“Emprego Apoiado é um esforço fundamental para a inclusão concreta”

“Emprego Apoiado é um esforço fundamental para a inclusão concreta”

Após denunciar boicote a uma enfermeira com autismo no Hospital do Servidor Público de SP, o blog Vencer Limites convidou autoridades e especialistas que atuam pela inclusão para avaliar o caso em artigos exclusivos. O oitavo texto é assinado por Flávio Gonzalez, da Apae de São Paulo. Em pauta, a importância da estrutura de emprego apoiado para igualdade e equidade no ambiente de trabalho.

Luiz Alexandre Souza Ventura

08 Outubro 2018 | 11h16

IMAGEM 01: Após denunciar boicote a uma enfermeira com autismo no Hospital do Servidor Público de SP, o blog Vencer Limites convidou autoridades e especialistas que atuam pela inclusão para avaliar o caso em artigos exclusivos. O oitavo texto é assinado por Flávio Gonzalez, da Apae de São Paulo. Em pauta, a importância da estrutura de emprego apoiado para igualdade e equidade no ambiente de trabalho. Descrição #pracegover: foto de Flávio Gonzalez, que tem cabelos escuros e curtos, com barba grisalha. Ele está sorrindo e olhando para a câmera. Veste camisa azul. Crédito: Divulgação

IMAGEM 01: Após denunciar boicote a uma enfermeira com autismo no Hospital do Servidor Público de SP, o blog Vencer Limites convidou autoridades e especialistas que atuam pela inclusão para avaliar o caso em artigos exclusivos. O oitavo texto é assinado por Flávio Gonzalez, da Apae de São Paulo. Em pauta, a importância da estrutura de emprego apoiado para igualdade e equidade no ambiente de trabalho. Descrição #pracegover: foto de Flávio Gonzalez, que tem cabelos escuros e curtos, com barba grisalha. Ele está sorrindo e olhando para a câmera. Veste camisa azul. Crédito: Divulgação.


A falta de estrutura de emprego apoiado, para garantir a pessoas com deficiência oportunidades equivalentes de aprendizado no ambiente de trabalho, pode destruir por completo um projeto de inclusão. O que deveria ampliar acessos ao emprego, acaba por reduzir as chances de evolução profissional. Nesse processo, ficam evidentes as práticas de discriminação e exclusão.

Um exemplo dessa dinâmica invertida está escancarado na denúncia da enfermeira Andrea Batista da Silva, que tem autismo e relatou boicote de colegas e superiores no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) de São Paulo. O caso foi publicado com exclusividade pelo blog Vencer Limites. A reportagem levou o Ministério Público do Trabalho em São Paulo (MPT-SP) a abrir uma investigação.

O blog Vencer Limites convidou especialistas e autoridades que atuam pela inclusão para avaliar o caso em artigos exclusivos. O oitavo texto é assinado por Flávio Gonzalez, da Apae de São Paulo.

Leia também os artigos escritos por Cid Torquato, secretário municipal da pessoa com deficiência de São Paulo; Mara Ligia Kiefer, gerente de projetos de inclusão da i.Social; Irma Rossetto Passoni e Jesus Carlos Delgado Garcia, do Instituto de Tecnologia Social (ITS BRASIL); Lara Souto Santana, coordenadora de desenvolvimento de programas da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEDPcD) de São Paulo; Marco Pellegrini, secretário nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Ministério dos Direitos Humanos; a neuropsicóloga Sandra Dias Batochio da Silva, e Carolina Ignarra, sócia fundadora da Talento Incluir.


IMAGEM 02: Em denúncia publicada com exclusividade pelo blogVencerLimites, Andrea Batista da Silva afirma ter sido boicotada por colegas e superiores, avaliada sem receber apoio especializado para conhecer rotinas do HSPE e demitida após levar situação a público. Caso gerou reação de diversas instituições de defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Descrição #pracegover: Foto dupla. No lado esquerdo, Andrea aparece sorrindo junto com quatro colegas em uma ala infantil hospitalar. No lado direito, imagem área do Hospital do Servidor Público de SP e a lista de aprovado em concurso, com o nome da enfermeira na quarta colocação. Crédito da foto: Arquivo pessoal / Andrea Batista da Silva

IMAGEM 02: Em denúncia publicada com exclusividade pelo blogVencerLimites, Andrea Batista da Silva afirma ter sido boicotada por colegas e superiores, avaliada sem receber apoio especializado para conhecer rotinas do HSPE e demitida após levar situação a público. Caso gerou reação de diversas instituições de defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Descrição #pracegover: Foto dupla. No lado esquerdo, Andrea aparece sorrindo junto com quatro colegas em uma ala infantil hospitalar. No lado direito, imagem área do Hospital do Servidor Público de SP e a lista de aprovado em concurso, com o nome da enfermeira na quarta colocação. Crédito da foto: Arquivo pessoal / Andrea Batista da Silva.


Emprego Apoiado: afinal, o que é isso?

por Flávio Gonzalez*

A questão da deficiência sempre foi permeada por mitos. A pessoa que a tem é chamada a lidar com estigmas que carregam a história da humanidade, marcas hereditárias que, intrusas, escondem-se no imaginário coletivo, nas raízes da própria cultura de uma sociedade.

