Minha tola ‘autoridade’ de pessoa com deficiência

Minha tola ‘autoridade’ de pessoa com deficiência

Em pequenos momentos da vida, a boa comunicação, simples e completa, pode resolver impasses de forma muito mais eficaz. Saber quem sou é fundamental para poder dizer ao outro o que preciso. Decidir que esse outro jamais poderá compreender minha necessidade é um ato de burrice e arrogância.

Luiz Alexandre Souza Ventura

17 de junho de 2017 | 16h34

Eu simplesmente não consegui pedir o recurso de acessibilidade correto. Foto: blog Vencer Limites

Eu simplesmente não consegui pedir o recurso de acessibilidade correto. Foto: blog Vencer Limites


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A cafeteria estava vazia e, assim que chegamos, antes mesmo de escolher uma mesa, fizemos nosso pedido. Dois cafés expressos, um pequeno para minha mulher e outro grande para mim. Gosto de um cafezão logo depois do almoço.

Como sempre, dei uma olhada nas xícaras grandes e percebi que, pelo formato da asa, eu não conseguiria segurar. A Síndrome de Charcot-Marie-Tooth afeta mais a minha mão direita. E o movimento motor fino é prejudicado, principalmente a força da pinça entre os dedos indicador e polegar.

Já sentado, perguntei à atendente se a casa tem canecas, e expliquei de forma básica minha dificuldade. A funcionária disse que não. Então, pedi que meu café fosse servido em copo para viagem. Costumo fazer isso para facilitar as coisas porque, em muitos estabelecimentos, cada bebida tem seu vasilhame específico, e também para evitar qualquer confusão que possa constranger quem está do outro lado do balcão.

Os cafés foram servidos. O meu no copo de isopor. Estavam ótimos.

Quando terminamos percebi que havia sobre a máquina canecas de vidro transparente para cappuccino. E, do alto de minha tola ‘autoridade’ no assunto, disse à atendente que ela poderia sugerir aos proprietários a liberação daquelas xícaras em casos como o meu.

As melhores lições da vida, aquelas que você jamais esquece, costumam surgir quando você pensa ser o dono de todo o conhecimento para resolver um problema. E a atitude daquela atendente na Doceria Miroane, em Santos, litoral de SP – local que frequento faz bastante tempo -, foi o grande ensinamento do dia.

“Você poderia ter pedido diretamente o café naquela caneca. Serviríamos sem problema. Eu não pensei nisso porque foi a primeira vez que recebemos um pedido como o seu, mas na sua próxima visita basta solicitar”. Com a resposta ela me mostrou que eu simplesmente não consegui pedir o recurso de acessibilidade correto para a minha deficiência. E ainda sugeri que ela não iria entender minha necessidade.

Exigir rampas, elevadores, escadas, piso tátil, placas em braile, interpretação em Libras, audiodescrição e legendas para que pessoas com deficiência possam ter acesso seguro e garantido a prédios, eventos culturais, locais de trabalho, banheiros e estabelecimentos comerciais – inclusive casas que servem café – faz parte do cotidiano, mas são os detalhes que modificam essa dinâmica para melhor ou pior.

Em pequenos momentos da vida, a boa comunicação, simples e completa, pode resolver impasses de forma muito mais eficaz. Saber quem sou é fundamental para poder dizer ao outro o que preciso. Decidir que esse outro jamais poderá compreender minha necessidade é um ato de burrice e arrogância.


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