“Ele deveria fazer algo melhor do que carregar uma deficiente”

“Ele deveria fazer algo melhor do que carregar uma deficiente”

Andrea Schwarz mantém uma consistente rotina de debates nas redes sociais sobre as dificuldades e conquistas das pessoas com deficiência. Empreendedora social foi atacada após publicar vídeo com o filho.

Luiz Alexandre Souza Ventura

06 de janeiro de 2021 | 12h30

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Foto da empreendedora social Andrea Schwarz nos braços do filho. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Foto da empreendedora social Andrea Schwarz nos braços do filho. Crédito: Reprodução.


A empreendedora social Andrea Schwarz, de 44 anos, diretora das empresas iigual e EqualWeb, mantém uma consistente rotina de conversas e debates nas redes sociais sobre suas dificuldades e conquistas nos últimos 22 anos, período em que usa uma cadeira de rodas.

É Top Voice no LinkedIn, tem mais de 76 mil seguidores no TikTok e 58 mil no Instagram. Seus posts contribuem para que pessoas com deficiência reflitam sobre suas próprias condições, falam sobre aceitação, renovação, mercado de trabalho, além de preconceito e discriminação.

Recentemente, ela compartilhou um vídeo no qual seu filho, de 14 anos, a carrega nos braços, e foi atacada.

@dea_schwarz

Amor incondicional ❤️ de mãe para filho! Parabéns Gui pelos seus 14 anos 👏🏻😃 #fyp #challenge #foryou #finalsurpresa #foryoupage #viral #tiktok

♬ Love Story – Disco Lines

“Ele deveria fazer algo melhor do que carregar uma deficiente, pelo menos essa cadeirante é bonita”, escreveu um usuário do Instagram. O perfil do autor do comentário foi bloqueado, mas Andrea compartilhou a situação.

“Revolta, indignação, tristeza em receber um comentário como esse ontem no meu insta, quando postei esse vídeo maravilhoso com o meu filho. Infelizmente, não fico surpresa. A pessoa apenas reproduziu algo que muitos ainda pensam. Que a deficiência é um fardo a se carregar. Para quem a possui e para aqueles que convivem com ela. Não à toa me exponho nas redes sociais. Quero (e preciso) mudar essa mentalidade atrasada. Vivo uma vida normal e muito feliz COM a minha deficiência e não APESAR dela, assim como o meu marido Jaques Haber e meus filhos. Para mim é um privilégio poder ser carregada pelo meu marido e pelo meu filho, assim como é para eles poderem me ajudar. O Gui cresceu e aprendeu com o Jaques como me carregar. Está super orgulhoso! Aqui em casa todos se ajudam. A minha deficiência só trouxe amor e união para a minha família, além de um propósito maravilhoso, que é transformar esses conceitos ultrapassados da sociedade. Chega de preconceito! Inclusão é amor!”, escreveu a empreendedora no LinkedIn.

Jaques Haber, marido de Andrea, informou que o casal não pretende tomar medidas judiciais, mas o caso pode ser denunciado às autoridades, com base no artigo 88 da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. “Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência: Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. § 1º Aumenta-se a pena em 1/3 (um terço) se a vítima encontrar-se sob cuidado e responsabilidade do agente. § 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput deste artigo é cometido por intermédio de meios de comunicação social ou de publicação de qualquer natureza: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa”, determina a LBI.

Em São Paulo, a Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência recebe centenas de denúncias, investiga e encaminha à Justiça. No ano passado, dois casos que chegaram à delegacia da pessoa com deficiência, publicados no #blogVencerLimites, ganharam grande repercussão. Em outubro, um motorista da Uber recusou transporte a um cão-guia, prática proibida pela Lei Brasileira de Inclusão e também pelo código de conduta do aplicativo. O usuário do cão-guia denunciou o motorista e o processo já está em fase de conclusão. Em setembro, o humorista Léo Lins ofendeu mães de crianças autistas, as famílias registraram boletim de ocorrência e o caso está em andamento.


“Ser pessoa com deficiência me deu competências para enfrentar os dias difíceis”, escreve Andrea Schwarz em artigo exclusivo para o blog Vencer Limites


A psicóloga americana Pamela Rutledge, diretora do Media Psychology Research Center (Centro de Pesquisas sobre Psicologia e Mídia), na Califórnia, disse em entrevista à BBC que a agressividade de muitos comentaristas de redes sociais é fruto de impotência, frustração e uma necessidade de se impor sobre outras pessoas.

“As redes sociais encorajam pessoas com posições extremas a se sentirem mais confiantes para expressá-las. Pessoas que se sentem impotentes ou frustradas se comportam desta maneira para se apresentarem como se tivessem mais poder. E as pessoas costumam se sentir mais poderosas tentando diminuir ou ofender alguém”, explicou a especialista.

Um estudo da Proceedings of the National Academy of Science (PNAS) mostra que os usuários da internet buscam visões que reforcem suas opiniões, ao invés de aproveitarem a diversidade que as redes sociais oferecem para rever conceitos e preconceitos.


REPORTAGEM COMPLETA EM LIBRAS (EM GRAVAÇÃO)
Vídeo produzido pela Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais.


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