Internet brasileira atinge pior nível de acessibilidade digital

Internet brasileira atinge pior nível de acessibilidade digital

País tem 21 milhões de websites ativos, praticamente todos com impedimentos para pessoas com deficiência. Exclusão em massa afronta a Lei Brasileira de Inclusão.

Luiz Alexandre Souza Ventura

14 de junho de 2022 | 15h30

Foto de um notebook aberto, abraçado por uma corrente trancada com um cadeado.

Internet sem acessibilidade digital gera exclusão em massa da população com deficiência. Foto: Reprodução.


Os índices de acessibilidade digital da internet brasileira são os piores da história, segundo dois estudos divulgados neste mês. O primeiro levantamento da TIC Web Acessibilidade / Ceweb.br mostra que somente 0,7% dos portais e páginas sob o domínio gov.br (federais, estaduais e municipais) são plenamente acessíveis. E a quarta edição da pesquisa BigDataCorp / Movimento Web Para Todos constatou que apenas 0,46% dos 21 milhões de websites do País estão livres de barreiras para pessoas com deficiência, o nível mais baixo já registrado desde a estreia desse trabalho, em 2019.

O resultado é a exclusão em massa da população com deficiência, com impedimentos para solicitação de serviços públicos, compras online, consumo de informações – inclusive notícias – e navegação em geral pela web. Além da afronta direta à Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015).

“É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente”, determina o artigo 63 da LBI.

Governo – A plataforma TIC Web Acessibilidade do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) do Ceweb.br (Centro de Estudos sobre Tecnologias Web), elaborada com o Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (DCC/UFMG), analisou 316.791 páginas em 504 portais gov.br, com base no Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico (eMAG). Somente 2.445 páginas atingiram o nível de conformidade entre 95% e 100%.

A ferramenta verifica regras da linguagem de marcação para a criação de páginas HTML e observa o uso correto dos níveis de cabeçalho, que o eMAG estabelece de forma hierárquica para organizar conteúdos. Leitores de tela usam essa hierarquia e pulam de um cabeçalho para outro, o que agiliza a navegação.

Segundo Reinaldo Ferraz, especialista em desenvolvimento Web do Ceweb.br|NIC.br, apenas uma página não apresentou nenhum erro. O gerente do Ceweb.br|NIC.br, Vagner Diniz, reforçou que, quando padrões são desrespeitados, usuários de navegadores não convencionais ou de tecnologias de apoio enfrentam problemas na exibição do conteúdo, como sobreposição de texto e design quebrado, e até conteúdo que não é exibido em tela.

Ainda na avaliação de sites gov.br, a pesquisa da BigDataCorp com o Movimento Web Para Todos registrou falha em 99,79% das páginas. O estudo verifica a marcação do HTML, a acessibilidade de campos de formulário e botões, se links abrem em nova janela sem avisar ao usuário e se imagens têm texto alternativo.

Internet bloqueada – Na comparação com o ano passado, o estudo BigDataCorp/WPT validou uma quantidade 25% maior de páginas (21 milhões de sites ativos de todos os tipos no País).

Thoran Rodrigues, CEO da BigDataCorp, afirma que os números gerais pioraram praticamente em todos os sites. E que a explicação para isso é o crescimento da quantidade de sites ativos, principalmente pequenos, para os quais acessibilidade não é prioridade. Simone Freire, idealizadora do Movimento Web para Todos, lembrou que sites pequenos costumam ser criados em plataformas de construção automática, sem autonomia técnica, o que chama a atenção para a responsabilidade na oferta de soluções com acessibilidade nativa.



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