“Fico incomodado quando nos chamam de heróis”

“Fico incomodado quando nos chamam de heróis”

O #blogVencerLimites começa hoje uma série de reportagens sobre os Jogos Paralímpicos Rio 2016. Na estreia, o nadador Clodoaldo Silva, que vai competir nos 50 metros e nos 100 metros livre, além de integrar o revezamento 4x50 metros livre. "Minha expectativa é de que as paralimpíadas consolidem o respeito às pessoas com deficiência", diz o atleta.

Luiz Alexandre Souza Ventura

29 de agosto de 2016 | 10h00

O nadador Clodoaldo Silva pensa longe, além das piscinas. Aos 37 anos, chega aos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro como ícone do esporte e referência mundial. Será sua quinta participação consecutiva em paralimpíadas.

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“Vou nadar 3 provas. O revezamento 4×50 metros livre, os 50 metros e os 100 metros livre. Meu grande objetivo é fazer o meu melhor. Nunca foi atleta de prometer medalhas”, diz. “Fora da piscina, minha expectativa é que nossa participação consolide paralimpíadas em nosso País, principalmente no respeito às pessoas com deficiência. O Brasil ainda está longe dessa respeitabilidade, principalmente na acessibilidade. Nossa missão não é só ganhar medalha. É também dar essa conscientização ao povo”.

Se o assunto é acessibilidade, o que dizer sobre os recursos construídos no Rio de Janeiro para receber mais de 4 mil esportistas paralímpicos de 176 países? Para Clodoaldo, a preocupação maior não deve ser com os locais de competição, mas sim no entorno das arenas e na cidade.

“No Brasil inteiro, a falta de acessibilidade ainda é o maior símbolo de desrespeito para com as pessoas com deficiência. A ausência desses recursos impede todos tenham uma vida normal. Já mudou muito, mas ainda falta muito. Um exemplo simples é a vaga específica em estacionamentos, constantemente ocupada por quem não precisa”.

Clodoaldo Silva ganhou as medalhas de ouro e prata no Parapan de Guadalajara 2011, ouro no Campeonato Mundial (Eindhoven 2010), prata e bronze nos Jogos Paralímpicos de Pequim 2008, ouro e prata no Parapan do Rio de Janeiro 2007, ouro e prata no Campeonato Mundial (Durban 2002), ouro e prata nos Jogos Paralímpicos de Atenas 2004, ouro e prata no Parapan de Mar del Plata 2003 e as medalhas de prata e bronze nos Jogos Paralímpicos de Sydney 2000. Foto: Divulgação/Nissan

Clodoaldo Silva ganhou as medalhas de ouro e prata no Parapan de Guadalajara 2011, ouro no Campeonato Mundial (Eindhoven 2010), prata e bronze nos Jogos Paralímpicos de Pequim 2008, ouro e prata no Parapan do Rio de Janeiro 2007, ouro e prata no Campeonato Mundial (Durban 2002), ouro e prata nos Jogos Paralímpicos de Atenas 2004, ouro e prata no Parapan de Mar del Plata 2003 e as medalhas de prata e bronze nos Jogos Paralímpicos de Sydney 2000. Foto: Divulgação/Nissan


E o tal ‘exemplo de superação’, o retrato do ‘herói’, abordagem habitualmente usada pela mídia em geral quando um atleta com deficiência se torna conhecido, diminuindo todo o treinamento, empenho, fibra e qualidades desse atleta? Para Clodoaldo, ser herói é outra coisa.

“Não me considero um exemplo de superação. Faço o que gosto, tive oportunidades como a reabilitação e o convite para integrar a equipe de natação, que me possibilitaram seguir na profissão. Essa superação não existe só no esporte. Sempre que alguém chega no seu êxito é porque teve muito treinamento, dedicação, abdicou de muita coisa e, para isso, tem que superar muita coisa, como o cansaço, as dores e a distância da família. Fico incomodado quando nos chamam de heróis. Para mim, ser herói tem outro significado”.


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Clodoaldo Silva nasceu em Natal (RN), em 1 de fevereiro em 1979, teve uma paralisia cerebral no parto, suas pernas ficaram dobradas e cruzadas. Foi submetido a diversas cirurgias até completar 16 anos. Por ordem médica, começou a praticar natação. Fazia fisioterapia onde a equipe paralímpica do Rio Grande do Norte treinava e foi convidado para participar do time. Agarrou a oportunidade com um foco maior. Sentiu que estava no lugar certo e passou a treinar, a se dedicar.

“Quando comecei, nem mesmo nos meus melhores sonhos pensei em ser o que sou hoje, uma referência para outras pessoas. Eu vivia cada fase, pensava em ser famoso, reconhecido, dar autógrafos e isso veio com o tempo e ainda me surpreende. Até um tempo atrás, não se imaginava que uma pessoa com deficiência poderia ser exemplo para a sociedade. Minha principal dificuldade era a conquista de patrocínios. As empresas não queriam vincular pessoas com deficiência à sua imagem”. Clodoaldo é patrocinado pela Nissan desde 2012. “Eles me procuraram, me consideram um campeão”.

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