‘De muleta ela não entra’

‘De muleta ela não entra’

Luiz Alexandre Souza Ventura

21 de agosto de 2013 | 18h21

Estudante de 20 anos, que usa muletas após sofrer um acidente, diz ter sido impedida de entrar em agência da Caixa Econômica Federal no litoral sul de São Paulo e promete processar o banco

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

 

A estudante de Relações Públicas Yasmin Marques, de 20 anos, ainda se recupera do acidente de carro que sofreu em novembro de 2012. Com o fêmur direito quebrado em três pontos, carrega na perna uma haste de titânio e dois parafusos. Após um mês na cama e seis usando uma cadeira de rodas, ela conseguiu, em junho, voltar a andar, com o auxílio de muletas.

E justamente por causa dessas muletas Yasmin diz ter sido impedida de entrar em uma agência da Caixa Econômica Federal, em Santos, litoral sul de SP, no último dia 16 de agosto.

Acompanhada pela irmã, a estudante foi ao banco para pedir informações sobre o PIS. Quando tentou passar pela porta giratória, o mecanismo de segurança travou. “Além da haste e dos parafusos, minhas muletas são de alumínio. Eu já sabia que a porta poderia travar”, diz a estudante.

Como não carregava bolsa e qualquer item nos bolsos, Yasmin imaginou que a porta seria liberada porque todos conseguiam ver o que ela usava para se locomover. Segundo a estudante, não foi isso o que aconteceu. “O segurança me ignorou totalmente e, após minha irmã insistir, ele chamou uma funcionária. E essa funcionária disse ‘de muleta ela não entra’. Fiquei sem saber o que fazer. Minha irmã entrou na agência e eu fiquei na área onde estão os caixas eletrônicos. Como não havia cadeiras, fui obrigada a me sentar no chão”. A estudante já consultou advogados e promete processar a Caixa.

Yasmin afirma ainda que, no mesmo dia, após sair da Caixa, esteve em uma agência do Banco do Brasil, em outra do Banco Santander e também em uma unidade da Previdência Social, todas em Santos. “Nesse locais, eu entrei pela porta giratória tranquilamente, com ajuda dos seguranças. Por que a Caixa não fez o mesmo?”.

Resposta – Em nota enviada por e-mail, a Caixa afirma que “está apurando a conduta dos funcionários envolvidos. O banco destaca que uma das principais diretrizes da sua política de atendimento é garantir o acesso de toda a população à sua rede de atendimento e esclarece que o uso da porta giratória tem como função garantir a segurança dos clientes, empregados e patrimônio. E nunca causar obstáculos e constrangimentos”.

Opinião – A explicação da Caixa sobre o uso da porta giratória para garantir a segurança de “clientes, funcionários e patrimônio” pode ser uma justificativa para impedir a entrada da estudante, embora seja um tanto cinematográfico imaginar um assalto arquitetado nesses moldes.

No mínimo duas falhas graves são identificadas nessa situação. Não manter na área anterior à porta giratória cadeiras para quem esteja ali somente para acompanhar um cliente – ou possível cliente – e tenha onde sentar é a primeira delas. No caso da estudante, que ainda carrega haste e parafusos na perna, ficar em pé provoca dor.

A segunda falha ressalta, mais uma vez, que o Brasil, de forma geral, não sabe atender pessoas com deficiência. A simples aquisição de uma cadeira de rodas seria suficiente para solucionar a questão. O cliente que precisa das muletas para se locomover seria acomodado confortavelmente e teria possibilidade de entrar na agência sem contrariar as regras de segurança do estabelecimento.

Devemos lembrar sempre que pessoas com deficiência são, acima de tudo, pessoas. Desta forma, é inaceitável que uma instituição obrigue um cidadão com deficiência (temporária ou permanente) a sentar no chão. E ainda pior é tratar esse cidadão – antes de qualquer análise – como um suspeito, um possível criminoso, como se essa pessoa estivesse carregando uma arma embutida.

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