“Lidar com o mundo que não entende o autista é o desafio”

“Lidar com o mundo que não entende o autista é o desafio”

Eddy de Kwant, de 24 anos, mora na Holanda. Estuda matemática e economia, trabalha na área administrativa de uma empresa e já foi um "autista severo", como ele mesmo explica. "Adapte-se para não sofrer, mas nunca para se sacrificar pelo que a sociedade espera de você".

Luiz Alexandre Souza Ventura

19 de abril de 2021 | 09h31

Foto de Eddy de Kwant, homem branco, de 24 anos, com cabelos pretos e curtos, usa óculos de aros prateados e veste camisa cinza escuro. Está sorrindo e olhando para a câmera. Crédito: Arquivo pessoal.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Eddy de Kwant, homem branco, de 24 anos, com cabelos pretos e curtos, usa óculos de aros prateados e veste camisa cinza escuro. Está sorrindo e olhando para a câmera. Crédito: Arquivo pessoal.


Depoimento de Eddy de Kwant*, exclusivo para o #blogVencerLimites.

Meu nome é Eddy, mas todos me chamam de Edinho. Fui um autista severo. Hoje, me chamam de autista leve por ter conseguido minha independência, chegar na faculdade, trabalhar, dirigir e andar por aí como qualquer pessoa.

Eu me lembro bem pouco dos primeiros anos difíceis, mas sei que um dia eu percebi que era diferente dos outros. 

De tudo que eu passei, lidar com o mundo que não entende o autista continua sendo um desafio. Não que eu não goste de ser como sou, autista. Eu tenho meu jeito de ser e não quero mudar.

Todos os dias, eu tenho necessidade de ficar sozinho, sempre que minha cabeça está cheia, o que acontece depois de um dia de trabalho e faculdade. Isso porque meu maior desafio é socializar, lidar com as pessoas, e o que elas esperam de mim, assim como as regrinhas sociais que só os neurotípicos entendem bem, e a imprevisibilidade deles, que mudam regras (e de ideia) o tempo todo, o que me faz ter vontade de ficar na minha, sozinho mesmo.

Outros desafios são os sensoriais, os barulhos fortes, mudança de temperatura e o tecido de algumas roupas que me incomodam muito. Vozes altas de pessoas ou gritos me perturbam bastante, música muito alta também, que é a razão de eu nunca ir a baladas. Tudo isso me incomoda, mas eu aprendi a lidar porque minha vontade de estudar, trabalhar e fazer algumas outras coisas era mais forte.

Chego em casa depois desse dia todo de convivência com pequenas coisas que me incomodam e preciso ficar sozinho para ter paz. Se quem convive comigo entende isso, não tenho problema. Se meus pais reclamassem disso, eu seria bem infeliz. 

Sou feliz porque encontrei um modo de ser eu mesmo, com minhas manias e fantasias, quando estou só. Na rua, na vida, me treinei para conseguir me adaptar, sem surtar como eu fazia até a minha adolescência. Não foi fácil, mas sei que foi decisivo para eu alcançar algumas metas que coloquei para mim. Também aprendi que não só autistas, mas todos os seres humanos têm inseguranças, têm algumas manias e se afastam do que ou de quem não gostam.

Pelo fato de nós, autistas, nos comportarmos desse jeito diferente, os neurotípicos pensam que vivemos no nosso “próprio mundo”, que temos pouca empatia, e somos estranhos. Vejo esse estigma se repetir a cada vez que ouço pessoas discutindo sobre autismo ou em algumas matérias na mídia, o que é incorreto, já que muitos autistas falam exatamente o contrário: que a gente vive num só mundo, que a gente tem empatia, e que a gente não é estranho, mas legal de uma forma diferente.

A negatividade em relação ao autismo tem a ver com a postura da sociedade em relação ao TEA, não à nossa postura em relação a nós mesmos.

Infelizmente, eu noto que muitas pessoas com ou sem autismo usam máscaras (no sentido figurado, não é a proteção facial contra a covid-19), sem necessidade, até mesmo quando estão em casa, com a família. Não ser quem a gente é tem um preço. Dizer o que a gente sente é importante, pelo menos, em casa, com quem ama a gente.

Eu noto que alguns autistas parecem deprimidos, pode ser por quererem se comportar como a sociedade espera e se esforçarem para serem “normais”, até mesmo quando estão sozinhos em casa. Eu não gostaria de chegar em casa e ter que conversar com outras pessoas, ser sociável, ouvir música alta, e ficar vestido com as roupas que me apertam o dia todo, sem ter uma razão muito forte. Eu chego em casa, janto, bato um papinho com meus pais e vou para meu quarto, fecho a porta, tiro minha roupa apertada e relaxo com meus hiperfocos, o que me dá a maior energia e me recupera de todo o esforço social do dia. 

Por volta dos meus 19 anos, comecei a fazer reflexões sobre tudo, inclusive sobre minha infância e puberdade como autista severo. Percebi que sempre fui feliz porque ninguém me cobrava nada. Eu ria muito e acho que quando vejo um autista severo rindo, só posso pensar no quanto ele é feliz. O sorriso de um autista severo que não fala demonstra a sua felicidade e seus pais deveriam saber disso.

O que atrapalha a felicidade são as correções para que a gente pareça normal. Não somos e não seremos, mas podemos aprender a viver juntos, sem problemas. 

A todas as pessoas, autistas ou não, eu peço para não usarem “máscaras” que escondam quem são, de verdade. Use essa máscara quando não houver opção, e houver lógica para isso, para não enfrentar problemas. Adapte-se para não sofrer, mas nunca para se sacrificar pelo que a sociedade espera de você.

*Eddy de Kwant tem 24 anos e mora em Papendrecht, no sul da Holanda. Cursa o último ano de Matemática e Economia na Da Vinci College, em Dordrecht, e começa em setembro o curso de Ciências Contábeis na Avans Hogeschool, em Breda. Trabalha na cidade de Sliedrecht como auxiliar de administração em uma empresa de empacotamento de alimentos.


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