Crianças com deficiências severas permanecem em hospital sob forte bombardeio na Ucrânia

Crianças com deficiências severas permanecem em hospital sob forte bombardeio na Ucrânia

Pacientes têm condições neurológicas que exigem cuidados específicos e constantes. Não há estrutura ou veículos acessíveis para fazer o resgate. Muitas pessoas com deficiência ainda estão na região de Kharkiv.

Luiz Alexandre Souza Ventura

07 de março de 2022 | 11h22

Foto de crianças com deficiência com andador com a mão na porta de vidro do Hospital Neurológico Infantil nº 5 de Kharkiv, na Ucrânia.

“Somente crianças com condições mais graves estão aqui”, diz a médica chefe do Hospital Neurológico Infantil nº 5 de Kharkiv, na Ucrânia. Foto: Reprodução (Dytyacha nevrolohichna likarnya 5 Kharkiv).


Um grupo de aproximadamente 25 crianças com deficiências de causas neurológicas e sequelas severas ainda não foi retirado do Hospital Neurológico Infantil nº 5 de Kharkiv, na Ucrânia. A região é alvo de constantes bombardeios da Rússia.

“Somente crianças com condições mais graves estão aqui. Não temos pessoal suficiente para cobrir dois prédios, então todos nos mudamos para a mesma ala. Um dos chefes e eu trabalhamos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Nosso prédio ainda não foi atingido, até agora”, disse à Human Rights Watch a médica chefe do hospital, Vladlena Salnykova.

Segundo Salnykova, antes dos bombardeios, havia 190 residentes no local, desde bebês até adolescentes com menos de 18 anos. Com os ataques das tropas russas, um grande grupo foi retirado e o restante foi transferido para um porão. “Paramos de contar dias e noites. Tudo tem sido um borrão”, conta a médica.

Kharkiv é o segundo maior município da Ucrânia e está sob intenso bombardeio pelas forças russas, que causaram grandes danos nas áreas residenciais. A maior parte da população de 1,8 milhão de pessoas conseguiu fugir, mas estima-se que 500 mil permaneçam na cidade.

“Ainda temos 16 crianças com paralisia cerebral grave, que não conseguem andar, e sete com outras condições neurológicas. Temos também uma mãe com um bebê pequeno. A última operação de retirada, para Lviv, foi em um ônibus sem equipamentos para transportar crianças com graves condições de saúde. Precisamos salvá-los, mas como?”, questiona Salnykova.

Suprimentos – Em 1º de março, um projétil danificou o V. Korolenko Kharkiv Special School, um internato para crianças cegas em outro bairro de Kharkiv. Esse episódio foi relatado com exclusividade ao blog Vencer Limites por Larysa Bayda, integrante da Assembleia Nacional das Pessoas com Deficiência da Ucrânia (Національна Асамблея людей з інвалідністю України – HAIY).

A diretora do Right to Choose, Valentina Butenko, destacou o ataque ocorreu enquanto as crianças estavam almoçando no porão do prédio de três andares. O edifício resistiu à explosão, mas o choque sacudiu o local e estourou todas as janelas.

“Estilhaços de vidro voaram por toda parte, crianças caíram no chão, ficaram aterrorizadas. Uma menina ficou ferida e o diretor da escola sofreu um ferimento na cabeça por causa de um caco de vidro. Todas as crianças dessa escola já foram removidas”, ressalta Butenko.

Outras pessoas com deficiência dentro e ao redor de Kharkiv não conseguiram sair. Muitas vivem na periferia ou em áreas que sofreram fortes bombardeios e estão sem eletricidade.

“Antes da guerra, 45 voluntários apoiavam cerca de 300 pessoas cegas ou com baixa visão em Kharkiv. Muitos voluntários foram embora e as pessoas em Kharkiv estão sem telefone, o que dificulta o apoio a pessoas com deficiência, inclusive para providenciar resgate”, disse a diretora do Right to Choose.


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