Libras nas escolas de Santos

Libras nas escolas de Santos

Cidade do litoral paulista tem intérpretes da Língua Brasileira de Sinais em todas as escolas da rede municipal. Duas unidades são polos. Ensino regular mantém aulas de Libras para estudantes surdos e ouvintes. Prefeitura oferece curso gratuito para funcionários. Procura pela profissão de intérprete e tradutor está em crescimento na região.

Luiz Alexandre Souza Ventura

29 de junho de 2019 | 12h47


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Descrição da imagem #pracegover: Na sala de aula, a professora está em pé e uma intérprete de Libras está sentada na frente de dois estudantes surdos. Crédito: Isabela Carrari / Prefeitura de Santos.


É aula de Língua Portuguesa, turma do 7ºA, escola municipal Pedro II, bairro Ponta da Praia, em Santos, litoral sul de SP. A partir do poema ‘Paraíso’, de José Paulo Pais, escrito na lousa, a professora Eliana Márcia Pinto explica aos alunos os modos indicativo, subjuntivo e imperativo dos verbos.

Ela contextualiza a gramática com a causa ambiental, tema do poema, para que o conhecimento faça sentido ao dia a dia dos estudantes. Simultaneamente, a intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras), Luciana de Cássia Lopes, traduz o conteúdo para Nathan Nascimento de Araújo, 12 anos, e Rayane Sakamoto Tobias, de 15.

Os dois estão entre os 38 estudantes surdos matriculados no ensino fundamental da rede municipal, atendidos por 22 intérpretes em todas as unidades, sendo a Pedro II e a 28 de Fevereiro, no bairro do Saboó, escolas polos na cidade. Ambas contam com Salas de Recursos para Atendimento Educacional Especializado (AEE) para estudantes surdos, além da sala de aula regular. “Não consigo estudar se não tiver uma intérprete”, diz Nathan, em Libras.


‘PARAÍSO’ (José Paulo Pais)

Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóvel matar gente,
mas para criança brincar.

Se esta rua fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?

Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.

Se este mundo fosse meu,
eu fazia tantas mudanças
que ele seria um paraíso
de bichos, plantas e crianças.


A Unidade Municipal de Ensino Pedro II é modelo de inclusão há duas décadas. Além dos recursos básicos de acessibilidade, tem placas com alfabeto em Libras nas paredes, intérpretes em salas de aula, estudantes cantam o hino da cidade e do Brasil em Libras no pátio, e todos surdos e ouvintes comunicam sem barreiras.

“A escola tem alunos surdos na sala regular desde 2000. É natural a relação das crianças. E as intérpretes fazem um trabalho para que alunos ouvintes conversem com alunos surdos, sem a presença delas nessa comunicação, para criar independência nas relações”, explica a professora de Educação Especial, Margaret Pereira, que atua na sala de recursos para alunos surdos.

“Esse trabalho promove autonomia. A inclusão real só acontece quando a gente percebe que o aluno surdo consegue se virar no recreio ou em sala de aula, mesmo com a presença da intérprete”, diz Margaret.



“É melhor ter uma intérprete comigo”, diz Rayane Sakamoto Tobias, que é surda e tem baixa visão. Ela usa um plano inclinado de madeira sobre a mesa para apoiar seus livros e cadernos.

Para a intérprete Luciana de Cássia Lopes, sua atuação em todas as disciplinas, de matemática a ciências, estabelece uma relação de confiança com o aluno e com o professor. “É cuidado e trabalho conjunto na busca por resultados satisfatórios. Além de um canal comunicativo entre professor e aluno, e também entre os alunos surdos e seus colegas de classe, somos a ponte entre professores regulares e da educação especial”, afirma.

A especialista defende o planejamento em parceria. “É imprescindível. Alguns professores já trazem conteúdos em Libras, um vídeo por exemplo”, explica.

“São pessoas muito ‘visuais’ e temos assuntos, algumas vezes, abstratos”, ressalta a professora Eliana Márcia Pinto. “Conteúdos nesse formato (visual) são bons para todos”, comenta.


Descrição da imagem #pracegover: A estudante Rayane Sakamoto Tobias, de 15, tem cabelo pretos, longos e lisos. Usa óculos. Está olhando para frente e fazendo um sinal em Libras. Na mesa à sua frente, um plano inclinado de madeira que ela usa para apoiar livros e cadernos. Crédito: Isabela Carrari / Prefeitura de Santos.


Após a aula regular, com acompanhamento da intérprete em sala, os alunos surdos permanecem na escola para o Atendimento Educacional Especializado na chamada Sala de Recursos.

São estratégias, adaptações de provas, oralidade, Português escrito, expressões facial e corporal, Libras, tudo por meio de jogos, livros, dicionários e websites educacionais.

“Quem pensa que a sala de surdos é silêncio está enganado. Aqui é falatório o tempo inteiro”, celebra a professora de educação especial Margaret Pereira.

