Fila para obter cão-guia no Brasil tem mais de 500 pessoas

Fila para obter cão-guia no Brasil tem mais de 500 pessoas

Usuários precisam ser independentes, ter vida ativa, além de boa orientação e mobilidade. País tem apenas três instrutores capacitados, com padrões internacionais, e menos de 200 animais em atuação. Maior centro de treinamento da América Latina, no interior de SP, prepara e doa cães-guias.

Luiz Alexandre Souza Ventura

28 de abril de 2021 | 17h23

Foto de um homem agachado ao lado de um cão-guia da raça Labrador. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de um homem agachado ao lado de um cão-guia da raça Labrador. Crédito: Divulgação.


Mais de 500 pessoas estão na fila para receber um cão-guia no Brasil. Menos de 200 animais atuam nessa função no País. As principais barreiras são o valor investido para treinar os cães, o que exige um longo trabalho, de quase dois anos, a aptidão do cachorro para a atividade e a escassez de instrutores capacitados nos padrões internacionais, formação que dura quatro anos.

“O investimento para a formação de cada cão-guia é de R$ 60 mil”, diz Thiago Pereira, gerente do Instituto Magnus, maior centro de treinamento de cão-guia da América Latina, que fica em Salto de Pirapora, no interior de SP. “O Brasil tem apenas três instrutores capacitados, com padrões internacionais. Dois estão conosco”, comenta Pereira.

A instituição prepara e doa cães-guias, tem estrutura para treinar 64 animais por ano. Em 2020, conseguiu entregar 12. “A pandemia atrasou o trabalho. Mantivemos as socializações, mas todas as áreas para atividades externas estavam fechadas, como hotéis e shoppings”, explica o gerente.

Socialização é a primeira etapa do treinamento, quando o cão tem dois meses de vida e vai para a casa de uma família voluntária, se acostuma com a rotina e testa suas aptidões. Atualmente, são 40 cães nessa fase. Um ano depois, o cachorro volta para o instituto e completa os cinco meses finais de treinamento para ser enviado à pessoa com deficiência visual. A instituição tem dez animais nessa etapa. Para 2021, a expectativa é entregar até 20 cães-guias.


Foto de um filhote de Golden Retriever e dois filhos de Labrador em um gramado. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de um filhote de Golden Retriever e dois filhos de Labrador em um gramado. Crédito: Divulgação.


“Ter um cão-guia é uma escolha, mas o usuário precisa ser independente, ativo, com boa orientação e mobilidade”, afirma o gerente do Instituto Magnus. “Quem não tem orientação e mobilidade pode até sofrer um acidente porque, inicialmente, é a pessoa que conduz o cão. Após o desenvolvimento dessa relação, vira um conjunto”, esclarece Thiago Pererira. “O uso da bengala funciona como um pré-requisito que demmonstra o nível de autonomia. O cão-guia é um recurso de acessibilidade e todos os acessos, a qualquer lugar, são garantidos por lei para o animal, mesmo na fase de treinamento, com o instrutor. Esse é um detalhe importante”, ressalta o especialista.

No Brasil, Labrador é a raça mais frequente entre os cães-guias, Golden Retriever também tem boa atuação e animais que nascem do cruzamento dessas duas linhagens costumam ser bons para a atividade. Em outros países, de acordo com o clima e os costumes, há cão-guia Bernesi, Pastor Alemão, Bulldog e até Poodle Standard.

“No Brasil, o Pastor Alemão é mais usado pela polícia. Cães sem raça definida não podem ser usados, assim como animais de porte pequeno”, diz Thiago Pereira. O Instituto Magnus não pode receber doações de cães por causa da hereditariedade, só trabalha com canis cadastrados e homologados, que fazem criação humanizada, com prioridade ao bem estar do aminal.

“Quando o cão não demonstra aptidão comportamental ou de saúde para ser guia, vai para adoção. A própria família que estava com o cachorro pode adotar”, afirma Pereira.



Cão de assistência – Cães-guias fazem parte de um grupo identificado como cães de assistência, que também são usados por pessoas autistas, com deficiências físicas – paraplégicos e tetraplágicos, por exemplo – deficiências intelectuais, auditivas e distúrbios psiquiátricos.

“Não há uma grande oferta de cães de serviço. Quando o animal não tem aptidão para ser cão-guia, é avaliado para assistência”, comenta o gerente.

Comprar cão-guia – “Não existe legislação que proíba a venda de cães-guias, mas os requisitos técnicos impedem essa comercialização. O cão-guia precisa ter compatibilidade com a pessoa, é uma relação complexa. Nenhuma escola de cão-guia vende o cão-guia. Pode haver parceria para formar o cão-guia”, alerta Thiago Pereira.

O Instituto Magnus vai completar três anos em novembro. Foi fundado em 2018 pela Adimax, fabricante de alimentos para cães e gatos. A empresa também apoia projetos paradesportivos, atletas cegos de futebol de 5, futebol para jogadores amputados, com paralisia cerebral e com deficiências intelectuais, equipes de futsal para atletas com síndrome de Down, de vôlei sentado, além de crianças em situação de vulnerabilidade.


Para receber as reportagens do
#blogVencerLimites no Telegram,
acesse t.me/blogVencerLimites.



Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.