Inclusão com meta e métrica

Inclusão com meta e métrica

Pessoas com deficiência são 'et cetera' nas discussões sobre ESG e desenvolvimento sustentável. Para o Instituto Olga Kos, medir os resultados dessas práticas é a chave do combate à exclusão.

Luiz Alexandre Souza Ventura

03 de agosto de 2022 | 18h16

Foto de pessoas com deficiência em um evento esportivo. Em destaque, uma jovem com síndrome de Down está com uma medalha no pescoço. Ao lado dela, Wolf Kos, presidente do Instituto Olga Kos, homem idoso, alto, branco, de óculos, sorri.

“A exclusão da pessoa com deficiência é resultado do desconhecimento”, afirma Wolf Kos. Foto: Divulgação.


Pessoas com deficiência ainda são o et cetera nas discussões sobre diversidade, inclusão e uma sociedade plural, permanecem na invisilidade, mencionadas como adjacentes. Exemplo recente é a Virada ODS de São Paulo, que reuniu personalidades nacionais e internacionais para debater os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), o primeiro evento sobre esse tema no mundo, que relegou à acessibilidade e à população com deficiência um espaço ocupado quase à força.

“Os ODS da ONU foram criados para o ser humano e serão atingíveis se tiverem métricas, para sair do discurso e chegar à prática. Essa primeira Virada ODS foi uma iniciativa importante e trouxe aprendizados”, diz Wolf Kos, presidente do Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural (IOK), um dos poucos palestrantes que abordou as temáticas da população com deficiência no evento realizado em julho na capital paulista.

Outro exemplo é o ESG (Environmental, Social and Governance), conceito que domina as conversas do universo corporativo sobre diversidade, mas com mínimas referências às pessoas com deficiência na maioria dos eventos.

“A exclusão da pessoa com deficiência é resultado do desconhecimento, da falta de métrica confiável. Só faz gestão quem mede, a inclusão precisa ter meta e métrica”, afirma Wolf Kos.

O instituto lançou recentemente duas ferramentas para suprir essa necessidade, o Índice Nacional de Inclusão Olga Kos da Pessoa com Deficiência (INIOK) e a Escala Cidadã Olga Kos (ECOK).

“São metodologias científicas para a inclusão, as primeiras do tipo no Brasil. A vulnerabilidade social é a maior deficiência do nosso País e a comunicação é a maior dificuldade da pessoa com deficiência. Como se inclui uma pessoa obesa, idosa, com deficiência visual, auditiva, física, intelectual, negra, de minoria religiosa? É o que queremos saber”, comenta Wolf Kos.

INIOK – A coordenadora do departamento de pesquisas do Instituto Olga Kos, Natália Monaco, explica que o índice nacional vai colher informações primárias, como nome, idade e qual deficiência a pessoa tem, e cruzar esses dados com as méticas secundárias já existentes, obtidas em estudos como o Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a Pesquisa Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), entre outros.

O grupo já está na rua. Um diferencial do trabalho é o shadowing, método no qual o pesquisador acompanha o pesquisado em atividades reais para comprovar as informações apresentadas no questionário. “Se uma pessoa com deficiência afirma que usa o transporte público, vamos junto para verificar como é essa rotina na prática, se tem realmente acessibilidade, quais são as barreiras e os problemas”, diz a coordenadora.

O trabalho é feito em 12 estados, nas cinco regiões do País (AC, AM, BA, DF, ES, MA, MG, RJ, RO, RS, SC e SP). “A fase na rua deve ser concluída até o final de agosto, com entrega dos dados completos em 30 setembro”, prevê Natália.

ECOK – A escala cidadã é um instrumento para mensurar a prática da inclusão no mercado de trabalho, a partir de identificação, monitoramento e avaliação da pessoa com deficiência, da família, do contexto social e do próprio mercado de trabalho. Verifica gênero, idade, deficiência, etnia, religião, nacionalidade e outros itens.

“São cinco variáveis”, diz a coordenadora. “Arquitetônica, do ambiente e do território; atitudinal, da comunidade, do acolhimento; comunicacional, para desenvolver a escuta; metodologia e programática. Cada uma tem 20 indicadores, com 37 requisitos, combinando pesos e transformado tudo isso em um algorítimo”, detalha.

O projeto é de propriedade do IOK, foi registrado e levado ao Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), que fez uma rigorosa avaliação e concedeu à ECOK uma acreditação, uma escala internacional de confiança na atuação.

Outra certificação veio da Organização dos Estados Ibero-Americanos para Educação, Ciência e Cultura (OEI), que já é parceira do Instituto Olga Kos. “Esse reconhecimento internacional permite replicar nossos estudos em qualquer país. E ainda não existe, fora do Brasil, nada igual à ECOK”, completa Natália Monaco.


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