Na UME Pedro II, alunos ouvintes e surdos têm aulas semanais de Libras durante as disciplinas no ensino regular. Tudo planejado entre professores e intérpretes. Além disso, outra professora, Karoline Amparo, uma das vencedoras do Prêmio Educador Santista 2018, desenvolve projeto na unidade para alunos e familiares.


Alunos da rede pública de Santos aprendem Libras


Yasmim Cavalcanti Neres dos Santos, de 12 anos, que não é surda, quer ser intérprete de Libras. O desejo nasceu das relações na escola. Ela, Rayane e Nathan conversam no intervalo, brincam de pega-pega e de jogo da memória em Libras.

“Tenho vários amigos com dificuldade de audição aqui na escola e eu queria aprender para ficar mais fácil de me comunicar com eles. Queria entendê-los e fazer com que eles me entendessem”, diz a menina, que já ensinou Libras para sua família.

Regulamentada pela Lei Nº 12.319, de 1º de setembro de 2010, a profissão de tradutor e intérprete de Libras está em crescimento na cidade. Segundo a Congregação Santista de Surdos (C.S.S.), o motivo é o aumento da procura para o aprendizado.

“Há quatro anos, abríamos seis turmas anuais para curso livre, em média. Somente em 2019, estamos na 16ª. No ano passado foram 440 alunos e, neste ano, já chegamos a 240, muitos com o propósito de aprender para ser intérprete”, afirma Alessa Alves, coordenadora dos cursos da Congregação. “Em agosto começa o curso de tradutor e intérprete”, diz.

A Prefeitura de Santos oferece desde 2007, na UME Pedro II, curso gratuito de Libras para funcionários da Secretaria de Educação (Seduc), equipe técnica das escolas, outros funcionários e público em geral. Neste ano já foram 60 participantes. Em dezembro será publicada no Diário Oficial da cidade a abertura das novas turmas para fevereiro de 2020.

Uma turma começa em também agosto. O curso, para pessoas acima de 18 anos, é dividido em três módulos, com carga de 180 horas ao longo de um ano e meio, com aulas vocabulário, cultura surda e gramática de Libras.

Do curso de Libras surgiu o ‘Coral Mãos que Encantam’, formado pelos participantes, que se apresentam em eventos da Seduc e nas edições da Virada Inclusiva de Santos, organizada pela Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura. E o projeto ‘Sentindo a Música’ tem curso de dança gratuito voltado para surdos, que englobam dança de salão, forró e samba.


Turismo cultural e histórico com acessibilidade em Santos


Profissionais surdos também ensinam Libras. Patricky Borges, de 21, morador do Guarujá, trabalha no projeto Escola Total, lecionando para crianças entre 5 e 10 anos. Foi sua primeira oportunidade de emprego.

“As crianças têm muito interesse e será útil no futuro, até mesmo em relação a trabalho, visto que mais atenção está sendo dada à Libras atualmente. Acredito que as crianças, futuramente, contribuirão para a convivência entre surdos e ouvintes na sociedade”, comemora Patricky.

Para o intérprete Thyago Neves Silvestre Antônio, de 32 anos, que não é surdo, a profissão está em ascensão. “A necessidade de intérpretes é muito grande e a quantidade de pessoas habilitadas para as vagas é pequena. Não importa a área em que um profissional atue, saber Libras é um diferencial, pois os surdos estão em todos os lugares e fazem uso de diversos serviços”, diz.

“Na não há atendimento para surdos no supermercado, no hospital, na delegacia, na farmácia. O que a comunidade surda espera é que isso realmente se amplie, para que, em qualquer lugar, haja comunicação”, defende a professora de educação especial da UME Pedro II.


Central de Libras amplia inclusão no trabalho em Santos


Maria de Lourdes Medeiros de Abreu, de 55 anos, é uma ‘mãe pela inclusão’. Sua filha Larissa Mariane, de 25 anos, ficou surda aos 3 anos. Ex-aluna da rede municipal de ensino, desde 2017 a jovem voltou ao ensino público para, desta vez, compartilhar seu conhecimento em Libras com alunos ouvintes na escola municipal Andradas II.

Larissa e Maria de Lourdes frequentam juntas a faculdade (Unip-Santos) de Pedagogia. A universidade tem intérprete de Libras na sala de aula, mas Maria de Lourdes chegou a participar das aulas da filha, quando surgiu seu interesse em ingressar no curso superior.

“Quero falar de igual para igual na minha luta”, diz Maria de Lourdes, que é presidente da Associação Abrindo Fronteiras para a Inclusão (AAFIN).

Larissa dá aula de Libras para crianças. “Ela aprendem com mais rapidez e crescem tendo consciência da importância de se comunicar e respeitar, diminuindo o preconceito por meio do conhecimento”, completa a estudante.

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