“Deixem o autista ser autista”

“Deixem o autista ser autista”

"A sociedade nos chama de loucos e passamos a vida tentando provar que temos deficiência", diz Thales Pimenta Neto em depoimento ao #blogVencerLimites. Casado, ele tem dois filhos, um autista, com paralisia cerebral, e outro sem deficiência.

Luiz Alexandre Souza Ventura

12 de abril de 2021 | 14h23

Foto de Thales Pimenta Neto, homem branco, de 35 anos, que tem cabelos curtos e castanhos, olha para a câmera com um semblante sério e veste camisa pólo branca. Crédito: Arquivo pessoal.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Thales Pimenta Neto, homem branco, de 35 anos, que tem cabelos curtos e castanhos, olha para a câmera com um semblante sério e veste camisa pólo branca. Crédito: Arquivo pessoal.


Depoimento de Thales Pimenta Neto*, exclusivo para o #blogVencerLimites.

Sou ansioso, (Transtorno de Ansiedade Generalizada), sou panicoso (Síndrome do Pânico), sou depressivo e tenho Síndrome de Asperger, sou autista de alto funcionamento.

Passei por uma vida de mentiras. Menti porque queria ser normal, aceito e amado, queria parecer essas coisas, queria trabalhar, ter o direito de trabalhar, pagar contas, namorar, casar, ter filhos, transar.

Uma pessoa assumidamente anormal, ou louca, não tem esses direitos na sociedade, porque os loucos, teoricamente, pelo senso comum da sociedade, não são humanos e nem dignos. Nós somos extraterrestres, privados por nós mesmos e pela sociedade de sermos aquilo que realmente somos.

A sociedade nos chama de loucos e nós passamos a vida tentando provar que não somos loucos, que temos uma deficiência, mas o que há de errado em ser louco?

Quanto mais lutamos contra essa palavra, mais enraizada ela fica, porque ganhou um sentido perjorativo e ruim, um sentido de julgamento e rotulação.

Deixem o louco ser louco, deixem o autista ser autista, deixem esse povo trabalhar. Ajudem.

Nós somos culpados por termos necessidades específicas. De acordo com a lei, somos pessoas com deficiência.

Por que um louco não pode ser considerado normal? A loucura é normal. Por temos diagnósticos mais graves, somos pessoas piores?

Eu não quero ser mais amado ou mais aceito, não quero ser nada além do que sou, de fato.

Fica meu pedido. Se você puder, contribua para que a sociedade entenda que nós temos o direito de existir e de sermos o que somos. Louco é uma palavra que não me ofende. 

É normal o ser humano que destrói o único planeta hábitavel que temos hoje para viver?

É normal pensar somente nos próprios interesses quando o vizinho está passando fome?

É normal passar a vida vivendo de aparências, cumprindo formalidades que você não acredita?

O que é ser normal?

*Thales Pimenta Neto, de 35 anos, é técnico em mecânica industrial e graduando em Filosofia pela Uninter. Casado, tem dois filhos, um autista, com paralisia cerebral, e outro sem deficiência.


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