É o esforço consciente, forjado no simples reconhecimento dos direitos, o único capaz de se contrapor a essa bagagem histórica.

Os mitos, embora antigos e profundos, assumem, de quando em quando, novas roupagens. Uma delas, que ouvimos a todo o momento no árduo exercício de fazer inclusão, é o que chamamos do ‘mito dos cem reais’.

Já se tornaram clichês frases como ‘não conseguimos reter as pessoas na empresa porque, por qualquer cem reais, elas mudam de emprego’.

Será que isso é verdade?

Questionar a opinião do senso comum é sempre necessário quando se lida com a discriminação, pois essa, geralmente, se esconde nas entrelinhas.

O antropólogo Robert Murphy, após tornar-se tetraplégico em 1976, criou o conceito de ‘limiaridade’. Para ele, muitas pessoas com deficiência encontram-se, quando não completamente excluídas, no ‘limiar’, na fronteira entre a inclusão e a exclusão.

Esse ‘lugar’ não é simples de ser identificado, pois, na prática, a pessoa parece estar incluída, mas na verdade não está.

Algumas vezes está empregada, mas nem sempre incluída. Muitas vezes é subaproveitada, ‘encostada’, recebe salário, mas não consegue demonstrar seu potencial e sente-se, por força de uma inclusão, na verdade, malfeita, deslocada naquele contexto.

Daí que, recebendo uma proposta de emprego, ela muda, como qualquer pessoa mudaria, e a explicação que a empresa encontra, por falta de outra melhor, é que ‘ela trocou por causa de cem reais’.

Reedita-se com isto o velho jargão de ‘culpabilizar’ a pessoa pela sua própria exclusão, o que é uma estratégia perversa de negação de responsabilidades, que deposita na vítima a origem da agressão que recebe.

O chamado ‘modelo médico da deficiência’ nos ensina a ver o problema na pessoa, esquecendo-se de que, como propõe o ‘modelo social’, a deficiência resulta de uma complexa interação da pessoa com diversas barreiras existentes no meio, sejam essas arquitetônicas, atitudinais, comunicacionais, instrumentais ou outras.

Deve-se sempre perguntar: oferecemos para esse profissional os apoios que ele precisava para trabalhar?

Ou simplesmente o ‘colocamos lá’, sem nenhum esforço no sentido de concretizar a inclusão, como se ela acontecesse por acaso, sem uma intervenção consciente?

Foi pensando dessa forma, e com foco na inclusão de pessoas com deficiência mais severas, que algumas universidades americanas – como a de Wisconsin/Oregon (EUA) – criaram as bases do hoje é chamado de Emprego Apoiado (Supported Employment).

Trata-se de uma tecnologia social que, rapidamente, se espalhou pelo mundo e, atualmente, é amplamente utilizada na Europa, no Estados Unidos e outros países, como a principal ferramenta para a inclusão profissional de pessoas com deficiência, inclusive prevista na legislação de várias nações, entre elas a Espanha.

Essa metodologia tem algumas bases, entre as quais está a ‘presunção de empregabilidade’, que propõe que ‘todas as pessoas podem trabalhar desde que sejam oferecidos os apoios necessários’.

A inclusão deve sempre ocorrer no mercado competitivo, em ambientes inclusivos, respeitando as escolhas da pessoa, seus interesses, pontos fortes e necessidades de apoio. Ela também inverte a lógica do ‘qualificar para incluir’, propondo o modelo ‘incluir para qualificar’, e tem três fases: descoberta de perfil, desenvolvimento de emprego e acompanhamento pós-colocação.

Os apoios podem ser de vários tipos: natural, tecnológico, modificação do ambiente; tem diversas intensidades: intermitente, limitado, extensivo, pervasivo, e muitas fontes: pessoas, serviços, tecnologias.

Deve sempre caminhar para os ‘apoios naturais’, encontrados na própria empresa, na comunidade, organizados de modo a suprir as necessidades de apoio que são sempre individualizadas.

Com isso, a pessoa pode demonstrar todo o seu potencial, sentir-se pertencente e, certamente, não será por ‘cem reais’ que ela mudará de emprego, exceto se for mal remunerada pelo simples fato de ter uma deficiência, o que é crime perante a lei.

*Flávio Gonzalez é psicólogo, atua há 22 anos na inclusão profissional de pessoas com deficiência e supervisiona o serviço de qualificação e inclusão profissional da Apae de São Paulo.


Para receber nossas notícias direto em seu smartphone, basta incluir o número (11) 97611-6558 nos contatos e mandar a frase 'VencerLimites' pelo Whatsapp. VencerLimites.com.br é um espaço de notícias sobre o universo das pessoas com deficiência, integrado ao portal Estadão. Nosso conteúdo também está acessível em Libras, com a solução Hand Talk, e áudio, com a ferramenta Audima. Todas as informações publicadas no blog, nas nossas redes sociais e enviadas pelo Whatsapp são verdadeiras, produzidas e divulgadas após checagem e comprovação. Compartilhe apenas informação de qualidade e jamais fortaleça as 'fake news'. Se tiver dúvidas, verifique.

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