“É importante valorizar a vida adulta e a autonomia da pessoa com deficiência”

“É importante valorizar a vida adulta e a autonomia da pessoa com deficiência”

Estudo constata que o envelhecimento de pessoas com deficiência intelectual pode acontecer de forma muito mais digna se houver uma forte atenção a medidas de prevenção e de suporte à saúde.

Luiz Alexandre Souza Ventura

30 de julho de 2015 | 14h42

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Foto: APAE SP

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Atualizado em 31/07/2015 (12h) – Um estudo realizado durante um ano analisou relatos de cuidadores e constatou que o envelhecimento de pessoas com deficiência intelectual pode acontecer de forma muito mais digna se houver uma forte atenção a medidas de prevenção e de suporte à saúde. “São providências necessárias para minimizar o impacto individual e social do envelhecimento anormal nas pessoas com deficiência intelectual. Os resultados da pesquisa indicam aspectos que podem se tornar fatores de risco para um envelhecimento atípico e mais precoce desta população”, afirma a neurologista Laura Guilhoto, coordenadora técnico-científica do Instituto APAE de São Paulo, responsável pelo trabalho, que também teve a participação da Alternativa Associação de Assistência ao ExcepcionalAssociação Carpe Diem, Associação dos Pais Banespianos de Excepcionais (Apabex), Associação para O Desenvolvimento Integral do Down (Adid), Associação para profissionalização, orientação e integração do excepcional (APOIE)Associação para Desenvolvimento, Educação e Recuperação do Excepcional (Adere)Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência (Avape), Centro Israelita de Apoio Multidisciplinar (CIAM) – Aldeia da Esperança, e Grupo Chaverim, além de familiares de pessoas com deficiência intelectual.

O Grupo de Estudos sobre a Vida Adulta e o Envelhecimento das Pessoas com Deficiência Intelectual recolheu avaliações de aproximadamente 300 pessoas na Grande São Paulo, com base em parâmetros clínicos, psiquiátricos e de cognição. Foram avaliados questionários respondidos pelos cuidadores de 195 indivíduos com deficiência intelectual – sendo 39 com Síndrome de Down e 156 sem a síndrome -, com idade média de 45,5 anos. Além de um grupo de controle composto por 77 pessoas sem deficiência na mesma faixa etária. E, ainda, um terceiro grupo de 25 irmãos das pessoas com deficiência intelectual, com idade média de 47,9 anos.

É necessário um trabalho diferenciado, no qual não pode haver exclusão, algo que existe até mesmo na família.

As maiores dificuldades físicas relatadas foram: caminhar, mastigar e engolir, tomar banho, higienização após o uso do banheiro, cansaço excessivo, saúde bucal, alteração de peso e autonomia no transporte. Em avaliações neurológicas, os principais problemas se apresentam na fala e na compreensão de frases. Sob o ponto de vista psiquiátrico, o trabalho registrou apatia, alteração do humor e presença de sinais de transtorno obsessivo-compulsivo. Na pesquisa, grande parte das pessoas com deficiência intelectual se recusa a participar de atividades sociais em grupo.

“É fundamental haver políticas de atendimento e prevenção de doenças, com foco em patologias que podem ter sequelas minimizadas, além de atenção especializada e precoce, logo no começo da vida adulta, a partir dos 25 ou 30 anos, que priorizem também a inclusão no trabalho e laser, esporte, cultura e educação. É necessário um trabalho diferenciado, no qual não pode haver exclusão, algo que existe até mesmo na família. O incentivo à atenção individualizada busca uma vida mais saudável e menos cara, porque a falta dessa preocupação precoce resulta em muito mais gastos no futuro”, afirma Laura Guilhoto.

Laura Guilhoto é coordenadora técnico-científica do Instituto APAE de São Paulo. Foto: Divulgação

Laura Guilhoto é coordenadora técnico-científica do Instituto APAE de São Paulo. Foto: Divulgação

O estudo também encontrou indícios de que os irmãos e familiares muito próximos também têm envelhecimento menos saudável por causa do contato diário. “São pessoas com a mesma herança genética e que estão no mesmo ambiente. Isso também tem relação com o tempo gasto com o cuidado com a outra pessoa. Por isso, o cuidador profissional é importante, como é feito em outros países. Mas é importante valorizar a vida adulta e a autonomia da pessoa com deficiência”, defende a coordenadora.

A falta dessa preocupação precoce resulta em muito mais gastos no futuro.

“A sociedade precisa dar oportunidade para todos. Precisa haver a integração. Essa é a base da diversidade. No Brasil, não há essa política. O universo da reabilitação até melhorou, mas é concentrado em São Paulo, com acesso a saúde, educação e trabalho. O que mais falta são moradias especializadas, como uma república, com tutores”, diz a neurologista.

Segundo Laura Guilhoto, o próximo passo do trabalho é estudo longitudinal, que aguarda financiamento. “É importante que seja feito em todo o país”, conclui.

Foto: APAE SP

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