Depois da explosão

Depois da explosão

'O fogo não queima a alma', livro de Fabiana Ferreira, chega à segunda edição. A publicação, totalmente patrocinada por um amigo da escritora, não tem apoio de nenhuma editora e conta como a autora enfrenta, há 16 anos, as consequências do acidente com uma churrasqueira. Uma enfermeira no hospital disse que ela "merecia estar naquela situação". O marido foi embora e a deixou com três filhos pequenos "porque ele não queria uma esposa deformada". Rejeitada pelo mercado de trabalho porque teve metade do corpo queimado, ela criou um projeto para incluir pessoas com deficiência no emprego.

Luiz Alexandre Souza Ventura

03 de março de 2020 | 18h25


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Descrição da imagem #pracegover: Foto dupla de Fabiana Ferreira. No lado esquerdo, ela está segurando com as duas mãos um exemplar do livro ‘O fogo não queima a alma’, escrito por ela. A capa do livro é preta, tem fotos de chamas e letras na cor laranja. Fabiana veste uma blusa branca com estampa verde, tem pele clara com marcas de queimaduras, cabelos pretos lisos e compridos, olhos claros, está sorrindo e olhando para a câmera. No lado direito, registro de Fabiana oito meses após o acidente que provocou queimaduras em 50% do se corpo. Ela está em pé, veste shorts curto e top sobre os seios. Crédito: Arquivo Pessoal.


Fabiana Ferreira tinha 29 anos quando uma churrasqueira explodiu ao lado dela, queimando metade do seu corpo. Perdeu todo o cabelo e passou muito tempo no hospital. Desde o acidente, em 3 de abril de 2004, ela vivencia a exclusão, o preconceito e a discriminação de muitas formas e que chegam de várias direções.

“Só consegui retomar o controle da minha própria vida quando voltei a trabalhar, um ano depois, ainda careca, usando um elegante lenço na cabeça, em meio às diversas cirurgias necessárias para minha reabilitação”, diz.

A história é narrada por Fabiana no livro ‘O fogo não queima a alma’, que chega à segunda edição, 11 anos depois do primeiro lançamento, em agosto de 2008. A nova publicação não tem apoio de nenhuma editora e foi totalmente financiada por um amigo da escritora, o engenheiro Alfredo Ismael Júnior, que bancou a impressão de dois mil exemplares.

Atualmente com 45 anos, casada, Fabiana comanda o projeto ‘Ponto de Apoio’, em Itapevi, na Grande SP, criado em 2019 para lutar pela inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. “Relembrando tudo o que passei, não sei como consegui atravessar tanta coisa e, por isso, eu não desisto da luta pela inclusão”, diz Fabiana.

Logo após o acidente, no leito da UTI do hospital, sem conseguir se mexer, com tubos e agulhas por todo o corpo, sentido uma dor lancinante, ela bebia água por um canudo e disse à uma enfermeira que o líquido estava quente porque havia sido deixado em cima do aquecedor.

“Essa enfermeira me olhou e falou ‘se você está aqui, é porque merece, alguma coisa você fez’. No livro, eu faço uma reflexão sobre isso, relembro minha vida antes do acidente para tentar entender o motivo daquela punição, conto um pouco da minha infância e busco, até onde minha memória conseguiu, qual pecado tão grave eu havia cometido para merecer estar ali”, comenta a autora.


A luta pela inclusão em Itapevi


Recomeço – Outro trecho fundamental do livro relata a volta para casa. “Esse retorno não é fácil porque você encontra uma realidade totalmente diferente daquela que havia antes, que você deixou quando saiu pela última vez. Eu pesava 26 quilos, estava careca, com o corpo totalmente deformado”, relata.

Os três filhos de Fabiana, muito pequenos na época do acidente (uma menina de 5 anos e dois meninos, de 10 e 7 anos), estavam no evento e presenciaram tudo. “Meu marido, de maneira automática, passou a querer ir embora, até que realmente foi”.

Fabiana conta também os detalhes das cirurgias. “Eram 400 ou 500 pontos pelo corpo, o cabelo que começava a nascer tinha de ser raspado para retirar pele da cabeça e usar nos enxertos”, descreve a escritora.

Reportagem – A autora afirma que conseguiu um tratamento a partir de uma reportagem, depois que ligou na redação do veículo e conversou com a jornalista Marici Capitelli.

“O deputado estadual João Caramês viu a reportagem. Ele e o Comitê de Solidariedade pela Vida, de Itapevi, bancaram minha cirurgia no hospital Defeitos da Face, que custou R$ 110 mil. Foi um tratamento humano e respeitoso, mas eu já havia falado com esse hospital, querendo fazer tudo sozinha, e fui atendida pela porta dos fundos. Uma assistente social tentou destruir minhas esperanças, disse que lá ninguém pagava cirurgia para ninguém”.


Descrição da imagem #pracegover: Foto de Fabiana Ferreira oito meses após o acidente que provocou queimaduras em 50% do se corpo. Ela está em pé, veste shorts curto e top sobre os seios. Tem cabelos lisos e pretos, na altura dos ombros. Crédito: Arquivo Pessoal.


Fabiana reforça a mensagem da perseverança e, em vários trechos do livro, relata a abordagem de pessoas que agiram de maneira negativa diante da luta que ela mantinha para se reerguer após o acidente.

“Médicos me tratavam como alguém prestes a morrer, em casa meu marido queria ir embora porque eu estava deformada, a assistente social tentou me fazer desistir, mas eu voltei 15 dias depois, entrei pela porta da frente do hospital com a esposa do deputado para fazer a cirurgias”.

Banho – Há no livro uma descrição dos banhos que Fabiana precisava tomar e sobre como esse banhos, uma atividade tão corriqueira e simples do nosso dia a dia, são uma “tortura de guerra’, como diz Fabiana, para quem sofreu queimaduras graves. Também conta como foi sua vivência no Instituto Pró-Queimados, em São Paulo.

Reconstrução – “Meu primeiro grande êxtase foi conseguir vencer meus próprios preconceitos e, a partir disso, olhar para as pessoas diretamente nos olhos, sem abaixar a cabeça, enfrentando os julgamentos e as brincadeiras que me lançavam”, ressalta a escritora. “O meu segundo grande êxtase foi conseguir voltar ao mercado de trabalho. Trabalhar é importantíssimo para que você se sinta um cidadão, que deixe de apenas existir para realmente viver”, completa Fabiana Ferreira.

O livro ‘O fogo não queima a alma – Uma história de superação’ tem 96 páginas e pode ser comprado diretamente pela página do projeto Ponto de Apoio, nos links fb.me/projeto.deapoio e fb.me/ofogonaoqueimaalma. Custa R$ 30,00 (trinta reais), mais o valor do envio pelos Correios.

Nos próximos dias 6 e 7 de março, sexta-feira e sábado, haverá evento de lançamento, com sessão de autógrafos, das 17h às 20h, no restaurante Subúrbio Comidas Típicas, parceiro do projeto Ponto de Apoio, que fica na Rua Agostinho Ferreira Campos, nº 735, no bairro da Vila Nova Itapevi, em Itapevi.

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