Dignidade para quase todo mundo

Dignidade para quase todo mundo

Discussões sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustenável da ONU mostram que as pessoas com deficiência precisam forçar a entrada até mesmo em espaços chamados de inclusivos.

Luiz Alexandre Souza Ventura

05 de agosto de 2022 | 12h36

Foto de um grupo num dos palcos da Virada ODS de São Paulo. No canto esquerdo da imagem, uma mulher em cadeira de rodas.

Virada ODS de São Paulo relegou à acessibilidade e à população com deficiência um espaço ocupado quase à força. Foto: Reprodução.


Pessoas com deficiência ainda precisam forçar a entrada em todos os espaços, até mesmo em debates e eventos que se apresentam como inclusivos e têm a meta de melhorar o mundo, proteger o planeta e garantir dignidade a todos. Exemplo recente é a Virada ODS de São Paulo, realizada em julho pela Prefeitura, que reuniu personalidades nacionais e internacionais para debater os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.

O tema acessibilidade não está na lista dos 17 ODS da ONU e entrou na pauta da Virada por intermédio da própria população com deficiência da cidade de São Paulo, em mais uma iniciativa para quebrar a redoma de invisibilidade. Uma campanha que começou no Brasil pede a inclusão da ‘Acessibilidade para Todos’ como o 18º objetivo.

Três mulheres com deficiência, todas do grupo Talento Incluir, reforçaram a necessidade da acessibilidade nas discussões, reafirmando que uma cidade acessível para a pessoa com deficiência é acessível para todos.

“A acessibilidade em todas as suas esferas ter de ser o 18º ODS. Não apenas acessibilidade física, mas estrutural, na saúde, na educação, no lazer, nas tecnologias, na comunicação, na mobilidade e no trabalho. Estamos vivendo mais e precisamos olhar para esses dados”, destacou Carolina Ignarra.

“Acessibilidade é um direito, não um privilégio. Sem ela não será possível ter cidades sustentáveis, muito menos proteger as pessoas e o planeta. Mais que um direito, a acessibilidade é uma questão humanitária. É preciso mais humanidade para valorizar nossa existência de forma coletiva”, ressaltou. “Acessibilidade como o 18º ODS lança luz sobre o tema e engaja para a importância, benefícios e urgência de tornar o mundo mais inclusivo”, completou Carolina.

Ciça Cordeiro e Katya Hemelrijk falaram sobre barreiras à empregabilidade das pessoas com deficiência. Dados do Ministério do Trabalho mostram que 46,98% das empresas brasileiras não cumprem as exigências da Lei de Cotas (nº 8.213/1991), legislação que é alvo constante de ataques pelo próprio poder público.

“Como as empresas estabelecem conexões, convivências e aprendizados com as pessoas com deficiência? Precisamos estar atuantes e presentes para reforçar a mensagem de que não há como falar de diversidade e inclusão sem falar sobre acessibilidade”, comentou Ciça. “Muito além da representatividade da pessoa com deficiência, temos de abrir caminhos para compartilhar esse tema com a comunidade”, acrescentou Katya.

Aprendizados – Wolf Kos, presidente do Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural (IOK), também abordou as temáticas da população com deficiência no evento. “Os ODS da ONU foram criados para o ser humano e serão atingíveis se tiverem métricas, para sair do discurso e chegar à prática. Essa primeira Virada foi uma iniciativa importante e trouxe aprendizados”, disse.

Proposta – Acessibilidade como o 18º ODS é defendida no Guia Prático de Acessibilidade e Inclusão Digital, do Legal Grounds Institute. A publicação foi desenvolvida por iniciativa de Cid Torquato, ex-secretário municipal da pessoa com deficiência de São Paulo, em conjunto com a advogada Juliana Abrusio. A criação tem parceria com o escritório Machado Meyer Advogados, tem apoio do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA) e da rede E.S.S.E. Mundo Digital.

O documento tem quatro capítulos com diretrizes para a construção de conteúdos e sistemas que favoreçam a acessibilidade digital, tratando de temas como o histórico e os benefícios da inclusão digital, diretrizes e boas práticas de acessibilidade. Também evidencia a importância do engajamento das organizações (públicas e privadas) e da sociedade para a inclusão digital.



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