“É como se eu fosse a Maya”

“É como se eu fosse a Maya”

Em artigos exclusivos para o #blogVencerLimites, mulheres surdas e negras que se comunicam em Libras avaliam o novo avatar da Hand Talk, empresa de tecnologia para tradução de textos em línguas de sinais. Startup liberou plugin para organizações que trabalham com causas de gênero e raça.

Luiz Alexandre Souza Ventura

08 de outubro de 2020 | 11h30

Use 26 recursos de acessibilidade digital com a solução da EqualWeb clicando no ícone redondo e flutuante, ouça o texto completo com Audima no player acima, acione a tradução em Libras com Hand Talk no botão azul à esquerda ou acompanhe o vídeo no final da matéria produzido pela Helpvox com a interpretação na Língua Brasileira de Sinais.


Foto de Amanda Caboclo, mulher negra de 24 anos. Ela está sorrindo e olhando para a câmera. Veste camisa branca. Tem cabelos enrolados e volumosos. No canto inferior direito da imagem está Maya, avatar da Hand Talk. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Amanda Caboclo, mulher negra de 24 anos. Ela está sorrindo e olhando para a câmera. Veste camisa branca. Tem cabelos enrolados e volumosos. No canto inferior direito da imagem está Maya, avatar da Hand Talk. Crédito: Reprodução.


Maya, uma mulher negra, é o novo avatar da Hand Talk, startup de tecnologia para tradução de textos em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, e também em ASL (American Sign Language), a língua americana de sinais.

“É fruto de uma longa pesquisa e conversas que a gente veio realizando para que o aplicativo ficasse mais diverso. Já que nós trabalhamos tanto com diversidade no quesito da acessibilidade, ela foi pensada com esse propósito e é a representação final de tudo isso”, diz Ronaldo Tenório, diretor da Hand Talk.

Para marcar o lançamento, a startup liberou licenças do plugin para 20 organizações que trabalham com causas de gênero e raça. Na lista estão Plan International Brasil, Instituto Maria da Penha, Projeto Afro, StartUp Women, Diaspora.Black, Programaria, Instituto Glória, EmpregueAfro, Guardei no Armário, Rede Mulher Empreendedora, Janela 8, Afeto de Perto, Mapa do Acolhimento, Mulher em Construção e Think Olga.

Em artigos exclusivos para o #blogVencerLimites, mulheres surdas e negras que se comunicam em Libras avaliam o novo avatar da Hand Talk. O primeiro texto foi escrito por Amanda Caboclo*.

“Meu nome é Amanda, sou surda e sou negra. Meu sinal na comunidade surda é a mão representando meu cabelo Black.

Moro em São Paulo e vou contar um pouquinho da minha vida. Tenho 24 anos, nasci surda e cresci convivendo com a comunidade surda. Estudo Letras-Libras, trabalho com consultora de tradução e interpretação na TV Cultura e na TV Educação, apoio os tradutores e intérpretes de Libras.

Um dos meus maiores desafios é conviver em uma sociedade onde a maioria é ouvinte, temos dificuldades para nos comunicar, é muito difícil viver com essas barreiras.

Os surdos sabem que os ouvintes podem aprender a Língua Brasileira de Sinais, interagir com a toda comunidade surda e facilitar a comunicação, mas sofremos preconceito porque muitas pessoas olham pra nós e acham que, por sermos surdos, não somos capazes. Estou aqui para afirmar que sou capaz. Estudo, trabalho, sou casada. Tenho uma vida, como qualquer pessoa.

Quando preciso ir ao médico ou a uma entrevista de emprego, quando tenho qualquer desejo, encontro barreiras, dificuldades de me comunicar e de ser entendida.

E tem o capacitismo. Alguns se espantam, ‘é preta e surda’. Em empresas onde trabalhei, ouvintes não me olhavam, não se preocupam comigo, como se eu não fosse importante, não se comunicavam comigo, mas eu não desisti.

Certa vez fui a uma consulta médica em um hospital e não precisei da companhia de minha mãe junto. A atendente sabia Libras, teve empatia e eu incentivei a ensinar Libras para os outros funcionários. Ela entendeu e concordou. É isso. Empatia. Se colocar no lugar do outro. Fui outras vezes nesse mesmo hospital e percebi que mais funcionários já estavam aprendendo Libras. Me senti acolhida. 

Na Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos), aprendi a ensinar crianças surdas.

Acredito que as empresas precisam estimular e motivar os surdos, para crescer, e se desenvolver. Tenho orgulho de trabalhar na TV Cultura, já traduzi e interpretei em programações ao vivo, no Roda Viva no Opinião, até desenhos animados. Tenho orgulho de ser mulher, surda e ser negra. Acredito que nosso País vai melhorar, acredito na acessibilidade.

A Maya, lançada recentemente pela Hand Talk, novo avatar, uma mulher negra e surda, me fez sentir representada. É como se eu fosse a Maya.

Quando conheci a Hand Talk, vi que o avatar era homem branco, o Hugo, mas gostei de saber que um aplicativo ajuda as pessoas surdas com tradução do texto para Língua Brasileira de Sinais. Mas quando vi a Maya, fiquei realmente emocionada. Mulheres são maioria na população brasileira. E mulheres negras formam a maior parte desse grupo. Senti uma grande empatia da empresa comigo, tiveram esse olhar, me senti feliz e representada.

Acessibilidade é nosso direito”.

*Amanda da Silva Caboclo, 24 anos, mulher, surda e negra.



Vídeo gravado por Amanda Caboclo, tradutora e intérprete da Língua Brasileira de Sinais.

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