Entrega de remédios para esquizofrenia no SUS está parada em dez estados, diz associação

Entrega de remédios para esquizofrenia no SUS está parada em dez estados, diz associação

Segundo instituição que atende 4 mil famílias, há desabastecimento de três medicamentos fundamentais. Ministério da Saúde afirma que atende 100% dos pedidos das secretarias. Professor da Unifesp alerta que interrupção de tratamento pode causar danos permanentes no cérebro.

Luiz Alexandre Souza Ventura

23 de dezembro de 2021 | 15h43

Foto de um exame neurológico de um cérebro na tela de um computador.

“Cada crise psicótica pode agravar ainda mais a doença, afetando o funcionamento do cérebro”, diz médico. Foto: Unifesp.


A distribuição de três medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS) para tratar pessoas com esquizofrenia está interrompida em dez estados (AL, BA, CE, MG, MT, PI, RJ, RS, SE e SP), segundo levantamento da Associação Mãos de Mães de Pessoas com Esquizofrenia (AMME), que atende aproximadamente quatro mil famílias de todo o País.

“Estamos com uma dificuldade enorme com medicamentos antipsicóticos: clozapina, quetiapina e olanzapina“, diz Sarah Nicolleli, fundadora e presidente da AMME. “Em algumas cidades, mesmo nas farmácias particulares, já é difícil encontrar para comprar”, comenta.

“Imagine uma pessoa com esquizofrenia que faz tratamento contínuo e fica sem tomar seus remédios. Certamente, terá uma crise psicótica, que pode ser agressiva”, alerta. “A associação tem ajudado com doação de alguns medicamentos. Uma caixa custa R$ 300, quando é genérico, e alguns pacientes tomam seis comprimidos por dia. No Brasil, são 2 milhões de pessoas com esquizofrenia, com uma média de 80% atendidos pelo SUS. As secretarias de saúde dizem que há falta de remédios e o Ministério da Saúde não informa nada”, ressalta Sarah Nicolleli.

Resposta – Questionado pelo blog Vencer Limites, o Ministério da Saúde afirmou em nota que atendeu 100% da demanda das secretarias estaduais de Saúde e do Distrito Federal dos medicamentos clozapina (25mg e 100mg) e olanzapina (10 mg) para o atendimento do quarto trimestre de 2021 (outubro, novembro e dezembro).

“O medicamento quetiapina (100mg e 200mg) será distribuído de acordo com as datas agendadas junto às Secretarias Estaduais de Saúde (SES). Em relação aos medicamentos quetiapina (25mg) e olanzapina (5mg), foram atendidos, respectivamente, 22% e 81% da demanda. A Pasta aguarda assinatura do novo contrato com o laboratório produtor para o atendimento do restante da demanda. Cabe ressaltar que o ministério exigiu o adiantamento das entregas”, completa o MS.


Foto de três caixas do remédio clozapina.

“A associação tem ajudado com doação de alguns medicamentos. Uma caixa custa R$ 300”, diz presidente da AMME. Foto: Arquivo Pessoal / Sarah Nicolleli.


Danos no cérebro – O médico psiquiatra e professor Ary Gadelha, vice-chefe do departamento de psiquiatria e coordenador do Programa de Esquizofrenia (PROESQ) da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal De São Paulo (EPM/UNIFESP), alerta para os problemas que a interrupção dos tratamento pode provocar.

“A medicação antipsicótica tem duas ações. Ela tira a pessoa com esquizofrenia da crise e, depois que ela está estabilizada, previne novas crises. Funciona para todas as três medicações (clozapina, quetiapina e olanzapina). Interromper o tratamento pode levar a uma recaída da doença, marcada por uma nova crise psicótica. O período para essa recaída é variável, mas pode acontecer mesmo com três a cinco dias sem remédios. Por isso, a urgência de retomar o fornecimento”, explica o médico.

“Temos recebido pacientes que entraram em crise por falta de medicação. É uma população muito vulnerável. Essas medicações têm um custo maior, o que torna muito difícil as famílias manterem o tratamento sem o apoio do poder público”, comenta o professor.

“Cada crise psicótica pode agravar ainda mais a doença, afetando o funcionamento do cérebro. O paciente pode se recuperar, mas pode também ter perdas permanentes ou levar de meses, até anos, para voltar ao funcionamento anterior à crise”, completa o psiquiatra Ary Gadelha.


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