“Estou em busca do tricampeonato”

“Estou em busca do tricampeonato”

Dirceu Pinto encontrou na bocha adaptada o caminho para a reabilitação. "Foi paixão à primeira vista". É hexacampeão brasileiro, campeão mundial e duas vezes medalhista paralímpico. "Nosso país precisa de bons exemplos".

Luiz Alexandre Souza Ventura

02 de setembro de 2016 | 10h00

“Competir no Brasil será um diferencial, com a torcida incentivando os atletas”, afirma Dirceu Pinto, atleta da bocha adaptada e maior medalhista da história desse esporte. “Nossas expectativas são boas, treinamos muito. Quero ver a pressão para ajudar em mais uma conquista”, diz.

Dirceu chega aos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro como favorito. Ganhou a medalha de ouro no Parapan Toronto 2015, é hexacampeão brasileiro de Bocha Adaptada (2003, 2004, 2005, 2008, 2010 e 2015), levou as medalhas de ouro (individual e duplas) nos Jogos de Londres 2012 e a medalha de ouro na Copa do Mundo, na Irlanda, em 2011. Foi campeão mundial (individual e duplas) no torneio de Lisboa 2010 e conquistou ainda as medalhas de ouro nos Jogos (individual e duplas) de Pequim 2008.

Para o atleta, a olimpíada já mudou da mentalidade das pessoas, criando uma conscientização de há sim público para eventos desse tipo, inclusive pessoas com deficiência, que são obrigados a ficar casa por falta de recursos de acessibilidade na cidade.

“O que o poder público fez para as pessoas com deficiência ao inserir pontos de acessibilidade na cidade e nos parques já é o começo. Ao colocar uma rampa, você não está beneficiando apenas o cadeirante, mas também a mãe que está empurrando o filho no carrinho, por exemplo. Toda essa mudança já é o começo para que se desenvolvam novos projetos”, celebra Dirceu.

E o tal ‘exemplo de superação’, o retrato do ‘herói’, abordagem habitualmente usada pela mídia em geral quando um atleta com deficiência se torna conhecido, diminuindo todo o treinamento, empenho, fibra e qualidades desse atleta? Para Dirceu, ainda é recente a exposição do paratleta.

“É algo novo e a mídia não sabe como tratar essa questão. Vivemos como todos da sociedade. Pessoas com deficiência trabalham, casam, vivem como qualquer pessoa. A mídia pensa que não saímos de casa. E quando estão diante de um paratleta de alto rendimento, tratam como heróis, olham somente para a deficiência. Agora estão conhecendo, vendo como os atletas têm transformado a vida, como os paralímpicos têm se dedicado para vencer. Nosso país precisa de heróis, de bons exemplos”.


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Dirceu Pinto nasceu em 10 de setembro de 1980, em Francisco Morato/SP. Tem Distrofia Muscular de Cintura. Aos 14, começou a praticar natação. “Era época do Gustavo Borges e do Xuxa. Sonhava em representar o Brasil numa olimpíada. Passei dois anos treinando. Dos 16 aos 19 anos tive fraqueza e parei de competir. Era o fim do meu sonho. Terminei então os meus estudos e fiquei dentro de casa”, conta.

Foi quando um professor do Clube Náutico de Mogi das Cruzes convidou Dirceu para um teste na bocha adaptada. “Foi paixão à primeira vista. Em três meses já estava competindo no Maracanãzinho e conquistei duas medalhas de ouro no campeonato regional. Contei meu sonho de representar meu país, sonho que tinha morrido e ressuscitava com a bocha”.

Em 2002, Dirceu entrou para o time do Tradef, em Mogi das Cruzes, no ABC Paulista, clube que representa atualmente. Participou de campeonatos nacionais e internacionais. “Minha meta era participar dos Jogos Paralímpicos de 2008, na China. Tinha seis anos para conseguir. O Brasil conquistou duas vagas: a minha e a do Eliseu Santos, do Paraná”, lembra o atleta.

“Para surpresa de todos, e nossa também, conseguimos duas medalhas de ouro e uma de bronze, resultado de nossa preparação, que muito bem feita. Eu era o 25º no ranking mundial. De 2008 a 2012, ganhamos tudo em dupla e no individual. Conquistei duas medalhas de outro em Pequim e duas em Londres. Agora estou em busca do tricampeonato no Rio de Janeiro”.

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