“Esses ‘alejados’ só atrapalham”

“Esses ‘alejados’ só atrapalham”

Falha em sistema cancela Bilhete Único de homem com deficiência que trabalha na AACD. Usuário afirma ter sido ofendido por motorista de ônibus. "É fundamental que a sociedade esteja preparada para conviver com as diferenças", declarou a associação em apoio ao funcionário. SPTrans confirmou erro e desbloqueou o cartão oito dias depois.

Luiz Alexandre Souza Ventura

12 de junho de 2021 | 13h00

Foto de um ônibus articulado da linha 175T-10 da SPTrans. Veículo é novo, pintado na cor prateada, tem quatro eixos e está parado ao lado de um ponto da cidade de São Paulo.

“Muitos motoristas já me conhecem, entendem o problema e me deixam seguir viagem. Se eu fosse pagar todas as passagens, gastaria uns R$ 30 por dia”, comenta Nivaldo Demésio de Lima (descrição da imagem em texto alternativo).


Uma falha no reconhecimento facial em um ônibus na cidade de São Paulo provocou o cancelamento automático do Bilhete Único Especial de um homem com deficiência. É um problema que se repete e prejudica principalmente as pessoas com deficiência.

Nivaldo Demésio de Lima, de 46 anos, tem sequelas de poliomielite (paralisia infantil). É casado e tem cinco filhos. Trabalha como auxiliar administrativo na unidade Ibirapuera da AACD há 14 anos. Mora no Jaraguá, região norte da capital paulista, pega ônibus e trem diariamente para ir e voltar do trabalho, trajeto de aproximadamente 90 minutos.

Na manhã do dia 1° de junho, na estação Barra Funda da CPTM, ele foi surpreendido com o bloqueio do acesso. Em contato com a SPTrans, Nivaldo foi informado que o sistema havia detectado uso indevido do cartão no dia 31 de maio, às 19h24, em um ônibus da linha 106 – METRÔ SANTANA / ITAIM BIBI (prefixo 16672), que ele não utiliza. A foto enviada pela SPTrans é de uma mulher.

“No horário marcado pela SPTrans, estou chegando em casa”, diz Nivaldo. Com o protocolo do pedido impresso, ele consegue mostrar aos motoristas que está bloqueado. “Muitos já me conhecem, entendem o problema e me deixam seguir viagem. Se eu fosse pagar todas as passagens, gastaria uns R$ 30 por dia”, comenta.

Para evitar dificuldades na estação de trem, Nivaldo está fazendo outro trajeto, somente em ônibus, o que leva aproximadamente duas horas e meia. “Na linha 175T-10 (Santana / Jabaquara) é mais difícil porque são condutores diferentes. Eu sempre mostro o protocolo e alguns entendem. Um motorista não quis conversa, disse que na próxima eu teria que pagar a passagem e resmungou ‘esses ‘alejados’ só atrapalham’. Falou essa palavra, desse jeito, em voz baixa, mas eu escutei. Fiquei tão transtornado que nem consegui reagir ou marcar o prefixo do veículo”, relata Nivaldo, que já passou por cinco infartos, duas cirurgias de pontes de safena e usa dois stants. “Tenho quase 27 anos de contribuição e estou tentando me aposentar, mas o INSS não aprova”, diz.

Nivaldo informou à AACD os problemas que está enfrentando e afirma ter recebido apoio total da instituição. Em nota ao #blogVencerLimites, a associação lamenta a postura do motorista e confirmou que está prestando solidariedade ao funcionário.

“É fundamental que a sociedade em que vivemos esteja preparada para lidar e conviver com as diferenças, reconhecendo em cada indivíduo a sua capacidade de evoluir e contribuir para um mundo mais humano” declarou a AACD.

Resposta – Procurada pelo #blogVencerLimites, a SPTrans respondeu que “o Bilhete Único Especial – Pessoa com Deficiência do senhor Nivaldo Demésio de Lima foi cancelado automaticamente pelo sistema informatizado. Os casos em que o sistema não pode validar a foto capturada pelo validador são encaminhados para análise por analistas da SPTrans”, diz a companhia.
 
“Após a análise foi constatado que ele era o titular do benefício na foto capturada. Desta forma, o desbloqueio no sistema de bilhetagem foi feito nesta quarta-feira, 9 de junho, e um novo Bilhete Único Especial foi gerado. Assim que o Bilhete Único Especial estiver finalizado e disponibilizado para retirada no Posto Central, o munícipe será informado pelo telefone cadastrado no site de atendimento”, completou a SPTrans.

Segundo Nivaldo, até a manhã deste sábado, 12, esse contato ainda não havia sido feito.

Falha repetida – Em maio no ano passado, a costureira Rosângela Gonçalves Ribeiro, de 48 anos, moradora de Pirituba, na zona noroeste de São Paulo, ficou mais de uma semana impedida de usar o Bilhete Único Especial. O cartão, que é permanente, foi bloqueado pela SPTrans porque a usuária estava com uma máscara de proteção sobre o rosto quando passou pela catraca do ônibus (Linha 9015 Vila Zatt).

Na época, em entrevista ao #blogVencerLimites Rosângela contou que trabalhava em uma empresa no Piqueri, na zona norte, e pegava diariamente quatro ônibus. Gastaca R$ 8,80 por dia porque usa o sistema de integração, que permite a baldeação sem cobrança de nova passagem (clique aqui para ler a reportagem completa).


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