesivir, para uso de emergência em pacientes com covid-19 internados em estado grave.

Amanda Ross conseguiu sobreviver à infecção. Após seis dias, ela saiu do respirador e, seis dias depois, teve alta. Já está de volta em seu lar coletivo. “Eu nem consigo dizer o quão gratos estamos por ainda tê-la”, disse Catherine Ross, mas ela ainda se preocupa com sua irmã e outras pessoas com síndrome de Down no lar do grupo. Para todos eles, diz ela, o aumento da gravidade da covid-19 “é mais uma razão pela qual eles precisam ser considerados para vacinação logo após os trabalhadores da linha de frente”.


REPORTAGEM COMPLETA EM LIBRAS (EM GRAVAÇÃO)
Vídeo produzido pela Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais.


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